Filme O Doutrinador peca pela inverossimilhança, mas revela bom momento para adaptações de HQs
Longa nacional estreia nesta quinta-feira (1º)
Até onde vai sua indignação com a situação sociopolítica do País? As respostas podem passar por diferentes iniciativas, do engajamento nas redes sociais à mobilização e aos protestos nas ruas - exemplos vividos recentemente, inclusive. No filme "O Doutrinador", porém, a escolha do protagonista é mais radical: exterminar todos os corruptos.Estreando hoje nos cinemas, a produção nacional - dirigida por Gustavo Bonfé - conta a história do agente Miguel (Kiko Pissolato), integrante de uma polícia de elite que investiga desvios de recursos públicos. O principal alvo é o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis), que em sua gestão promoveu o sucateamento do serviço público de saúde.
Os dois entram em uma rota de colisão após Miguel sofrer uma enorme perda: atingida por uma bala perdida, sua filha morre sem atendimento no hospital. A partir daí, ele passa a atuar como um justiceiro, sob o nome de Doutrinador. Entretanto, a despeito das intenções nobres e de seu grande sofrimento, é difícil se compadecer do protagonista.A sequência deveria carregar o ápice da carga dramática do longa - afinal, é a partir dela que se inicia a caça aos poderosos -, mas não convence. Talvez por se desenvolver rápido demais, pela impessoalidade do resultado ou pela condução equivocada de Pissolato.
Com roupa preta, capuz, coturno e máscara de gás, o anti-herói sai em busca dos aliados do governador, abatendo-os um por um, sem maiores dificuldades - as poucas que surgem são facilmente contornadas, tornando a coisa toda meio inverossímil. Em boa parte do longa de Bonafé - mesmo diretor de "Legalize Já: Amizade Nunca Morre" e "Chocante" -, o protagonista paira como uma figura onipotente, exceto em algumas cenas no início e no desfecho.
Os fãs de sangue esguichado vão sair satisfeitos das salas. Aliás, verdade seja dita, os efeitos especiais são valorosos. Quem acompanha produções da Marvel, por exemplo, não terá do que reclamar. A fotografia também é eficaz e transporta as cenas para as páginas de histórias em quadrinhos, nas quais nasceu o personagem. Se depender da reação dos fãs de HQs presentes na cabine de imprensa ou dos ânimos ainda exaltados nesse cenário pós-eleição, o filme deve alcançar bons números de bilheteria.
Crescente
Autor de "O Doutrinador", o carioca Luciano Cunha explica que o personagem surgiu em 2008, mas foi arquivado após várias editoras se recusarem a publicar o material.
A saga foi desengavetada em 2013, meses antes das manifestações populares, que tiveram adesão nos quatro cantos do País. Foi quando Cunha percebeu um terreno fértil para propagar o personagem via Facebook. Com o impresso e, agora, a telona conquistados, em 2019, o título vai ganhar uma série de sete episódios no canal Space, filmada paralelamente ao longa.