Lembra do Kichute? Sensação nacional por duas décadas, calçado formou geração saudosa e emocionada

Em livro, diferentes pessoas relatam vivências com o sapato lançado na Copa de 1970 e, desde a época, famoso por calçar os pés de gregos e troianos

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
26 de Outubro de 2022 - 16:00
capa da noticia
Legenda: O Kichute era um misto de tênis básico e chuteira – talvez o primeiro Sapa-Tênis-Chuteira de nossa história – e foi produzido no Brasil pela Alpargatas
Foto: Divulgação

Pretinho básico, jeitão de chuteira, cadarços que amarravam na canela. Fácil matar a charada: estamos falando do Kichute. Sensação nacional por duas décadas – dominou os pés de crianças e adolescentes até meados dos anos 1990 – um dos calçados mais famosos do país evoca saudosismo e emoção.

Pudera: quem usou, não esquece; quem nunca usou, certeza já ouviu falar. O tênis foi lançado na esteira da Copa do Mundo do México, em 1970. À boca miúda, dizem que foi pé quente. Garantiu ao Brasil a terceira vitória no evento futebolístico. E conseguiu ir mais longe. Formou toda uma geração unida pelos longos cadarços e os cravos de borracha no solado.

“Não me lembro bem quando ganhei o primeiro. Sei que meu irmão e minha irmã mais velhos usavam, e eu pedi um para mim. Devo ter usado até os 16 anos porque eu gostava muito de jogar bola”, recorda Gonçalo Junior, cuja fala deve ser igual à sua. É que o calçado virou mania. Era usado tanto para ir à escola quanto para o futebol.

Devido ao extenso cadarço, costumava-se entrelaçá-lo na canela antes de amarrá-lo, ou mesmo dar voltas nele próprio, passando pelo solado. Funcionalidade estilosa. Com o slogan “Kichute, Calce Esta Força”, o ápice veio entre os anos de 1978 e 1985, quando as vendas ultrapassaram nove milhões de pares anuais. Presença incomparável nas bandas de cá.

Uma das características mais marcantes do calçado eram os longos cadarços, possíveis de serem amarrados na canela
Legenda: Uma das características mais marcantes do calçado eram os longos cadarços, possíveis de serem amarrados na canela
Foto: Divulgação

Foi o gigantesco alcance desse produto de valor acessível e longuíssima duração que atraiu Gonçalo para uma pesquisa tão importante quanto generosa. O jornalista e escritor quis resgatar, por meio de livro, a memória afetiva de quem sentiu e viveu a popularização do tênis – figura presente inclusive durante o regime militar brasileiro.

Assim nasceu “Quando Éramos Iguais: Memórias de uma geração que usou Kichute”. A obra é o retrato carinhoso e cativante de 54 pessoas que cresceram entre as décadas de 1970 e 1980 com o Kichute nos pés. Meninos e meninas que o adotaram também como parte do uniforme escolar – em alguns espaços, virou obrigação trajar o bendito.

“A emoção une todos. É arrepiante. As pessoas falam da própria infância e isso toca todo mundo. Como editor, estimulei para que todos amarrassem suas histórias no final”, diz.

O critério utilizado para escolher os entrevistados foi o potencial curioso e singular de cada narrativa. Tem desde editor-chefe de revista até cartunista, arquiteto, donas de casa e vendedor de loja. “A graça está em variar esses perfis”.

Quem não usou Kichute?

A ampla galeria de personagens convoca a uma pergunta: no auge do produto, quem nunca usou Kichute? Gonçalo sentiu a potência da questão a partir de uma brincadeira em uma rede social, há alguns anos. Na ocasião, falava do quanto o calçado tinha sido importante para a geração que foi criança na década de 1970. “Em poucas horas, foram mais de 200 curtidas e dezenas de comentários emocionantes, todos curtinhos. Vi ali a possibilidade de algo maior”.

O tênis foi lançado na esteira da Copa do Mundo do México, em 1970; à boca miúda, dizem que foi pé quente, trazendo a vitória para o Brasil
Legenda: O tênis foi lançado na esteira da Copa do Mundo do México, em 1970; à boca miúda, dizem que foi pé quente, trazendo a vitória para o Brasil
Foto: Divulgação

Começou, assim, a mandar mensagens privadas para as pessoas que comentaram na publicação a partir dos depoimentos mais inusitados. A intenção era pedir a elas um pequeno relato sobre a relação com o calçado numa perspectiva afetiva e memorialística. O emocional se impôs sobre o conjunto a partir do primeiro relato e foi indo. Segundo o jornalista, tudo fluiu para isso, feito rio que corre para o mar. “Um rio de sentimentos, emoções e saudade”.

“O livro tem vários aspectos interessantes: históricos, sociológicos, afetivos. Espero que chegue àqueles que o usaram e às novas gerações, para que conheçam esse fenômeno tão interessante que marcou a vida de seus pais”.
Gonçalo Junior
Jornalista, escritor e pesquisador

O Kichute era um misto de tênis básico e chuteira – talvez o primeiro Sapa-Tênis-Chuteira de nossa história – e foi produzido no Brasil pela Alpargatas. Os primos mais próximos do calçado e que o precederam foram os tênis Conga (1959) e Bamba (1961). Esses três são os primeiros modelos de tênis produzidos no país em escala industrial. O Conga tinha linhas mais femininas, enquanto o Bamba mais masculinas e esportivas.

Os mais peraltas de plantão vão concordar: além da prática esportiva, o Kichute também era perfeito para subir em árvores. A flexibilidade e os detalhes laterais auxiliavam na aderência e no tracionamento para andar sobre os galhos. Um recorte desses atributos pode ser encontrado inclusive no cinema.

Em novembro de 2009, estreou o filme “Meninos de Kichute”, adaptação cinematográfica do livro homônimo de Márcio Américo, inspirado no calçado. O longa foi premiado como Melhor Filme Brasileiro na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Todos parecerem iguais

No que diz respeito ao uso do calçado durante a ditadura militar, Gonçalo conta que, nos depoimentos da obra, ninguém fala disso. Ele toca no tema apenas na apresentação, para contexto de época. Mas é bem sabido que a História acabou por vincular o Kichute aos anos 1970 e à repressão. 

Ao mesmo tempo, havia uma política de incentivo à indústria nacional que dificultava a importação de calçados. Havia poucas opções. Soma-se a isso o fato de o Kichute ser durável e financeiramente acessível, e então temos um filão de consumo.

Setor de Pesquisa do Diário do Nordeste resgatou esta propaganda do calçado publicada na edição de 17 de janeiro de 1988 do jornal; na ocasião, o Kichute é associado a item escolar
Legenda: Setor de Pesquisa do Diário do Nordeste resgatou esta propaganda do calçado publicada na edição de 17 de janeiro de 1988 do jornal; na ocasião, o Kichute é associado a item escolar
Foto: Arquivo/Diário do Nordeste

A importância do livro organizado pelo pesquisador baiano reside sobretudo nisso: é a história oral de um tempo em que um simples calçado, sem beleza alguma, fez todos parecerem iguais – ricos e pobres, negros e brancos, crentes e ateus. 

“O Kichute não existe mais, praticamente. Não está nas lojas físicas ou virtuais. Fala-se que ainda são encontradas unidades em regiões pobres do interior do país. A empresa que o fazia não retornou as muitas tentativas minhas de obter informações”, contextualiza o escritor, alocando o período em que o tênis perdeu espaço para modelos importados, nos anos 1990.

“Mas a gente apelida uma geração de algum produto quando a relação é duradoura e intensa. Como a do rock and roll, da Jovem Guarda, Coca-cola, calça boca de sino, minissaia etc. Hoje, temos a geração digital, tivemos a do Orkut... Qual seria a atual? Tiktok?”.

 

Quando Éramos Iguais: Memórias de uma geração que usou Kichute
Organizado por Gonçalo Junior

Editora Noir
2022, 144 páginas
R$59,90 (venda direta com frete grátis no site da editora)

Este conteúdo é útil para você?