Como é o namoro de quem decidiu esperar para dar o primeiro beijo só após o casamento

Assim como ex-peão Miro Moreira, que relatou que dará o primeiro beijo na noiva no altar, fortalezenses falam sobre a decisão de esperar a bênção religiosa para beijar seus companheiros

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: O administrador Gustavo Oliveira e a psicóloga Renata Magalhães se comprometeram durante todo o tempo do namoro a não beijar, apenas no altar
Foto: Arquivo pessoal

Para alguns, impossível. Para outros, propósito. Beijar somente após a cerimônia de casamento virou notícia depois de o ator e diretor de fotografia Miro Moreira divulgar nas redes sociais o compromisso firmado com a noiva, a empresária Liliane Lima. “Vamos esperar para dar o primeiro beijo no altar”, afirmou o ex-participante do reality show A Fazenda.

O momento acontecerá no dia 23 de julho, em São Paulo, passados nove meses de espera. A decisão foi tomada, segundo eles, a partir da escuta de um pedido de Deus. “Nunca tinha tido um namoro assim, em que eu não pudesse sair sozinho com a minha namorada. Um dia estava orando e Deus falou comigo: ‘Não toca na minha filha’. Eu achei isso muito sério e respondi: ‘Amém. Vou esperar’”, detalhou Miro.

O caso dos dois não é isolado, porém. Na contramão do convencional, vários casais compartilham a mesma experiência de renúncia ao beijo antes do enlace matrimonial. Em Fortaleza, o administrador Gustavo Oliveira, 33, e a psicóloga Renata Magalhães, 28, integram esse time. Fiéis na igreja evangélica Missão Carismática Milagres e casados há três anos e nove meses, eles tomaram como princípio a doutrina do espaço em que congregam.

“A igreja nos ensinou a viver em santidade, a aproveitar esse tempo de espera para investir em outras áreas das nossas vidas. Nesse período, focamos em crescer profissionalmente, buscamos maturidade emocional e nos dedicamos a conhecer o outro melhor”, explica Gustavo, que a partir de 2010 manteve o compromisso da ausência de beijos com Renata. 

O propósito, contudo, foi alimentado bem antes por cada um. De forma individual, eles escolheram se “aliançar” com Deus e esperar o tempo certo e uma pessoa especial para se casar. “Nos conhecemos, oramos um pelo outro, noivamos e após quatro anos, casamos”.

Legenda: “A igreja nos ensinou a viver em santidade, a aproveitar esse tempo de espera para investir em outras áreas das nossas vidas", compartilham Gustavo e Renata
Foto: Arquivo pessoal

Os desafios decorrentes dessa vontade ocorreram tanto na época em que ainda não estavam comprometidos um com o outro, e muito mais quando oficializaram o namoro. A superação, por sua vez, se deu pela fé, por meio de oração e confiança divina. Além disso, ambos evitaram momentos de muita proximidade, capazes de gerar intimidade antes do tempo.

Contaram também com o apoio da família e de amigos da igreja. “Recebemos orações, aconselhamento e curso para noivos dos nossos queridos pastores, Alisson e Lucinda Gadêlha. Eles celebraram nosso casamento e nos ensinaram que o casamento é uma aliança com Deus e com o cônjuge que não deve ser quebrada”.

Namorar sem beijar: como?

Mas, afinal, como é um namoro no qual o beijo não é um dos elementos centrais? Gustavo considera ser totalmente diferente, algo que exige paciência e convicção. Hoje, ele e Renata observam os anos nos quais aguardaram um pelo outro e não conseguem acreditar que permaneceram fiéis a esse compromisso até o altar. 

“Mas sabemos que isso só foi possível pela fé que temos em Deus e por acreditarmos que o nosso Deus é fiel e cumpre todas as suas promessas”, sublinha. “Tínhamos certeza que após o tempo de espera seríamos ainda mais felizes e, juntos, construiríamos nossa família”.

inter@

O casal nunca lidou com a situação de modo negativo. Também não possuem vergonha de compartilhar a própria história. Conforme contam, geralmente, num primeiro momento, algumas pessoas não concordam e acham desnecessária a decisão; outras ficam muito surpresas e não compreendem como alguém pode ser noivo e ainda não ter beijado.

“Mas, ao compartilharmos nosso testemunho, elas são impactadas e motivadas a olhar para os próprios relacionamentos com mais amor e paciência. Nunca pensamos em desistir da ideia pois, antes de firmarmos o compromisso um com outro, nos aliançamos com Deus”.

No esperado dia do beijo, ansiedade, alegria e vergonha se confundiram – tendo em vista que foi a primeira vez dos dois, e justamente na frente de vários olhares. Ao se abster desse componente antes do casamento, Gustavo e Renata aprenderam a valorizar pequenas alegrias e conquistas. Esse é o melhor caminho para uma relação saudável e duradoura, segundo eles.

“Guardamos na memória o dia em que pegamos na mão pela primeira vez. No tempo de espera, amadurecemos, compartilhamos sonhos, fortalecemos nossa amizade, desejávamos a companhia do outro. E percebemos como pequenas atitudes alimentam um relacionamento. Surpresas, demonstrações de afeto e conversas são importantes”.

Formas de viver o afeto

Fato é que práticas culturais capazes de fugir ao mais comumente representado como normal ou padrão tendem a ser criticadas em algum nível, seja moral, econômico, ético ou religioso. Quem nos aloca nesse contexto é o psicoterapeuta e terapeuta sexual de casais, jovens e adultos, Francisco Ilo. Segundo ele, novas configurações de namoro/relacionamento não são muito antigas, datando de até 50 anos atrás. Antes disso, elas costumavam ser bem diferentes.

O namoro ora existia, ora não existia – noivava-se e casava-sa logo. Se existia, geralmente envolvia visitas à casa da futura parceria, sempre sob a vigia dos pais. Ficar de mãos dadas era um grande passo rumo à intimidade e o sexo na juventude, antes do casamento, era clandestino e, pelo risco de gravidez, até perigoso, uma vez que os anticoncepcionais hormonais femininos só começaram a se popularizar em meados da década de 1970. 

“Hoje em dia, temos como prática cultural hegemônica, ou mais representada, o relacionamento com abertura ao contato físico, ao sexo e ao prazer sexual. Isso é repassado nas relações familiares e sociais, com a cultura em geral. Logo, esse é um período de grande liberdade sexual, e muitas pessoas vivem felizes com essa liberdade, podendo estranhar, criticar e se perguntar sobre os motivos que levariam outras pessoas a optarem por não vivê-la a não ser sob certas condições (de casamento, em geral)”.

Legenda: Gustavo e Renata aprenderam a valorizar pequenas alegrias e conquistas devido ao tempo que passaram sem beijar
Foto: Arquivo pessoal

De forma particular, o psicólogo acha fascinante que, na dinâmica da clínica, ora atenda um casal num casamento aberto, ora um solteiro tranquilo com a própria solteirice, ora namorados que escolheram esperar o casamento para transarem, ora um trisal em um relacionamento fechado. “A multiplicidade de formas com que cada pessoa vive a própria vida é efervescente e temos cada vez mais contato com o diferente”, vibra.

Independentemente disso, simplesmente por estarmos vivos, teremos momentos e momentos. Experimentaremos alegrias e angústias profundas. Essa é a vida de solteiros, casados, monogâmicos ou não, religiosos ou não. Críticas à forma como alguém vive um relacionamento podem ocorrer por vários motivos: por alguém não se ver vivendo assim, estranhamento, histórico ruim em situações semelhantes ou apenas pelo desejo de criticar”.

“Para além de fugir ou driblar essas críticas, é muito importante a pessoa saber por que e para quê vive sua relação assim: quais valores guiam o relacionamento? Quem vocês querem ser e que vida querem levar juntos? Essas perguntas dão direções positivas a seguir – direções que não dependem necessariamente de aprovação ou validação social”.
Francisco Ilo
Psicoterapeuta e terapeuta sexual de casais, jovens e adultos

Convenções bastante distantes da realidade de Alexandre Silva,32, e Maiara Santos, 30. O recepcionista e a dona de casa partiram de uma decisão pessoal a fim de investir em uma relação na qual o beijo não existiria até a subida ao altar. Ambos são evangélicos, da Igreja Pentecostal Milagres, e casaram em novembro de 2017.

“Hoje temos certeza de que esse relacionamento sem beijo é o que fortificou nossa comunicação, respeito e carinho. A alegria de estar perto um do outro, a consciência em saber que não estávamos ali apenas com o interesse de satisfazer os desejos carnais, mas, sim, dividir momentos e aproveitar ao máximo para conhecer um ao outro, supriram todas as vezes em que pensávamos no dia do casamento e do beijo”, dividem.

Mas nunca foi fácil. É necessário ter ajuda, conversa, diálogo e alguém para acompanhar o casal. Por vezes, de acordo com eles, se começa a imaginar como seria beijar a pessoa amada. Porém, sempre decidindo honrar primeiramente a Deus. 

“Nunca foi uma obrigação fazer esse tipo de aliança com Deus. Começamos a entender o que Ele realmente queria de nós, então para evitar qualquer situação em que o desejo aumentasse, sempre quando saímos juntos, levávamos alguém para nos acompanhar. Ficar só nunca era o indicado, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Legenda: Segundo psicólogo, para além de fugir ou driblar as críticas, é importante a pessoa saber por que e para quê vive uma relação assim: quais valores guiam o relacionamento?
Foto: Shutterstock

Nessa travessia, o que mais ouviram foram frases como “são muito radicais” ou “querem ser muito santos”. Mas o foco na missão não os tirou do eixo. “De todo modo, a ansiedade sempre foi muito grande. Eu contava os anos, horas, minutos e segundos, esperava que ficasse marcado em nossas vidas, assim como ficou. A Pastora sempre foi minha amiga, então, no momento do beijo no casamento, ela disse: ‘Chegou tua hora, agora aproveita’”, ri Alexandre. “Demos um lindo beijo carregado de amor, carinho e respeito”.

Agora eles qualificam os frutos. A experiência foi importante para se conhecerem melhor, aprendendo a se relacionar sem se preocupar com os próprios interesses. Hoje o casamento de ambos, segundo eles,  é saudável porque antes conseguiram conversar, ouvir um ao outro e compartilhar os próprios sentimentos.

“Sempre que temos oportunidade, compartilhamos nossa experiência com alguém. Nunca vamos dizer que as pessoas são obrigadas a fazer o mesmo, mas mostramos os resultados do que plantamos lá atrás. De acordo com o que a sociedade ensina, é bem difícil e improvável; porém, se estiverem alinhados com o que a Bíblia ensina, certamente conseguirão, assim como nós conseguimos”, observa Alexandre.

Guiar o sentir

Pastor da Igreja Cristã Evangélica Fortalezense, José Wellington de Oliveira realiza esse ofício, sobretudo com jovens casais. Ele diz que o interesse em não beijar por parte deles é muito raro – exceto para alguns que já conhecem alguma iniciativa cuja proposta é incentivar a prática de namoro sem contatos físicos, a exemplo dos movimentos Eu Escolhi Esperar e Namoro em Corte.

Os desafios, a julgar pelo que observa, são conseguir vencer as tentações e manter o controle sobre as próprias emoções e desejos. Outro entrave é driblar opiniões contrárias – a exemplo de ser taxado de ultrapassado – e o apelo da mídia, a partir de propagandas e filmes incentivando o contato físico e a relação sexual.

“Para eles romperem com essas práticas que para a sociedade já se tornaram comuns, é muito difícil. Alguns até começam e tentam, mas não conseguem perseverar”, analisa. “Casado há 27 anos, eu tive essa experiência durante todo o namoro com a minha esposa. Não tivemos beijos e contatos físicos. O primeiro beijo foi depois do noivado e nos guardamos para o casamento. Foi uma experiência muito boa. E se pudesse faria tudo novamente”.

Nesse sentido, o conselho que ele dá aos jovens é claro: foquem durante a fase de namoro em conhecer a pessoa nas áreas emocional e espiritual. “Deus estabeleceu o conhecimento do relacionamento físico para depois do casamento. Seguindo esses princípios e andando conforme a palavra de Deus, vocês terão um casamento sólido e duradouro. Serão casados para sempre”.

Legenda: O pastor José Wellington de Oliveira e a esposa, Juliana Maria de Oliveira: hoje com 27 anos de casados, namoro dos dois foi para além do contato físico
Foto: Arquivo pessoal

Sob outra perspectiva, o psicólogo Francisco Ilo pondera que a intimidade não necessariamente está ligada a beijo ou sexo. É possível beijar e transar com muitas pessoas em festas e encontros e não haver intimidade nessas relações. O que está em jogo quando se decide não vivenciar essas questões durante um namoro é, entre outras coisas, não criar repertório sobre esses aspectos evitados.

Ou seja: quando houver o beijo ou a transa entre as parcerias depois do casamento, ambos podem julgar que uma ou a outra pessoa, ou mesmo eles enquanto casal, não sabem fazer o beijo ou o sexo de forma prazerosa, que não está funcionando e que não gostaram realmente daquilo. “Essa situação não precisa significar o fim da relação. Novamente: quais valores guiam seu relacionamento? Quem vocês querem ser e que vida querem levar juntos? Qual o lugar do sexo e do beijo nesse relacionamento? De que forma vocês expressam carinho e amor um pelo outro?”, questiona.

Em todos os relacionamentos, principalmente à medida que se tornam mais longos, é preciso se reinventar e aprofundar a intimidade – esse processo que acontece quando nós, numa relação, nos mostramos vulneráveis e passíveis de críticas, distanciamento e toda sorte de coisas ruins, mas, ao contrário do esperado, somos acolhidos e também acolhemos o outro quando ele se mostra assim. 

“Conversar sobre essas coisas difíceis, aprofundando a intimidade, dá possibilidade de o casal se ajustar em relação à expectativa do outro e também de se descobrirem. O que gostam, o que não gostam, o que estão dispostos a experimentar e quais seus limites. Se por vezes essas conversas forem difíceis de serem feitas entre os parceiros, há a possibilidade de eles procurarem terapia de casal ou terapia sexual”.

Assuntos Relacionados
Uma multidão festiva do bloco
Ana Beatriz Caldas, Diego Barbosa, João Gabriel Tréz, Lorena Cardoso
14 de Fevereiro de 2026