Enredo da Mangueira homenageia índios cariri e Dragão do Mar no Carnaval 2019

Escola de Samba reconhece o protagonismo das comunidades indígena e negra na história do País 

Legenda: A abolição da escravatura no Brasil é revista pela Mangueira, conferindo protagonismo a um cearense, o Chico da Matilde
Foto: Foto: Oscar Liberal

"Brasil, o teu nome é Dandara/E a tua cara é de cariri / Não veio do céu / Nem das mãos de Isabel/A liberdade é um dragão no mar de Aracati." Assim canta a comunidade da Mangueira no samba-enredo que representa a agremiação no carnaval deste ano. Das "histórias para ninar gente grande" que a escola selecionou para recontar na Sapucaí duas têm protagonistas cearenses que escreveram "páginas ausentes" na narrativa oficial. A primeira delas é a dos índios cariris e de sua resistência à colonização portuguesa; e a segunda do Dragão do Mar, líder negro responsável pela abolição da escravatura no Ceará quatro anos antes do restante do Brasil. 

"Construir uma narrativa na qual a representatividade popular possa gerar valores associados ao patriotismo é importante para o momento que a gente vive.Olhar para a história do Brasil com o interesse de construir uma narrativa que vai exaltar índios, negros e pobres, neste momento específico da política nacional, eu acho fundamental", observa o carnavalesco Leandro Vieira, responsável pelo enredo da Mangueira desde 2016, quando estreou como campeão do Grupo Especial com o desfile em homenagem a Maria Bethânia.

Legenda: Ornamentos que remetem aos povos indígenas brasileiros estão no barracão da Mangueira
Foto: Foto: Oscar Liberal

Para ele, a ideia de que "somos brasileiros há cerca de 12.000 anos, mas insistimos em ter pouco mais de 500" é um dos pilares fundamentais do novo enredo. "Ao índio brasileiro, além de ser negado o protagonismo, foi negada uma questão fundamental da preservação, que é a da memória", alerta Leandro. E é nesse sentido que os indígenas cearenses ganham relevo no desfile. Isso porque uma das alas da Mangueira será dedicada à Confederação dos Cariris.

Movimento de resistência à dominação portuguesa que ocorreu entre 1683 e 1713 e que também ficou conhecido como Guerra dos Bárbaros, a confederação se estendeu pelos territórios do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba e, na ótica de Leandro "foi uma das guerras mais importantes, com uma das maiores representações do indígena brasileiro como combatente". 

Legenda: Outros detalhes de elementos que remetem aos povos indígenas, em destaque no barracão da Mangueira
Foto: Foto: Oscar Liberal

"Para se ter noção da articulação desses índios, as tropas que combatiam e tentavam exterminar o Quilombo de Palmares, que é superfamoso no imaginário brasileiro, foram desviadas das lutas e da guerra à população quilombola para combater o levante indígena cariri. Essa é uma passagem que quase ninguém conhece e é importante ser divulgada", destaca.

O embasamento teórico para conceituar o desfile, Leandro tirou de artigos, livros, teses e conversas com professores universitários. "Sempre fui amigo dos meus professores de História; sempre gostei de ser íntimo do conhecimento histórico. Então (o enredo) nasce disso, desse acúmulo de material", observa ele, já tendo declarado em outras entrevistas que a Mangueira desfilará com resposta crítica ao projeto "Escola Sem Partido".

Chico da Matilde

Além da "cara de Cariri", a escola contará com uma alegoria toda dedicada a Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, também conhecido como Dragão do Mar. O jangadeiro que liderou o Movimento Abolicionista no Ceará, pioneiro no País, recusando-se a transportar para os navios negreiros os escravos vendidos para o Sul, é um dos personagens que mais chamaram a atenção de Leandro.

Ele está intimamente ligado à questão da abolição da escravidão no Brasil e ao mesmo tempo o conhecimento da existência dele e da sua luta é nulo em relação ao que é dado à Princesa Isabel. Dentro da minha cabeça, isso se dá pelo fato de estarmos falando de um personagem eminentemente popular, e a narrativa oficial nunca concedeu protagonismo a personagens ou representantes eminentemente populares", reforça. 

O próprio carnavalesco se questiona por ter passado 30 anos sem saber dessa versão da História. Ele só tomou conhecimento da resistência e bravura de Chico da Matilde quando esteve no Ceará, há cinco anos. "Isso é muito tarde, ainda mais para um país eminentemente negro, onde as questões negras ainda estão sendo debatidas", avalia. 

Legenda: A agremiação não liberou a visita da reportagem ao barracão na Cidade do Samba, mas revelou alguns detalhes nas imagens enviadas por email
Foto: Foto: Oscar Liberal

Depois dos cariris e do Dragão do Mar, o Ceará é lembrado ainda por um "anti-herói" no enredo da Mangueira: o General Castelo Branco. No texto de apresentação, a crítica é feita à rodovia que "corta" São Paulo com "nome de batismo" em homenagem ao primeiro general "do Golpe 1964". Uma menção aos "Anos de Chumbo" está igualmente prevista para o desfile na madrugada da terça-feira, dia 5 de fevereiro.

"História para ninar gente grande é essa que nos foi contada, essa narrativa quer nos adormecer", arremata Leandro. Salve os caboclos de julho/Quem foi de aço nos anos de chumbo/ Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês - dizem no samba. Em 2019, afinal, a Mangueira canta para nos despertar.

 

 

Veja o samba-enredo da Mangueira em 2019:

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

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