Documentário 'Aeroporto Central' é um alerta reflexivo para os dias de medo e isolamento

Novo trabalho do cearense ​​​​​​​Karim Aïnouz retrata o cotidiano de refugiados de guerra

Legenda: Ibrahim Al Hussein narra memórias e momentos de angústia ao fugir da guerra
Foto: Juan Sarmiento

Karim Aïnouz testemunha uma sequência prodigiosa de trabalhos. Em 2019, “Vida Invisível” foi destaque internacional com a premiação em Cannes. Em seguida, a adaptação do romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, foi a escolha brasileira para uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional. Não levou, mas fez bonito. 

Em paralelo, o diretor soma a realização de três documentários. "Argelino por Acaso” (em fase de pós-produção), “Nardjes A.” (lançado na mostra Panorama do Festival de Berlim 2020) e “Aeroporto Central”. Este último chega ao mercado de streaming nessa sexta-feira (24). O longa estava previsto para estrear nos cinemas brasileiros no dia 26 de março, porém a pandemia da Covid-19 alterou todos os planos. 

O novo filme do cearense acompanha o cotidiano de um grupo de refugiados na Alemanha. Somos apresentados ao extinto Aeroporto de Tempelhof, localizado em Berlim. Entre 2015 e 2019, seus hangares foram usados como um dos maiores abrigos de emergência para quem buscava asilo naquele País. 

O documentário resulta de um longo envolvimento do diretor com aquele lugar. O edifício é histórico, não pode ser demolido. Foi erguido pelos nazistas em 1923. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Força Aérea dos EUA o usou como base militar até 1993. O tráfego aéreo cessou finalmente em outubro de 2008. Dois anos depois, após muita mobilização, a população de Berlim o tornou o maior parque público da cidade. Os mais de 380 hectares de área são agora o Parque Tempelhof. 

Também arquiteto por formação, Karim tinha a ideia inicial de investigar a transformação daquele complexo em território de lazer. Compreender como uma construção deixou o passado bélico e deu lugar a uma conquista da cidadania. O acirramento dos conflitos armados no Oriente Médio mudou o prumo de “Aeroporto Central”. Alguns números ajudam a explicar as escolhas do filme.  

Realidade 

Organismo internacional criado em 1950, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) aponta que 70,8 milhões de pessoas estão em situação de deslocamento forçado no mundo. Destes, 25,9 milhões estão na condição de refugiados. São pessoas obrigadas a sair de seus países por causa de conflitos, guerras ou perseguições. Os dados constam no relatório "Tendências Globais", publicado em 2019 pela ACNUR.  

Mais de dois terços de todos os refugiados vêm de apenas cinco países, sendo Síria (6,7 milhões) e Afeganistão (2,7 milhões) os dois primeiros da lista. A Turquia é quem acolhe os maiores contingentes de refugiados (3,7 milhões). Alemanha, local dos eventos retratados em “Aeroporto Central” é o quinto país a receber esta população. Um total de 1,1 milhão de refugiados.  

Legenda: Antes território militar, agora espaço de cidadania alemã
Foto: Juan Sarmiento

A obra de Karim traduz e recorta o drama por detrás destes indicadores. As filmagens aconteceram no intervalo de um ano, entre 2015 e 2016. Porém, bem antes, foi necessário por parte do cineasta todo um processo de imersão naquele ambiente. Apontar as lentes de uma câmera para pessoas tão vulneráveis exigia o estreitamento de laços.  

Como registrar o depoimento de quem perdeu tudo? São pessoas com medo, sozinhas e muitas sem saber para onde ir. Os refugiados tentam lidar com a saudade e ansiedade. A origem do próximo destino é desconhecida. Não sabem se podem ficar ou se serão deportados a qualquer momento.  

Depoimentos 

Para tanto, “Aeroporto Central” fixa boa parte dos acontecimentos nas perspectivas de dois personagens. O estudante sírio Ibrahim Al Hussein e o fisioterapeuta iraquiano Qutaiba Nafer. Outras figuras são apresentadas durante a produção. Temos crianças, idosos, assistentes socias, corpo médico e seguranças do local. Uma cidade dentro de uma cidade.  

Ibrahim tem 18 anos e entrega a comovente narração do documentário. Seu relato costura o registro daquele cotidiano. Entrelaça e amplia o drama de quem deixou família, cidadania e a própria história para trás. Karim une estas vivências sofridas aos planos de câmera contemplativos, belos e simetricamente rigorosos. Olhar para cada ponto do complexo nos joga sem dó naquele território.  

Contudo, a perspectiva imersiva, a sensação de estar lá, não ocorre apenas pela contínua sobreposição de imagens isoladas do prédio. Karim também guarda esmero (e empatia) em capturar a interação dos refugiados com aquela arquitetura. O cuidado prossegue em ambientes mais particulares e íntimos, caso das salas de entrevista. 

Legenda: Esperança no horizonte
Foto: Juan Sarmiento

Encaramos toda a grandiosidade do prédio histórico. São cenas de um horizonte profundo, capazes de explicitar a imponência daquela construção. Vemos as cercas, o concreto, a longa pista de pousos. Lá fora, está a Berlim tão distante para aqueles estrangeiros. São detalhes e ampliações de uma estrutura arquitetônica que testemunhou o avanço das mudanças sociais.  

Curiosamente, Tempelhof, um lugar construído com a intenção de propagar a morte acabou por se tornar um sopro de esperança. Um território que denuncia as consequências dos conflitos armados e escancara a xenofobia que ainda persiste nos dias atuais. Enquanto documento histórico, o filme entrega reflexões em torno do isolamento e do medo sobre o futuro.  

“Aeroporto Central” entrega dignidade para quem busca por melhores dias. Reflete também a relação da arquitetura urbana da cidade e sua poplação. Chega ao mercado de streaming em meio a uma crise mundial de saúde pública. Um momento no qual parte da população enfrenta duas ameaças reais, a mortalidade de um vírus e a ignorância de quem desacredita a ciência. Ainda temos muito por aprender.