Qual a relação de Anita Harley, da série ‘O Testamento’, com o cinema brasileiro?
Entre as pessoas entrevistadas na série documental “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, há três cineastas brasileiras; empresária chegou a produzir longa-metragem.
Herança bilionária, curatela, intrigas familiares e busca por poder marcam a série documental “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, um dos maiores sucessos deste ano na Globoplay.
A produção narra o imbróglio em torno da rede varejista Casas Pernambucanas após a empresária Anita Harley sofrer um acidente vascular cerebral e ficar em coma, em 2016.
De lá para cá, os controles das lojas, da fortuna e da saúde da mulher passaram a ser disputados por figuras da família e do entorno. Explorando as reviravoltas do caso real, a obra dirigida por Camila Appel superou a audiência da novela das 9 “Três Graças” e da 26ª edição do Big Brother Brasil na plataforma.
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Entre as entrevistas da série documental, há rostos e nomes já conhecidos e reconhecidos pelo País, caso do advogado José Eduardo Cardozo, que foi ministro da Justiça no Governo Dilma e faz a defesa de uma das envolvidas no caso.
Para o público ligado em cinema, no entanto, algumas das entrevistadas chamam atenção em especial: três delas são cineastas relevantes na história do cinema brasileiro e mostram as ligações, ora diretas e ora indiretas, de Anita com a produção audiovisual nacional.
Tizuka Yamasaki
Apresentada em “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” como amiga de Anita, a gaúcha Tizuka Yamasaki é, talvez, o nome mais reconhecido entre as cineastas entrevistadas.
Entre trabalhos dirigidos por ela, estão vários filmes protagonizados por Xuxa, caso de “Lua de Cristal” (1990), “Xuxa Requebra” (1999) e “Xuxa Popstar” (2000).
A carreira da Tizuka, no entanto, começou em 1980. Naquele ano, foi lançado “Gaijin: Os Caminhos da Liberdade”, escrito e dirigido por ela. A obra foi a grande vencedora do Festival de Gramado e recebeu menção do prêmio da crítica no Festival de Cannes.
Após o sucesso do longa de estreia, o projeto seguinte foi “Parahyba Mulher Macho”. Gravado em Pernambuco, o longa adaptou para o cinema o livro “Anayde Beiriz – Paixão e Morte na Revolução de 30”, do historiador José Joffily.
Na série “O Testamento”, Tizuka diz que conheceu Anita e a mãe dela, Helena Lundgren, quando as duas se envolveram na concretização do filme. As empresárias assinam como coprodutoras da obra.
“Parahyba Mulher Macho” levou cinco prêmios no Festival de Brasília e é um dos expoentes da produção brasileira na época da Embrafilme, antes da extinção da empresa feita no governo Collor.
Kátia Mesel
Na série “O Testamento: O Segredo de Anita Harley”, Kátia Mesel é também creditada como amiga de Anita. A pernambucana é considerada a primeira cineasta mulher do Estado.
Com a carreira iniciada no final dos anos 1960, Kátia se destacou na produção de curtas-metragens filmados em Super-8. Entre produções da época, estão obras como “Oh de Casa” e “Recife de Dentro para Fora”.
Além de compartilhar diferentes memórias da relação com Anita, a diretora teve papel importante no processo da produção da série da Globoplay. Isso porque ela fez gravações de festas e eventos promovidos pela empresária.
Tais registros ajudam a elucidar — ou pelo menos dão mais pistas sobre — as alegações feitas por aqueles que disputam os cuidados e as finanças de Anita.
Karen Harley
Diferentemente de Tizuka e Kátia, Karen Harley tem ligação familiar com Anita, como o sobrenome já indica.
Ela é irmã da empresária, mas ligada a ela por parte do pai — e não da mãe, pertencente à família proprietária das Casas Pernambucanas. Na série, os depoimentos de Karen são mais ligados às memórias da família e à situação de saúde de Anita.
Por conta das disputas, por exemplo, ela não consegue visitar a irmã no hospital há anos. Além disso, ela também elucida algumas questões da árvore genealógica da família.
Profissionalmente, Karen é reconhecida especialmente como montadora audiovisual. Curiosamente, um dos trabalhos mais recentes dela na função é na série “Emergência Radioativa”, da Netflix, também atual sucesso dos streamings.
A profissional também teve atuação na montagem de obras cearenses, trabalhando com nomes como Karim Aïnouz (“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”) e Armando Praça (“Greta” e “Fortaleza Hotel”).
Como diretora, Karen codirigiu os documentários “Lixo Extraordinário” (2010), sobre a arte de Vik Muniz; “Ritas” (2025), sobre a cantora Rita Lee; e “Para Vigo Me Voy!” (2025), que mergulha na obra de Carlos Diegues.