Autor de 'Torto Arado', Itamar Vieira Junior adentra em diferentes Brasis por meio de contos

“Doramar ou A Odisseia”, novo livro do consagrado escritor baiano, é lançado em evento virtual nesta quinta-feira (1º)

O escritor Itamar Vieira Júnior lançou seu novo livro, Doramar ou A Odisseia
Legenda: Autor baiano surge desta vez com uma seleção de 12 contos que mescla textos já publicados e outros inéditos em livro
Foto: Adenor Gondim/Divulgação

Vem do grego a origem da palavra epopeia, traduzida como “poema épico”. Gênero literário constituído de longos versos – responsáveis por narrar histórias de um povo ou de uma nação – tem na “Odisseia”, de Homero (898 a.C.), uma de suas principais representações. É um título que vez ou outra ressurge em incansável apelo, geralmente para validar a coragem de grandes heróis ou demarcar a reunião de feitos que sobrepujam o ordinário.

Em “Doramar ou A Odisseia”, novo livro de Itamar Vieira Junior, o vocábulo torna a aparecer, embora afeito às odisseias do cotidiano da terra, estas que desafiam a lógica comum dos dias e espelham protagonistas distantes do costumeiro radar das narrativas ocidentais.

São indígenas, negros, ribeirinhos, epifanias que abraçam ancestralidades e costumes marcados pela dobra do tempo. São violências, desafios e suores. São essencialmente mulheres, unidas por parentesco direto ou pela garra que as interligam num véu invisível. 

É, inclusive, a elas que a obra é dedicada – “maternas, ancestrais” – participantes do caminhar resoluto e insone de Itamar. O autor baiano, cujo ofício literário consagrou-se com o premiado e largamente referenciado “Torto Arado”, desta vez surge com este novo trabalho, uma seleção de 12 contos que mescla textos já publicados – alguns presentes em “A oração do carrasco”, finalista do Prêmio Jabuti em 2018 – e outros inéditos em livro.

O exemplar é lançado nesta quinta-feira (1º), a partir das 19h, durante live realizada pela editora Todavia no YouTube, Facebook e Twitter da casa. Na ocasião, dividindo a tela com Vieira Junior, estarão o líder indígena, filósofo e poeta Ailton Krenak; a artista Aline Bispo, ilustradora das capas de Itamar; e o advogado, filósofo e professor universitário Silvio Almeida. A mediação será do editor Leandro Sarmatz.

Pontes entre territórios

A forma como os diferentes Brasis são desenvolvidos nas tramas de “Doramar ou A Odisseia” engloba múltiplas abordagens e modos de presentificação das personagens e seus conflitos. Itamar adentra em cada terreno mesclando realidade e um quê de fábula, de extraordinário, suscitando percursos que convergem entre si por meio de um exercício de observação precisa – tanto de componentes externos aos indivíduos como por meio daquilo que vem de dentro e alimenta atitudes de insubmissão, conforto ou esperança.

O conto que abre a coletânea, “Floresta do adeus”, reflete sobre a situação de quem vive na fronteira, recuperando afetos, práticas e maneiras de interromper a separação diante da lonjura programada, da cercania que amordaça o caminho.

Por sua vez, “Farol das almas”, ao trazer para o centro dois navios negreiros que aportam na Bahia e cujos escravos precisam construir um farol para iluminar a navegação noturna, evoca a mitologia das águas e um modo de prover qualquer resquício de liberdade em meio ao chão que desaba (ou afunda).

Legenda: Itamar Vieira Junior adentra em cada terreno de "Doramar ou A Odisseia" mesclando realidade e um quê de fábula, de extraordinário
Foto: Divulgação

Nessa areia movediça de horizontes, “Alma” irrompe como a odisseia de uma escrava em busca de emancipação e justiça. A narrativa é contada em primeira pessoa, a partir de grandes blocos de texto. Em cada um deles, apenas vírgulas os separam, acelerando o pensamento e as ações da personagem. 

O conto, assim, mergulha nas relações entre escravos e senhores, a busca pela carta de alforria, o cuidado das amas de leite com as crianças brancas, entre outros detalhes desse nebuloso painel. O ato final, de superação dessas amarras, não deixa de também representar o início de mais desafios, nessa travessia de interdições que parece infinda.

Os densos contextos seguem com “A oração do carrasco”, sobre as ressonâncias de nossas raízes; “O espírito aboni das coisas”, num jogo de palavras entre o português e a língua jarawara, típica dos povos indígenas da região dos rios Juruá e Purus, no Amazonas, habitantes de um território constantemente invadido por pescadores e madeireiros; e “Na profundeza do lago”, cuja frase “havia o silêncio duradouro das coisas intocadas, que ela não sabia explicar”, presente no conto, bem sintetizam a experiência da protagonista.

Mescla de referências

A história que intitula a obra adquire feições claricianas ao trazer a protagonista diante do espanto do contato com a morte  – a morte de um cachorro –, algo que desencadeia todos os fatos e reflexões do conto. E são muitas, narradas na maior parte em terceira pessoa, porém com trechos em primeira.

É sobre Doramar, mas também a respeito de tantas outras em condição de periferia, atreladas a memórias difusas de um sem-número de fisionomias e que seguem vivas em seus silêncios, “tecendo a cama no chão de lama para descansar da vida”.

“Voltar”, em engenhosa costura de entrelaçamentos, evoca as adversidades pelas quais passam aqueles cujo lar deve ser desocupado para dar lugar a um empreendimento – neste caso, uma usina –, não sem antes também imergir nas minúcias da floresta, no querer preservar o sustentáculo de todo um povo.

Por fim, “manto da apresentação” reúne aspectos biográficos do artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1911-1988), algo que o próprio Itamar explica na seção “Nota do Autor”, quando referencia o significativo acervo de leituras, entrevistas e documentários que o auxiliaram na tessitura do conto.

“(...) essas coisas boas, essas coisas tristes, nada sai da minha cabeça, vou lembrando as coisas”: presente em “Alma”, esse pequeno trecho parece ser a insígnia do breve e (mais um) fascinante livro de Itamar Vieira Junior. Uma sucinta coleção de paisagens que encontram, na grandeza da pluralidade humana, em suas vozes, passos e passados, uma maneira de abraçar e intervir no grande desfiladeiro da vida.


Serviço
Lançamento do livro “Doramar ou A Odisseia”, de Itamar Vieira Junior
Nesta quinta-feira (1º), pelo canal do YouTube, perfil no Facebook e perfil no Twitter da editora Todavia


Doramar ou A Odisseia
Itamar Vieira Junior

Todavia
2021, 160 páginas
R$ 49,90

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