Nos 70 anos da novela no Brasil, conheça a relação do Ceará com esta paixão nacional

Do pioneirismo de artistas locais nos 1960 até as recentes produções globais, preparamos um resgate deste popular gênero audiovisual na casa dos cearenses

Escrito por Antonio Laudenir, laudenir.oliveira@svm.com.br

Verso
Alessandra Negrini e Murilo Benício em
Legenda: Alessandra Negrini e Murilo Benício em "Meu Bem Querer"
Foto: Nelson Di Rago

As telenovelas estão há 70 anos nos lares brasileiros. A relação dos cearenses com essas obras nasce no dia 1° de dezembro de 1960, após a chegada da TV em Fortaleza. As primeiras novelas transmitidas na cidade saíram da imaginação e garra de artistas e equipes técnicas da Terrinha. 

O estabelecimento dos estúdios do Canal 2 (TV Ceará) demarcou novos ares ao setor de comunicações do Estado. Tudo era filmado ao vivo e o território das novelas contemplavam adaptações de clássicos da literatura. E teve produção local que chegou a concorrer a premiação internacional.  

Referência brasileira na pesquisa e preservação da cultura popular, o professor Gilmar de Carvalho (2021) dedicou atenção ao tema. No livro "A Televisão no Ceará (1959-1966): Indústria cultural, consumo e lazer", o autor reserva um capítulo para contar essa história. 

Novelas ao vivo: atores Wilson Machado, Emiliano Queiroz, Rinauro Moreira e João Ramos
Legenda: Novelas ao vivo: atores Wilson Machado, Emiliano Queiroz, Rinauro Moreira e João Ramos

A história das novelas no Ceará acompanha as transformações técnicas deste popular recurso audiovisual. “Mas é inegável que emoções, escapismo, lazer e hábito fizeram desses folhetins eletrônicos a maior contribuição brasileira à história da tevê”, reflete Gilmar de Carvalho. 

Passado esse ciclo pioneiro, o Ceará voltaria à teledramaturgia com as criações "made in Rio" da Rede Globo. Com o tempo, além do talento de atores e atrizes locais, o Estado também contribuiu emprestando as belezas naturais como cenário destas produções. 

Estamos no ar 

Segundo "A Televisão no Ceará (1959-1966)", as telenovelas iam ao ar nos programas "TV de romance" (segundas, quartas e sextas) e "Videorama" (noites de terças e quintas). A primeira sessão dava espaço a versões feitas especialmente para a tevê de clássicos da literatura. 

Mais próximo do formato da telenovela, "Videorama" investia em temas do cotidiano e até no retrato de dramas psicológicos. "Isso tudo, é claro, encaixado na filosofia de atuação do conglomerado e de acordo com os padrões vigentes nos anos 1960", observa Gilmar de Carvalho.

E o passo inicial das novelas no Ceará acontece no "Videorama". "Poeira vermelha" foi exibida em 1° de dezembro de 1960 e reunia elenco com João Ramos, Lourdes Martins, Laura Santos, Tarcísio Correia e Emiliano Queiroz. O texto foi escrito pelo contista, radialista, professor, autor teatral e de telenovelas, Guilherme Neto (1925-2014). 

Cena de
Legenda: Cena de "Luzia-Homem"
Foto: Acervo Carla Peixoto

No dia seguinte, "TV de romance" entregava "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë. A realização foi de Péricles Leal e o espetáculo inaugural tinha no elenco Danúbio Bezerra, Cleide Holanda, João Ramos, Glice Sales, Wilson Machado, Dora Bastos, Maria José Braz e Paulo Oliveira.

Já nos primeiros meses de 1961, vieram "Horas Amargas" (Guilherme Neto), atração de "Videorama". Coube ao ícone das artes no Ceará, Ary Sherlock, adaptar e realizar "Orgulho e Preconceito". Ary chegou a assinar os figurinos para esta releitura de Jane Austin. Outras crias literárias elogiadas renderam versões, casos de "O triste noivado de Adan Bede" (George Elliot), "Ivanhoé" (Walter Scott), "Oliver Twist" (Charles Dickens) e "Luzia-Homem" (Domingos Olímpio). 

Gilmar de Carvalho destaca que o planejamento de oito capítulos para "Videorama" e doze para "TV de Romance" aproximava  esses espetáculos das minisséries, colocando-os numa perspectiva de vanguarda. Em agosto de 1965, as duas sessões chegavam ao fim. 

Se der carneiro... 

A era do videotape começava a dar as caras no final dos 1960. Já nos últimos anos da TV Ceará, a produção local rivalizava com este aparato técnico inovador. O cantor Ednardo ilustrou bem este cenário nos versos da composição "Carneiro".  "As coisas vem de lá. Eu mesmo vou buscar. E vou voltar em vídeo tapes e revistas supercoloridas...".

O videotape permitia que programas previamente gravados fossem exibidos pelas emissoras. Isso teve efeito imediato nas TVs que atuavam distantes do eixo sul. A produção de conteúdo ao vivo perdia espaço. Assim, conteúdos e novelas de fora do Estado passaram a figurar nas telinhas dos cearenses. 

Legenda: "Os Deserdados": premiação internacional
Foto: Acervo Carla Peixoto

Ou seja, para os artistas locais serem vistos em sua terra natal era preciso migrar para o Sudeste. "Amanhã se der o carneiro, o carneiro. Vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro", alertou Ednardo. Vale destacar que o músico e outros nomes com Belchior e Fagner participavam de atrações musicais do Canal 2.

Curiosamente, de vilão, o videotape permitiu que a saga destes pioneiros fosse iluminada além-mar. A produção "Os Deserdados" (exibida inicialmente com o nome de "A fúria dos justos") representou, em 1967, a televisão brasileira em Barcelona, ganhando a terceira colocação na categoria teleteatro do Prêmio Ondas. "Os Deserdados" foi escrito pelo radialista, escritor e teatrólogo Eduardo Campos (1923-2007) e contou com realização do paraibano Péricles Leal.

Que sotaque é esse?

Em 1994, a Rede Globo exibiu no horário das 18h a novela "Tropicaliente". Escrita por Walther Negrão, o folhetim contou com 194 capítulos. Segundo dados da emissora, uma cidade cenográfica com 3.000 m² foi erguida no Porto das Dunas, no município de Aquiraz.

Herson Capri e Regina Dourado em
Legenda: Herson Capri e Regina Dourado em "Tropicaliente"
Foto: Acervo Rede Globo

A ideia era recriar uma vila de pescadores, destaque da trama. No entanto, os interiores das casas foram montados em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. "Tropicaliente" foi exibida na Bolívia, Chile, Chipre, Guatemala, Indonésia, Nicarágua, Noruega, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, República Dominicana, Rússia, Turquia, Uruguai e Venezuela.

Quatro anos depois foi a vez de "Meu Bem Querer", que contou com locações nas praias de Canoa Quebrada, Morro Branco, Barra Nova, Cumbuco e Jericoacoara. Estes cenários compunham a fictícia cidade nordestina de "São Tomás de Trás".

Final Feliz (1992), de Ivani Ribeiro, estrelada pelo cearense José Wilker também exibiu as paisagens litorâneas de Morro Branco. As temporadas de Malhação em 2019 e em 2017 tiveram cenas iniciais gravadas também no Estado. 

inter@