Considerado mal-assombrado, casarão abandonado no Ceará desperta lendas e mistérios

Propriedade tem história contada em livro, e instiga o imaginário popular devido à estrutura em ruínas e aos assombrosos causos que a cercam

Escrito por Diego Barbosa, diego.barbosa@svm.com.br

Verso
Legenda: Com imponente estrutura em ruínas, solitária e depredada, a propriedade instiga o imaginário da população do entorno, alcançando também outras praças
Foto: Renato Bezerra

O nome do homem era Maradona. Aparentemente bêbado, estava sem camisa e acompanhado de um cachorro. Tinha idade avançada, as rugas desenhando mapas na pele. O cachorro não saía de perto dele, apesar de não possuir nenhuma amarra. Naquele dia, o ancião era uma espécie de guia, orientando o trio de pessoas que havia acabado de chegar – ainda que essas pessoas não o tivessem solicitado. Prestativo.

Maradona mostrou toda a casa e narrou diversas histórias sobre os donos. Ao final, os visitantes ofereceram uma quantia pelo serviço, em forma de agradecimento. Ele, porém, recusou. Segundos depois, se dirigiu à mata com o animal. Sumiu, e as pessoas não o viram mais. Moradores da região disseram nunca ter topado com aquele homem ali.

Entre o real e o sobrenatural, a situação de fato aconteceu com Marcos Fábio Oliveira, 34, Leonardo Alves, 26, e Leiwilson Silva, 25. Os três – professor, programador e designer gráfico estudante de História, respectivamente – são autores do livro “Progresso Obscuro”, baseado em fontes orais e escritas sobre o Casarão da Água Verde, localizado no município de Guaiúba, distante 49,5 quilômetros de Fortaleza.

A propriedade é um mistério só. Com imponente estrutura em ruínas, solitária e depredada, instiga o imaginário da população do entorno, alcançando também outras praças. É famosa a característica de ser mal-assombrada. O acontecimento envolvendo Maradona, no início deste texto, é apenas um exemplo no revolto mar de ocorrências fantásticas envolvendo o imóvel.

Legenda: Muitos relatam ouvir sussurros quando lá estão, paredes trancafiando as vozes de quem foi, mas permanece. Será?
Foto: Renato Bezerra

São narrativas de escravos abandonados à variola e trancados na senzala; de crianças, também escravas, mortas por cães de guarda; do assassinato do dono da fazenda por um chefe político local. Muitos relatam ouvir sussurros quando lá estão, paredes trancafiando as vozes de quem foi, mas permanece. Será?

De acordo com Marcos Fábio Oliveira, o fato que mais trouxe curiosidade aos autores de “Progresso Obscuro” e que mereceu maior estudo foi a lenda de que ali viveram escravos e que o prédio tem mais de cem anos – algo refutado pelos pesquisadores.

Escravos não viveram no local, pois ele foi originalmente construído após a abolição da escravatura. A versão reformada – como a vemos hoje – foi feita nos anos 1990, razão pela qual recortamos esse período e o retratamos no livro, sempre fazendo paralelos com o derradeiro período da escravidão em Acarape”, detalha.

Legenda: De acordo com pesquisadores, escravos não viveram no local, pois ele foi originalmente construído após a abolição da escravatura
Foto: Renato Bezerra

Esta região também foi incluída porque o dono da propriedade possuía carreira política no local, desencadeando uma trama real que culminou no assassinato do gestor, a mando do Coronel Juvenal de Carvalho. O acontecimento ficou conhecido como “A tragédia de Acarape”. “Faz alguns anos que a família largou o espaço, cabendo apenas fazer reparos simples. Atualmente, a prefeitura organiza eventos no lugar”.

Entre a História e o terror

A ideia para a criação do livro nasceu, assim, do interesse do trio de pesquisadores pela casa de Guaiúba. Toda a apuração dos dados iniciou em 2016 e foi concluída em 2020. A partir das primeiras informações, optou-se por mesclar oralidade e a historiografia da região, narrando tudo por meio do gênero terror. 

O casarão é utilizado como pano de fundo para que se discorra sobre o período final da escravidão no Brasil. O título da obra, por sua vez, foi escolhido em sintonia com a forma pelo qual o município utilizou para se desenvolver. A estrada de ferro de Baturité alavancou o progresso na região, no século XIX. No entanto, isso se deu por meio da mão-de-obra escrava – ainda que, à época, não de forma oficial.

Legenda: Em livro, o casarão é utilizado como pano de fundo para discorrer sobre o período final da escravidão no Brasil
Foto: Renato Bezerra

Na sinopse oficial do livro, conta-se que a Família Gonçalves, proprietária da Fazenda Ribeirão de Água Verde, ergueu um famoso casarão, tido como mal-assombrado. Benedito Cabral, com a esposa e os filhos, são levados por esse contexto histórico a viverem no imóvel dos Gonçalves. Nele, passam a serem usados pelos espíritos que ali vivem para resolver questões oriundas do período da escravidão. 

As dores trazidas na alma tanto dos escravos quanto do senhor de engenho, o coronel Hermiliano Gonçalves, dão aos parentes de Benedito um clima de terror físico e psicológico, tornando as vidas insustentáveis. Cada tortura, exploração e outras formas de violência serão revividas pelos atuais moradores do chalé.

Sádicas relações

Professor do curso de História da Universidade Estadual do Ceará, com mestrado acadêmico em História, Culturas e Espacialidades, Altemar da Costa Muniz dimensiona o real contexto da edificação. A construção e existência do Casarão da Água Verde testemunham o peso econômico da cana de açúcar, dos alambiques e engenhos, bem como da pecuária. 

Testemunham também as relações entre chefes políticos locais e as estratégias de hegemonia econômica e política. As relações econômicas, sociais e sádicas entre donos e escravos, bem como as particularidades da escravidão no Estado, igualmente se inscrevem nesse meio.

A presença arquitetônica e as dimensões da casa naturalmente despertam a atenção de quem passa pela rodovia”, corrobora o estudioso. “O livro ‘Progresso Obscuro’ é o primeiro trabalho numa tentativa séria de utilização da literatura como forma de conscientização patrimonial do bem”.

Questionado sobre se o Ceará é um celeiro de causos de mistérios e assombrações sobre casas antigas, Altemar é claro: não há dúvidas. Mas não seria algo inerente à nossa cultura. “Talvez seja um fenômeno mundial, pois antigas construções carregam o peso das histórias de vidas que por ali passaram e sempre despertam narrativas que flertam com o sobrenatural”.

Escrever outras histórias

Foram diversas visitas à cidade para escrever “Progresso Obscuro”. Inicialmente, os autores procuraram os donos do imóvel, residentes na fazenda Riachão de Água Verde. A partir daí, partiram para conversas com personagens folclóricos da região, buscando também fontes escritas. Os maiores desafios foram adquirir material da própria família. Esta deu acesso à fazenda e ao porão, embora não liberassem a leitura de documentos escritos sobre o imóvel. 

“Então buscamos outras fontes, o que aumentou o período de pesquisa. Apesar de ser uma obra de ficção, fizemos questão, por sermos historiadores, de criar um livro que servisse de consulta histórica. Ao final da obra, dispomos de mais de cinco páginas de referências bibliográficas e citações de fontes usadas. Todos os fatos reais contados estão embasados e têm as fontes reveladas”, destaca Marcos Fábio.

Legenda: A presença arquitetônica e as dimensões da casa naturalmente despertam a atenção de quem passa pela rodovia
Foto: Renato Bezerra

Lançada de forma independente pelo Clube de Autores em julho do ano passado, a obra está disponível em versão impressa e digital e, conforme os historiadores à frente da publicação, deverá ganhar novos capítulos – ainda sem previsão. “Optamos primeiro por deixar que o livro atinja o maior número possível de leitores para, aí sim, pensarmos em continuação. Caso aconteça, o foco será no Brasil atual”.

Até lá, o trio segue na empreitada de esmiuçar o Ceará místico – das lendas, dos causos e assombrações. A próxima parada é em Sobral. Vamos?

 

Progresso Obscuro
Marcos Fábio Oliveira, Leonardo Alves e Leiwilson Silva

Clube de Autores
2021, 322 páginas
R$57,14/ R$28,39 (e-book) - é possível comprar neste link