Grupos de WhatsApp revivem memórias de escolas de Fortaleza que já não existem mais

Entre conversas e marcação de encontros, membros se divertem, atualizam lembranças e até prestam solidariedade uns aos outros

Legenda: Turma da jornalista Eveline Frota, ex-aluna do Colégio Cearense do Sagrado Coração, se reúne mensalmente no prédio onde a escola funcionava
Foto: Arquivo pessoal

Você deve participar ou já cogitou criar um. Ex-alunos de escolas formam grupos no WhatsApp para relembrar momentos ou combinar encontros. Em Fortaleza, até colégios que já fecharam as portas não fogem à regra. Os espaços vivem entre os saudosistas de forma permanente, num misto de saudade, respeito e reverência.

Foi com esse tripé de emoções que Régis Cardoso, 39, filmou as ruínas do Colégio Redentorista de Fortaleza. Fundada em 1966 na Capital, a instituição funcionou até 1999. O prédio – localizado no bairro Rodolfo Teófilo – data de 1963, e foi demolido para, a priori, dar lugar a um empreendimento imobiliário. Nas antigas estruturas, centenas de pessoas tiveram a existência marcada por importantes acontecimentos.

> Relembre escolas que não existem mais em Fortaleza

Legenda: Colégio Evolutivo, fundado em 1981 e com atividades encerradas em 2012
Foto: Marília Camelo
Legenda: Colégio Redentoristas, no Rodolfo Teófilo, com funcionamento entre 1966 e 1999
Foto: Kiko Silva
Legenda: Colégio Salesiano Dom Lustosa, fechado em 2013 e cujo prédio hoje abriga a Escola Educar Sesc de Ensino Fundamental
Foto: Divulgação
Legenda: Depois de uma crise financeira, o Colégio Nossa Senhora do Sagrado Coração das Irmãs Dorotéias fechou as portas em 2005
Foto: Divulgação
Legenda: A unidade do Colégio GEO no Bairro de Fátima tentou resistir, e conseguiu até 2009
Foto: Divulgação
Legenda: O Marista Cearense encerrou as atividades em 31 dezembro de 2007
Foto: Divulgação

“Estudei a minha vida quase toda lá, do então Jardim 1 (com a tia Bete, minha amiga nas redes sociais) até o primeiro ano do Ensino Médio. Todos os meus melhores amigos são de lá. Meus dois irmãos e três primos também estudaram nesse colégio”, enumera Régis. “Tenho um drone, e tive a ideia de filmar as ruínas por dois motivos: curiosidade em ‘retornar à escola’ e para denunciar o descaso por parte dos proprietários com o imóvel”.

O engenheiro civil participa de três grupos no WhatsApp cujos membros já passaram pelo Redentorista, em épocas diferentes. No maior, criado no ano de 2019, 47 pessoas dividem alegrias, memórias e até prestam solidariedade uns aos outros. A própria união por meio virtual aconteceu por ocasião do falecimento de uma colega.

Todos se mobilizaram e, depois do ocorrido, decidiram manter os laços via internet. “Nos encontramos ainda antes da pandemia. Em 2021, perdemos outra de nossas colegas, Jana Samilly, que deixou dois filhos e o marido. Isso foi muito impactante pra gente”, lamenta. Mas nem tudo é apenas dor. 

Vez ou outra, eles recordam a rotina de assembleias com outras turmas no ginásio – o ambiente era conhecido como “quadra coberta”. Ali ouviam diretrizes, faziam orações e cantavam o Hino Nacional e o do próprio colégio. “Sabemos a letra de cor”, gargalha Régis.

Também relembram “danações”, professores, os Padres Diretores e os cães deles – da raça Pastor Alemão, que andavam pelo colégio. O apego a esses fatos é tão grande que, mesmo após muitos anos do fim de tudo, Régis fez questão de casar na Igreja de São Raimundo (vizinha à escola), tendo como celebrante o Padre Tomé Reynolds, ex-diretor da casa.

Legado de carinho

O Redentorista, assim, permanece. A herança deixada é enorme. Segundo Régis, o colégio fez diferença na vida de muitos – gerando oportunidades por meio de bolsas de estudos para alunos que não tinham condições de pagar a mensalidade, por exemplo. 

Os detalhes são lembrados com carinho no grupo. O espaço também oportuniza trocas sobre o cotidiano, os filhos de cada um e a marcação de happy hours. Fotos da época de convivência diária também não faltam. Sempre aparece material “novo”.  “Por sinal, há uma página no Facebook com muitos ex-alunos, de várias gerações. As perdas recentes de colegas fortaleceram ainda mais nossa união e nostalgia”, percebe o engenheiro.

Legenda: Régis Cardoso com parte da turma do Colégio Redentorista
Foto: Arquivo pessoal

“O Redentorista reforçou ainda mais os ensinamentos católicos da minha família. Também contribuiu com minha formação acadêmica, me permitindo ingressar em Engenharia Civil na UFC anos depois. Isso sem falar nos valores de amizade e empatia”.

Satisfação compartilhada por Eveline Frota – embora por meio de outro colégio extinto em Fortaleza, o Colégio Cearense do Sagrado Coração. A jornalista cearense, hoje residente na Turquia, estudou durante oito anos na instituição e também participa de um grupo no WhatsApp de modo a deixar acesa a chama do amor pela casa.

A mobilização virtual aconteceu a partir de 2013, no objetivo de celebrar o centenário da escola – com prédio tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Municipal de Fortaleza . De lá para cá, vários grupos foram criados. Há igualmente um canal no Facebook, com mais de três mil integrantes. A adesão é enorme. 

“Nos nossos grupos de WhatsApp tem de tudo. Em ano eleitoral, sempre falamos de política. Inescapável. Tentamos evitar as polêmicas, mas nem sempre é possível.  A gente prefere falar sobre nossas conquistas, algumas piadas, lembrar de momentos e professores inesquecíveis”, conta Eveline.

Legenda: As melhores memórias de Eveline são das atividades que prepararam a turma para a vida; a jornalista vibra por ter sido do grêmio desde criança e líder de sala até o último ano
Foto: Arquivo pessoal

As melhores memórias são das atividades que prepararam a turma para a vida. De forma particular, a jornalista vibra por ter sido do grêmio desde criança e líder de sala até o último ano. “Alguns colegas não querem contato, outros estão mais próximos do que antes. Mantemos sempre o alto astral e o diálogo, mesmo com quem está do outro lado do mundo”.

A importância desse movimento, de acordo com ela, está relacionada ao interesse por acompanhar a vida de quem conhece desde a infância. O momento mais emblemático entre eles foi o retorno à escola no ano do centenário, em 2013. Pessoas de todas as turmas foram convidadas, assim como acontece com a reunião anual do grupo.

A próxima reunião do grupo é em 27 de agosto, no mesmo prédio que sediou a escola. “A gente lembra do nome e do sobrenome da maioria (do jeito que era na chamada), de alguns apelidos e, principalmente, nos ajudamos sempre quando um de nós precisa”. Família.

Freud explica 

Psicólogo clínico e diretor do Instituto Ressignificar, Rogério Vasconcelos reflete sobre essa dinâmica. Para ele, a criação de grupos de ex-alunos tem como motivação a tentativa de resgatar laços afetivos criados na adolescência. Sonhos perdidos na fase adulta e desejo de compartilhar vivências se reacenderam com os grupos.

“A possibilidade de rever os amigos da infância/adolescência, querer participar de suas vidas atuais, compartilhar suas histórias, ver os filhos e a perspectiva da manutenção desses laços de amizade por nossos filhos nos faz querer estar no grupo”, analisa o estudioso. “Sem falar na manutenção da rede de apoio que se estabelece nesses ambientes recheados de profissionais bem referendados pela nossa própria história”.

Legenda: "Mantemos sempre o alto astral e o diálogo, mesmo com quem está do outro lado do mundo”, afirma Eveline Frota, hoje residente na Turquia
Foto: Arquivo pessoal

Freud (1856-1939) também explica. Somos sujeitos movidos pela constante busca de preencher um vazio inexplicável. Rever colegas e conhecidos de um tempo vivido pode causar vários sentimentos, da alegria à frustração, ao percebermos a realização ou não de muitos dos antigos sonhos. Isso, contudo, depende da consistência do laço.

“Amizades verdadeiras podem reaparecer, como também a certeza de que se trata apenas de colegas de escola. É certo que nesses grupos existirá de tudo um pouco. Há os que se manifestam sempre, há subgrupos daqueles mais chegados e há ainda os observadores silenciosos, verdadeiro reflexo da adolescência vivida”, detalha.

Legenda: Um dos aniversários de Musquito Cipriano, ainda na adolescência, sendo comemorado com a turma do Evolutivo: união que se estende até hoje
Foto: Arquivo pessoal

Musquito Cipriano que o diga. O publicitário é ex-aluno do colégio Evolutivo, unidade Central, onde estudou durante seis anos. No grupo de WhatsApp que ele participa – ativo desde 2013 – há pessoas engraçadas, tímidas, espalhafatosas. “Continuamos compartilhando momentos bons e ruins – alguns mais próximos uns dos outros, outros de forma somente virtual. Mas a gente não se abandona”, diz.

Apesar de ser difícil manter o vínculo tal qual era na escola, fechada em 2012, o esforço de todos inaugura outros momentos. Normalmente, a turma se encontra em datas de aniversário ou em “encontrões”. É quando os membros alugam uma casa de praia e brindam a amizade. Nessa conta de reuniões, também entram instantes tristes, como quando alguém falece.

“Acho que os sentimentos e a forma como a gente rememora essa época deixam as lembranças da escola vivas, sim. Tem muitos professores que a gente comenta, fala. Esses dias soubemos que um deles estava com problema de saúde. Fomos lá e tentamos ajudar. Além disso, todo ano mandamos as mesmas mídias para o grupo do WhatsApp, comentamos sobre situações constrangedoras ou engraçadas, e algumas situações sérias também”.

Nesse grupo específico, estão todos os integrantes do grêmio da escola – primeira iniciativa na qual a turma, conforme Musquito, conseguiu se enxergar como pessoas adultas devido às grandes responsabilidades. Enriquecimento coletivo.

“Essas foram as primeiras pessoas de cunho social que eu tive. Nós aprendemos muito juntos. Passamos por muita coisa numa fase bastante conturbada, a maior parte na adolescência. São várias descobertas. Acredito, inclusive, que eles são a primeira experiência de um laço verdadeiro que eu tive. Tudo isso acaba sendo muito importante para mim”.


 

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