Como Belchior encontrou Elis Regina e surgiu o sucesso 'Como Nossos Pais'

A música foi gravada pela cantora em 1976. Em depoimentos de arquivo, compositor cearense explicou o significado da letra

Belchior e Elis Regina
Legenda: "Eu quis fazer uma canção que ultrapassasse a mera narrativa do conflito de gerações”, explicou o poeta

A força poética de Belchior (1946-2017) foi consagrada na voz de outras estrelas da música popular brasileira. O sucesso "Como Nossos Pais" guarda um lugar especial na lista de parcerias envolvendo o artista. A obra foi imortalizada na interpretação de Elis Regina (1945-1982) para o disco "Falso Brilhante" (1976).

O significado da letra, bem como os bastidores em torno da gravação explicam muito da luta de Belchior para estabelecer sua carreira. A gaúcha conhecia o trabalho do cearense. “Mucuripe” (de Bel e Fagner) entrou no disco “Elis” (1972). A cantora também gravou "Velha Roupa Colorida" e "Noves Fora"  (Fagner/Belchior). Essa última consta no álbum "Elis Especial" (1979).

Uma curiosidade. Outro grande nome da música do Ceará estave na mira de Elis. Falamos do "Velho Menino", Rodger Rogério, que chegou a participar de uma reunião na casa da cantora por volta de 1974. "Ela me procurou. Mas, já tinha fechado o repertório do 'Falso Brilhante'. Prometi a ela que voltaria, mas nunca voltei", conta com a generosa e habitual simpatia.

Rodger descreve que a timidez o acompanhou na mala, durante a temporada no Sudeste. "Ficamos três horas conversando. Estava animadíssima conosco. Disse que não dava mais para aquele show e que no próximo daria certo. Eu fiquei de voltar, mas resolvi ficar no Ceará".

Reunimos duas oportunidades na qual Belchior descreveu o contato com Elis Regina (1945-1982). Destacamos um descontraído bate-papo com Luís Carlos Miele (1938-2015) no ano de 2003. O outro depoimento aconteceu em 1992. Belchior resgatou o encontro durante participação no Programa Ensaio (TV Cultura).

Anos de dureza

Naquela metade dos anos 1970, as coisas andavam bem complicadas para o cearense. Na biografia "Belchior - Apenas um rapaz latino-americano", o pesquisador Jotabê Medeiros elucida detalhes importantes daquele período.


Entrevista para Miele

Belchior chegou ao Rio de Janeiro em abril de 1971. Foi de carona num voo do Correio Aéreo Nacional. Sem dinheiro, ficou com parentes no bairro do Méier. Em outras ocasiões chegou a se abrigar na casa da família de Fafá de Belém. 

“Os cearenses que vinham chegando moravam de favor e frequentavam jantares de executivos da música para mostrar seu trabalho e conhecer intérpretes que poderiam promovê-los”, argumenta o biógrafo. 

Uma dessas oportunidades aconteceu num sarau organizado pelo escritor Manoel Carlos. Mas, nada feito. Apenas cinco anos depois, um dos maiores sucessos de Elis viria ao mundo. Mas, Belchior só a conheceria pessoalmente em São Paulo. 

"É o Belchior?"

A Miele, o compositor afirmou que o apoio da gaúcha foi o combustível responsável pela gravação ter ido adiante. “Foi absolutamente marcado pela generosidade dela. Pela qualidade pessoal dela”, explicou. 

“Era um período bastante difícil da minha vida em São Paulo. Eu estava morando, assim, de favor, né.  Na casa de um amigo que estava reformando sua própria casa e me deu permissão de ficar lá com os operários”, contou Belchior.

Elis estava em estúdio para uma gravação com Toquinho e Vinícius de Moraes (1913-1980).  “Eu ouvi ela falar assim. Esse rapaz que tá ,aí… É o Belchior?”.

Durante o programa "Ensaio", o cearense descreve que munido do “orgulho que a pobreza desesperada dá”, tratou logo de ir direto ao assunto.

“Eu não posso mostrar minhas músicas para você porque eu não tenho gravador. Estou morando numa construção civil, eu não tenho violão. Portanto, se você não der todas as condições para que eu possa mostrar a minha música, nada feito. Se a senhora morar longe, a senhora me avisa logo o endereço hoje, pois eu tenho que sair exatamente agora”. E não parou por aí: 

“E se o convite for feito para uma hora especial, que seja a hora do almoço ou do jantar”. 

Naquela mesma noite, Elis prometeu gravar duas obras dele. Belchior assume que o trabalho da cantora foi um aval para seu nome. “E a garantia certa de que ali se iniciava, pelo menos para mim, uma brilhante carreira de um novo compositor de música popular”.  

O significado de um clássico

Em 1996, durante entrevista para o programa “Nossa Língua”, da TV Cultura (SP), o poeta sobralense abordou a origem da canção. Ao apresentador, o professor Pasquale Cipro Neto, o cantor advertiu que a letra tem a missão de ser contundente.

“Surgiu da vontade explícita, direta, de fazer uma canção ácida, um pouco amarga, reflexiva sobre essa condição sempre mutante do jovem na era da comunicação. Contudo, o comprometimento político que essa mudança acarreta - e como essa mudança ocorre com muita frequência - eu quis fazer uma canção que ultrapassasse a mera narrativa do conflito de gerações”, definiu. 

Registro ainda traz
Legenda: Registro ainda traz "Velha Roupa Colorida" ,de Belchior

A poesia assumida em “Como Nossos Pais” consegue o caráter universal por dialogar com as necessidades e realidades dos muitos jovens. “O urbano, suburbano, provinciano e metropolitano”, como definiu o cearense. 

Nas palavras de Belchior, ele não se distancia do tema abordado na obra. “Como autor, estou comprometido com o personagem dela. Eu me identifico com o drama, com aquele conflito e também com o contraste que eventualmente o autor poderia elidir, mas que nesse caso não faz”, defendeu. 

 

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