‘Olha, mãe, o palhaço tá bem aqui’: grupos artísticos reencontram o público no interior do Ceará

Retomada de espetáculos presenciais aponta novos caminhos para lugares onde a arte dificilmente chega

Legenda: Chegada do espetáculo “Chafurdo”, do grupo Dona Zefinha, em um dos distritos de Itapipoca demonstrou o vigor da arte feita de forma presencial
Foto: Joélia Braga

Localizado a 25 quilômetros do centro de Itapipoca, interior cearense, o distrito de Assunção recentemente foi palco de uma mudança no olhar. A chegada do espetáculo “Chafurdo”, do grupo Dona Zefinha, no início de outubro, movimentou e proveu emoção a essa localidade abreviada no mapa – embora tão receptiva quando o assunto é arte.

As crianças foram as primeiras a testemunhar o encantamento. “Olha, mãe, o palhaço tá bem aqui”, exclamavam, em alta voz. De fato, após quase dois anos confinados, não apenas o palhaço, mas toda a trupe de atores, produtores e vários outros profissionais migraram das telas para a realidade presencial, otimizando essa acalorada reação.

“Ficou o gostinho de ‘quero mais’ nas pessoas, e acho que isso é o mais impactante no retorno dessas apresentações. A gente quer ver mais, queremos vivenciar mais isso”, situa Paulo Orlando, produtor do Grupo Dona Zefinha, gestor da casa de teatro mantida pela agremiação, ator e palhaço.

Legenda: O olhar concentrado das crianças durante apresentação teatral no distrito de Assunção, em Itapipoca
Foto: Joélia Braga

No momento circulando por Itapipoca através do projeto Território Inventivo – mostra itinerária de artes cênicas e apresentações musicais – o multiartista demonstra a satisfação de mergulhar nos rincões do Ceará, descentralizando o fazer criativo, ao mesmo tempo que estreitando os laços com as comunidades.

E são vários os tipos de paisagens palmilhadas pelo grupo. Uma vez ser Itapipoca conhecida como “a cidade dos três climas” – possuindo no território a presença de mar, serra e sertão – as atividades vão além do lugar comum, inspirando uma correlação entre pessoas e as mais variadas linguagens artísticas – do teatro à música, da palhaçaria à formação técnica.

“Nossa chegada tem sido uma surpresa para os habitantes. Estar numa comunidade como Assunção e ver aquelas pessoas ansiosas para sentar nas cadeiras – embora todo mundo ainda muito distante, com aquela sensação esquisita – foi emocionante, tanto para os artistas quanto para o público. Caracterizo esse retorno como uma grande ansiedade afetiva de se fazer arte com um olhar presencial”, sentencia Paulo.

Legenda: “Quando estamos no palco e vemos o público feliz – respeitando a situação de pandemia, mas querendo vivenciar aquele momento – é muito emocionante", situa Paulo Orlando
Foto: Joélia Braga

Laços e estradas

Gratuita, a programação do Território Inventivo segue até dezembro, com espetáculos teatrais, shows musicais e ações de artes urbanas em escolas, praças, distritos, comunidades quilombolas, indígenas e na zona rural da cidade de Itapipoca. A mostra também realizará ações de formação para profissionais da cultura, compreendendo palestras, cursos e oficinas.

Todo o projeto leva a assinatura e a curadoria do Grupo Dona Zefinha, que, assim como tantos outros, precisou se reinventar na pandemia a fim de continuar os trabalhos. Durante esse período, foram inúmeras as conexões, a ponto de algumas delas se fazerem presentes também agora, na retomada das práticas presenciais.

“Quando estamos no palco e vemos dos bastidores o público feliz – respeitando a situação de pandemia, mas querendo vivenciar aquele momento – é muito emocionante. A arte foi feita para o olhar, e o olhar presencial é muito significativo porque aquece o coração e o trabalho dos artistas”.
Paulo Orlando
Produtor, gestor, ator e palhaço

Sentimentos presentes desde outubro e que se multiplicaram neste novembro, mediante parceria com o Festival Balaio Negro. A iniciativa, promovida por várias lideranças do movimento negro de Itapipoca, fez com que a agremiação estabelecesse laços com artistas do porte da cantora, compositora, atriz e arranjadora musical, Luiza Nobel, por exemplo, no período em que se celebra o Mês da Consciência Negra.

Não sem motivo, para além do mágico encarar das plateias, fica em Paulo Orlando a extrema relevância de os artistas voltarem a se reconhecer nesse novo velho panorama. “Uma evolução artística tem ocorrido entre nós. É preciso, sim, fazer arte onde estivermos, seja no palco ou sentado numa cadeira, dialogando com milhares de olhares por meio de uma câmera, de uma rede social. Essas histórias possibilitam novos encontros”, vibra.

Legenda: A cantora, compositora e atriz Luiza Nobel fez show em Itapipoca, numa parceria entre o grupo Dona Zefinha e o Festival Balaio Negro
Foto: Divulgação

E complementa: “As pessoas estão entendendo que, se a gente não se ajudar, se não cuidarmos uns dos outros, podemos perder essa questão da arte presencial de novo. Tanto é que, nessa retomada, o público está dizendo que vai colocar a máscara, o álcool em gel e que vai se vacinar. Senão, tudo vai voltar, e a metade vai pagar pelo todo, ou vice-versa”.

Alcance diverso

Igualmente atravessando o Estado levando o vigor do fazer teatral, o ator e diretor Sidney Malveira tem semelhante percepção. Ele apresenta o espetáculo-solo “Anônimos”, há 15 anos na estrada, e conta dos sentimentos envolvidos a partir do retorno das apresentações presenciais numa escala intermunicipal.

“É uma série de emoções: a sensação da nossa vida artística estar realmente voltando ao normal; a coisa gostosa da viagem, de entrar em contato com um festival por meio de todo o cuidado que as cidades nos recebem; além do fato de estarmos circulando, interagindo com públicos diferentes e que realmente não têm uma demanda artística de espetáculos vindos de outras cidades – da Capital, por exemplo”, considera.

Legenda: O ator e diretor Sidney Malveira em diálogo com habitantes de Canindé sobre a arte teatral
Foto: Arquivo pessoal

Malveira integra a programação do Circula Ceará – iniciativa do Governo do Estado por meio da Secretaria da Cultura (Secult-CE), em parceria com a Fundação Nacional das Artes (Funarte). O projeto visa levar trabalhos artísticos aos quatro cantos de nosso chão, beneficiando artistas e comunidades por meio das mais intensas trocas no segmento.

No caso de Sidney, além da apresentação de “Anônimos”, a ida ao município de Canindé no início deste mês fez com que o ator e diretor partilhasse os conhecimentos por meio de momentos formativos. Para ele, cada um desses encontros representou renovação. “O teatro sem o público não é a mesma coisa. Não é teatro. Ele é feito ao vivo, presencial, então, mais do que ninguém, sofreu muito com essa questão da pandemia”, percebe.

“Por isso que, apesar de eu ter me ‘virado nos 30’, me reinventando no confinamento, o prazer da retomada presencial não tem preço. Todos saem ganhando, principalmente ao obedecer os protocolos nos momentos das apresentações. No geral, tudo já tem sido inspirador, estou me sentindo renovado, aquela energia de que estamos vivos, de que a arte está viva e efervescente novamente. Esse é o grande barato”.
Sidney Malveira
Ator e diretor

Sempre continuar

Ainda que o cenário esteja mais favorável para diálogos cara a cara, os desafios enfrentados ainda são imensos. Um deles diz respeito ao próprio modo como o público recebe as apresentações – algo capaz de provocar situações curiosas.

Sidney Malveira conta que, durante uma das encenações de “Anônimos” em Canindé, uma moça saiu da sala após o contato com o artista por meio do tato, a fim de lavar as mãos e os braços – mesmo que o álcool em gel estivesse disponibilizado no recinto.

Legenda: Circulando com "Anônimos" há 15 anos, Sidney apresentou o espetáculo no interior do Ceará, estreitando o contato com o público
Foto: Arquivo pessoal

“O espetáculo tem como princípio contar com a participação de pelo menos duas pessoas da plateia, de modo a interagirem de verdade comigo, com a história. Então, quando ocorreu a apresentação na cidade durante essa retomada, isso aconteceu”, detalha. Ele, contudo, enxerga essa reação como um passo natural.

“É um processo. Todos estão com muita vontade desse retorno, de frequentar os ambientes culturais, mas tenho sentido que ainda é tudo muito gradativo. Estamos conquistando de novo a chegada do público, essa efervescência... A gente, assim, vai se superando”.

No íntimo, prossegue a relevância de descentralizar o fazer artístico. Ao completar 25 anos de carreira artística neste ano, Malveira pretende chegar cada vez mais distante, em praças esfomeadas de arte, cultura e vida. “É fantástico ter a oportunidade de circular, de descentralizar o fazer. Isso é essencial”, dimensiona.

“Sabemos que, na verdade, a demanda é muito maior do que a oferta, mas infelizmente não há recurso para contemplar todo mundo. Mostras como essa, do Circula Ceará,  concedem não apenas aos artistas, mas a todos os diferentes públicos, a oportunidade de estarmos interagindo, mostrando um pouco da produção que é feita no nosso Estado. Isso é muito renovador porque também é um reconhecimento e uma valorização do nosso trabalho, e oportuniza que o público tenha acesso a ele”, finaliza, como que entoando os velhos versinhos do Titãs: “A gente não quer ser comida/ A gente quer comida, diversão e arte”. Para a capital, para o interior e para onde ela mais for.


Serviço
Mostra Território Inventivo, do Grupo Dona Zefinha
Até dezembro, em Itapipoca (CE). Gratuito. Mais informações, pelas redes sociais do grupo

Circula Ceará
Mais informações no perfil da Secult-CE e no do próprio evento, ambos no instagram

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