Ocorrência da Síndrome de Burnout alerta para a sobrecarga das jornadas de trabalho

Insônia, tontura, problemas gástricos e sentimento de incompetência se relacionam com a síndrome. Especialistas analisam como as condições laborais podem favorecer o transtorno e indicam medidas preventivas

Quem já se viu prestes a largar tudo e recomeçar a carreira do zero, sem capacidade de se reinventar dentro da profissão, pode estar "burnouteado". Este termo, oriundo da síndrome de Burnout, é um tipo de esgotamento em decorrência do estresse crônico no ambiente de trabalho. Embora não seja considerado doença, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o fenômeno ocupacional seja prevalente nos próximos anos.

Ocupação central na vida do ser humano, o trabalho tanto é necessário para a sobrevivência como se torna algo que influencia, bem ou mal, vários outros aspectos da rotina contemporânea. Para a psicóloga Noalia Araújo, doutoranda em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (Unifor), o típico burnouteado chega ao atendimento psicológico sem ver mais sentido na sua profissão e, muitas vezes, já pensa em tentar outra carreira e seguir um plano de estudo - outros ainda se sentem "incapazes" de conduzir qualquer carreira e até a própria vida.

"Outro dia, atendi um paciente que nunca tinha horário pra fazer a terapia. Quando consegui ouvi-lo, ele disse que trabalhava os três turnos e que tinha dois empregos. Aos sábados, também dava expediente e ainda fazia especialização", descreve a psicóloga, traçando um perfil que, em outros tempos, era exceção, e hoje se tornou recorrente.

Segundo Noalia, a aflição dos pacientes passa por queixas diversas. As situações mais citadas dentre os burnouteados são: não saber lidar com metas muito exigentes; não ter disposição e tempo para a vida fora do ambiente de trabalho; dar expediente em função de uma gestão muito controladora e a falta de autonomia.

Indagada se o excesso de informação seria um dos fatores para sobrecarregar o trabalhador, Noalia Araújo acrescenta que a configuração laboral de hoje tem exigido que as pessoas sejam polivalentes. A demanda acaba sendo outro gatilho para desencadear a síndrome de Burnout, por conta do sentimento de despreparo diante daquilo que é solicitado. "O excesso, então, é também de cobranças e metas", sintetiza .

Na rotina de empresas e demais organizações, é comum encontrar o empregado "full time". Dentre as suas atribuições, ficar conectado via whatsApp, por exemplo, o dia inteiro, à disposição das demandas do serviço, é uma realidade. A psicóloga esclarece que essa possibilidade de conexão termina por desrespeitar o limite da quantidade de horas combinadas nos contratos trabalhistas. "E aquela pessoa que tem um celular da empresa, e às vezes se acha orgulhoso por isso, vai receber uma ligação às 22h, pra atender demandas. Essas relações sobrecarregam esse indivíduo e vão gerar adoecimento", detalha.

Prevenção

Quando se fala na prevenção à síndrome de Burnout, as orientações mais comuns, segundo o psicólogo da rede educacional Minds Idiomas e especialista em carreiras Augusto Jimenez, envolvem a recomendação da prática regular de atividades físicas, da definição de objetivos a curto prazo, da fuga de ocupações rotineiras, diálogo com a gestão do trabalho e redução dos hábitos de interação tecnológica.

No entanto, as soluções apontam para uma mudança de atitude do empregado, e mal envolve o empregador. Noalia Araújo enfatiza que a responsabilidade também cabe à direção das organizações e reflete sobre o equilíbrio da situação, ainda que se viva em um contexto com as empresas estipulando metas produtivas.

"Alguns recursos podem ser mobilizados para minimizar os sofrimentos. Conheço uma empresa, onde se trabalha só com mulheres, e elas conseguiram produzir combinando uma flexibilidade no horário de serviço. Na sexta, elas conseguem sair às 13h, entendendo que precisam cuidar da vida fora dali", relata Noalia.

Sinais

Para o especialista Augusto Jimenez, os sinais da síndrome de Burnout podem ser confundidos com outros transtornos psíquicos. De início, a doença costuma se manifestar em quadros de exaustão temporários. No entanto, uma sequência dessa situação pode levar o trabalhador à depressão profunda.

Dentre os sintomas mais claros de manifestação do transtorno, estão a irritabilidade, a instabilidade de humor, o isolamento, a ansiedade, o pessimismo, a fadiga constante e a baixa autoestima. Incômodos físicos como a dor de cabeça, pressão alta, dores musculares e palpitação também costumam acompanhar os pacientes burnouteados. Um quadro grave da doença traz perda total de motivação, distúrbios gastrointestinais e indicativo de tratamento psiquiátrico.

Registrada no Grupo V da CID-10 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), a síndrome de Burnout e outros transtornos da mente têm figurado entre os principais obstáculos na vida dos trabalhadores, sobretudo do início deste século XXI.

Antes disso, ainda na década de 1990 e no começo dos anos 2000, as doenças laborais eram mais ligadas à atividade manual, a exemplo da tendinite, da síndrome do túnel do carpo, do dedo em gatilho e da lesão por esforço repetitivo (a "LER").

Com a "digitalização" do serviço, consolidada por meio do uso de computadores e celulares na rotina laboral, a ocorrência de enfermidades mentais tornou-se predominante nesse contexto. Apesar disto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não classica a síndrome como doença ou uma condição de saúde, mas um fenômeno ocupacional.

Dicas de Prevenção

Defina pequenos objetivos na vida profissional e pessoal

Evite a rotina e participe de atividades de lazer

Compartilhe o que sente com alguém de confiança

Reduza o uso de tecnologia

Faça atividades físicas regulares

Evite o excesso de bebidas alcoólicas, tabaco ou outras drogas que estimulam a confusão mental

Não tome remédios sem prescrição médica

Fonte: Portal do Ministério da Saúde

Serviço
Plantão Psicológico Unifor - Saúde do Trabalhador

Atende, gratuitamente, pessoas que estejam em situação de sofrimento com o trabalho. Interessados devem portar RG e comprovante de residência. Todas as terças, das 8h às 10h (em junho e julho, entra em recesso), no Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI) (Rua Desembargador Floriano Benevides, 221, ao lado do Fórum Clóvis Beviláqua). Contato: (85) 3477.3643 e 3644.

 

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