Galeria afro: artista visual cria site para expor e vender obras de arte feitas por pessoas negras

Mineiro radicado no Ceará há 10 anos, Wagner Ventura abriu “casa virtual” na perspectiva de um processo terapêutico, financeiro e de “congraçamento” afro

Wagner Ventura em meio a suas pinturas
Legenda: Wagner Ventura é artista Visual pela Escola Alberto da Veiga Guignard (UEMG) e pela Escola de Ensinos Superiores da Moradia Estudantil Borges da Costa (UFMG). Ele tem mestrado em Educação Brasileira (UFC) e graduação em História (UFMG).
Foto: Fabiane de Paula

O artista visual Wagner Ventura tem 45 anos, mas recém saiu da infância. Isso porque leva em consideração o que um sábio africano, Tierno Bokar, ensinou: essa fase da vida de uma pessoa pode se estender até os 42 anos de idade. “No ano de 2016, nasceu um artista novo dentro de mim, me vi reconhecido preto-artista com uma fonte de inspiração epistemológica preta, a Pretagogia”, diz, traçando um paralelo entre esse processo e o fim da própria infância estética.

Radicado no Ceará há dez anos, o mineiro conta que sua relação com as artes plásticas nasceu da natureza para depois se consolidar na formação profissional. Numa manhã, sentado no balanço debaixo do pé de manga da casa velha de frente à Estação Ferroviária de Montes Claros, curvou-se com um graveto na mão e fez o primeiro desenho aos três anos de idade.  “Aquela memória nunca mais largou-me. E o desenhar nunca mais deixou-me, como que membro integrante do meu corpo.  Quando não desenho sinto a falta de um membro, sinto que há um pedaço doente no corpo”, expressa.

Wagner Ventura contempla seus desenhos
Legenda: O desenho sempre esteve presente na vida de Wagner. Seu pai desenhava, era um projetista, e todos os filhos tinham profunda admiração por isso, logo reproduziam a habilidade
Foto: Fabiane de Paula

Conectar-se por inteiro a essa ideia que o mantém vivo foi passo importante que deu de dezembro último para cá. Alguns anos nos ambientes de trabalho educativos de Fortaleza - Wagner atuava como professor - levaram-no a um quadro de adoecimento intenso. Aposentado compulsoriamente, ganhou da companheira e das filhas a primeira versão de um site-galeria com seu nome para expor e vender seus trabalhos artísticos, o Ventura Afro Artes. “Foi um primeiro sopro de alento. Era uma forma de me colocar em contato com o mundo de pessoas que quatro anos de depressão me tiraram pouco a pouco”, expressa.

De duas questões centrais ele aprendeu a não se envergonhar: o site é um recurso terapêutico e financeiro. “E daí, ser central a proposta de ser um lugar de congraçamento. Isso é um dos elementos que o africaniza: ser lugar para congraçar pessoas por meio da criação artística. Sem essa que seria a terceira proposta, as duas primeiras não têm sentido”, explica o artista.

Ventura pinta tela em sua casa
Legenda: Desde o final dos anos 1990, Wagner aderiu técnicas de pinturas cujo solvente seja água: acrílica, vinílicas, aquarela, nanquim e pigmentos naturais.
Foto: Fabiane de Paula

A quarta intenção, segundo Ventura, é tornar o ambiente uma galeria-casa de todos os artistas afro que queiram morar, hospedar-se ou dar uma passadinha por lá. A primeira mostra coletiva, com artistas de Minas Gerais e do Ceará, inclusive, deve acontecer em março.

“De repente, vi que as pessoas ainda estavam vivas, que eu estava morrendo, e minha arte indo comigo. Mas vi que as pessoas estão vivas e gostam de arte, e gostam da minha arte. De certo há quem não goste, e eu fico feliz que haja quem não goste, pois se não gosta é porque sente, se sente é porque está vivo. E eu estou vivo. Como professor sei que morri, e até já escrevi um obituário para fechar a questão. Mas mataram o professor, ou o transubstanciaram, no afro-artista que sou”, acredita.

Trabalhos

O desenho à carvão sobre papel é a técnica que predomina nas “escrevivências imagéticas” de Wagner Ventura. Ele  já pintou muito com óleo, mas desde o final dos anos 1990 passou a utilizar quase sempre de técnicas de pinturas cujo solvente seja água: acrílica, vinílicas, aquarela, nanquim e pigmentos naturais. “Pinto muitas técnicas mistas e aqui no Ceará passei a adotar areias nos trabalhos, como no caso da pintura Sabiaguaba, da ponte pra cá”, revela.

Desenhos de Wagner Ventura
Legenda: O desenho à carvão sobre papel é a técnica que predomina nas "escrevivências imagéticas" de Wagner Ventura
Foto: Fabiane de Paula

As praias cearenses também deram as primeiras impressões estéticas que inspiraram mudança de paletas e ampliações temáticas, até então vinculadas a outros itinerários do artista, como a experiência no quilombo Mato do Tição.  

“Vivia o Mato do Tição como fonte de inspiração e projeto pedagógico para as duas escolas públicas de Jaboticatubas. Era fácil andar 5 quilômetros de poeira em sobe e desce para dar uma chegadinha de casa no quilombo. Levava minha pasta com meus papéis e meus carvões. Numa paradinha pra matutar com as montanhas, uns traços, umas manchas, um desenho. No quilombo, o desenho fluía com as rotinas, um candombe, uma branquinha, uma fogueira e uma noite normal de Matição”, recorda.

Objetos artísticos feitos por Wagner Ventura
Legenda: "Pretagogia influenciou diretamente a forma de tomada de consciência estética que eu vejo nos meus objetos Adinkra e na minha leitura estético-espiritual assumida a partir de 2016. Começou com a criação do que chamei de Parangadinkra (livros-objetos multidimensionais, formas rizomáticas em que metabolizo filosoficamente Adinkra e Parangolé)", afirma Wagner Ventura
Foto: Fabiane de Paula

São essas diferentes fases do artista que, por enquanto, estão à disposição do público no site Ventura Afro Artes. A galeria virtual tem formato de uma casa com budega e se propõe a oferecer às pessoas a possibilidade de adquirir uma obra de arte cujos sentimentos e sensações que a emanaram possam ser minimamente sentidos por meio dos textos que acompanham as exposições.

“Ao sair da nossa, congraçar-se com as obras de arte, você pode passar na Budega e adquirir obras originais ou reproduções assinadas. Atualmente, fazemos entrega em todo o Brasil, para a Holanda, para a Columbia Britânica (Canadá), e Inglaterra e California (EUA)”, conta Wagner.

Difusão

Na visão do artista, ainda é pífia a difusão das artes plásticas produzidas por artistas negros e negras, tanto para o Ceará como para o Brasil. Daí a “ousadia” de ocupar os lugares físicos e virtuais. “Isso para mim é positivo, esse embate, porque nos força a nos assumir ético-esteticamente. O contexto mostra uma fome das artes das pessoas pretas. E quem tem fome busca comer. E aí estamos comendo, nas ruas e nas redes”, defende.

wagner ventura
Legenda: As obras de Wagner estão à venda no site Ventura Afro Artes, que em breve deve abrigar trabalhos de outros artistas negros do Ceará e do Brasil
Foto: Fabiane de Paula

Para Wagner, são três as estratégias possíveis para essa arte se configurar como uma aliada no processo de formação e conscientização da luta antirracista e de valorização da ancestralidade brasileira: 1. Ocupar as escolas; 2. Ocupar de forma sistêmica as ruas, avenidas, becos e vielas das cidades; 3. Ocupar os espaços virtuais individualmente e coletivamente.

“Os espaços virtuais, para mim, não se desconectam dos lugares reais, físicos. São ferramentas de interação que operam com e sobre as relações nos universos físicos das pessoas.  E assim, estão susceptíveis de serem transformadas, assim como nos transformam. Uma transformação que vai no sentido de colocar tais ferramentas voltadas em favor da vida, do antirracismo, mas também da nossa forma de vida capitalista”, finaliza, num convite à experiência social no digital.

Serviço    

Site da Galeria virtual Ventura Afro Artes

Instagram: @wagnerventura.arte
Whatsapp: (85) 98613.7924
E-mail: wagnerventura75@gmail.com

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