Apresentador da GloboNews discute LGBTfobia em livro: 'Preconceitos estão aí para serem combatidos'

Marcelo Cosme é o primeiro apresentador de televisão assumidamente gay do Brasil e lança livro nesta sexta-feira (10)

Legenda: No livro, estão passagens sobre a vida do apresentador quanto à própria sexualidade, bem como relatos de outros homens gays, mulheres lésbicas e pessoas trans, por exemplo
Foto: Reprodução/Instagram

É um processo: tornamo-nos racistas, misóginos, xenófobos e homofóbicos. Logo, da mesma maneira como fomos moldados a reproduzir violências, também podemos estimular métodos de desconstrução desse panorama. O entendimento e a aposta nessa possibilidade são a base da estreia do jornalista Marcelo Cosme no mercado editorial, com o livro “Talvez você seja…: Desconstruindo a LGBTfobia que você nem sabe que tem”.

Publicada pela editora Planeta, a obra é lançada nesta sexta-feira (10) como resultado de intensas reflexões pessoais e coletivas. À frente do "Em Pauta", programa da GloboNews, Marcelo é o primeiro apresentador de televisão assumidamente gay do Brasil. O feito otimizou a necessidade de multiplicar olhares sobre a própria experiência e a de pessoas que, infelizmente, ainda são bastante discriminadas por serem quem são.

“O título do livro parte do pressuposto de que a gente precisa discutir esse assunto. Quando falo em desconstruir, é justamente porque as pessoas dizem ‘eu não sou racista’, por exemplo, mas não entendem que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, defende.

Legenda: Na ótica do autor, sempre estamos passando por processos de desconstrução, uma vez termos nascido numa sociedade bastante preconceituosa
Foto: Divulgação

Segundo ele, a mesma coisa vale para quem diz que não é preconceituoso apenas porque tem um conhecido ou um amigo gay. Palavras, atitudes e gestos do dia a dia podem estar embutidos numa intolerância que, para quem fala, não é evidente ou não existe, mas, para quem ouve, é muito real e verdadeira. “Assim, quero desconstruir esse discurso de que ‘não somos homofóbicos’”, sintetiza.

A forma como o jornalista desenvolve o tema no livro – escrito em apenas seis meses e fruto do vasto alcance de duas lives – prima pela diversidade, num fluxo de bem-vinda coerência. Cosme entremeia informações sobre si mesmo e outros, bem como a visão de profissionais como o médico Drauzio Varella e o psiquiatra Jairo Bouer. Nesse mosaico, estão passagens sobre a infância, adolescência e descobertas do apresentador quanto à própria sexualidade, e também relatos de outros homens gays, mulheres lésbicas e pessoas trans, por exemplo.

Não à toa, o autor deixa bastante claro: a obra não se trata de uma autobiografia. “Não fico falando só de mim. Mas tem um pouco de minhas vivências, sim, porque não posso tratar desse tema sem fazer isso, uma vez que sou um homem gay. Esse processo de escrita me obrigou a refletir um pouco, lembrar histórias do meu passado, mas eu também quis ouvir muitas outras pessoas que sofrem outros preconceitos os quais eu não sofro”.

A família nesse processo

A grande roda de conversa que se torna o livro – com prefácio assinado pelo cantor e compositor Lulu Santos – é complementada pela introdução de pais e mães no debate. Marcelo Cosme almeja elucidar que a família é igualmente importante no processo de afirmação da sexualidade. Encarada como um núcleo que pende para a rejeição, ela é também instrumento para a transformação e uma convivência sadia.

“Costumo dizer que o livro tem um pouco de mim e um pouco de outros, para que a gente possa discutir essa questão de uma maneira mais ampla. Tive a preocupação em ouvir pessoas de guetos muito diferentes para que a obra se tornasse o mais plural possível. Até porque ela fala sobre liberdade e diversidade, então não podia ser algo focado especificamente em um tipo de pessoa”.
Marcelo Cosme
Jornalista e apresentador de TV

Falando em família, foram as peripécias de uma bastante famosa que o inspiraram a se assumir para a mãe. A trilogia de filmes “Minha Mãe É Uma Peça”, protagonizado por Paulo Gustavo (1978-2021) – cuja trama traz um personagem gay como filho de dona Hermínia, personagem principal das películas – sempre foi muito querido na casa de Marcelo.

Ao perceber a mãe rindo da personagem de dona Hermínia naquele contexto, acolhendo o filho homossexual, Cosme pensava: “Se a minha mãe vê essa personagem que vive essa situação, no dia que eu contar da minha sexualidade talvez ela também tenha esse olhar’”.“E foi isso que eu falei à dona Déa [Lúcia Vieira], mãe do Paulo Gustavo, quando eu a conheci há duas semanas, sobre a importância que o Paulo teve em mostrar isso, que os filhos gays estão aí, que as famílias ficam preocupadas, e que a gente precisa desse apoio”.

Na ótica do autor, sempre estamos passando por processos de desconstrução, uma vez termos nascido numa sociedade preconceituosa. Ele mesmo confessa que, há pouco tempo, utilizava expressões que endossavam o racismo e a homofobia, com a justificativa de que todas as pessoas também usavam. Hoje, a partir da proeminência de movimentos a favor do respeito, esse comportamento mudou e quer se estender para cada vez mais praças.

O desafio, porém, é diário. Marcelo relata que, nas vezes em que desenvolve um pensamento capaz de gerar algum tipo de preconceito, bloqueia-o no mesmo instante. “Começo a refletir: ‘Por que isso é errado?’, ‘Por que estou sendo preconceituoso e qual é a forma que tenho para me expressar de maneira a respeitar o próximo?’, indaga-se. 

“A desconstrução é contínua. Em uma parte do livro, comento sobre pessoas que olham para a sigla LGBTQIA+ e falam, ‘mas agora será o alfabeto inteiro?’. Pode ser, e daí? Falamos de inclusão. Se for o alfabeto inteiro, está tudo bem. Temos que estar abertos a desconstruir qualquer preconceito”.

Combate à opressão

Afirmando nunca ter escondido a própria sexualidade – exceto para a família durante algum tempo, visto que precisava de maior segurança para falar – o jornalista ainda pondera sobre os próprios privilégios ao abordar uma questão que diz respeito a milhões de pessoas no País. Marcelo Cosme é um homem branco, de 42 anos, com uma posição profissional bem-sucedida. Tudo isso faz com que, conforme aponta, haja plenas condições de se defender de possíveis ataques homofóbicos, realidade bastante diferente de muitos.

“Eu não posso partir do pressuposto de que todo mundo tenha tido essa mesma sorte na vida ou esteja buscando o mesmo resultado com esforço. Tenho 42 anos, mas, de repente, um cara que tem 20 sofre o ataque de um outro e ainda não sabe se defender. Eu preciso ajudar essas pessoas também. Não posso pensar apenas em mim. Na minha família, o processo foi normal. Tem aquele primeiro impacto, assim como tem em todas, mas conto exatamente como foi isso no livro, assim como foi no trabalho e para as minhas relações mais próximas”.

Por sua vez, considerando o fato de ser o primeiro apresentador assumidamente gay do Brasil, ele conta da dificuldade inicial de ter outras referências no meio. Ao mesmo tempo, sublinha a satisfação de trabalhar em uma empresa que sempre o respeitou e de abrir caminho para que outros pudessem se sentir representados, assumindo também as próprias identidades.

“Por ser um apresentador, ganho mais notoriedade – fico duas horas no ar todos os dias ao vivo – então tenho que abrir esse caminho. Existem vários jornalistas gays, muitos repórteres são assumidamente assim. Mas, na função de apresentador de telejornal, eu não tenho nenhuma lembrança. Já que muitos abriram esse caminho, chegou o momento de eu pavimentá-lo também. E é o que estou fazendo agora”.
Marcelo Cosme
Jornalista e apresentador de TV

Pai de um filho e no momento noivo do médico Frankel Brandão, Marcelo Cosme afirma que, nesse instante tão difícil de Brasil – nação que mata milhares de pessoas apenas devido à orientação sexual delas – a maior preocupação dele é como ser um cidadão em um lugar assim, em meio a uma pandemia e numa sociedade que necessita de igualdade em vários critérios, dos sócio-educacionais a aqueles que passam pelo trabalho e pela diversidade.

“Preconceitos estão aí para serem combatidos. A pauta já avançou muito, mas ainda precisa avançar. No livro, inclusive, falo dos direitos adquiridos por meio de questões judiciais, e sobre o quanto esses direitos precisam se tornar leis. O congresso brasileiro, bem como a sociedade tão preconceituosa, não encara essas questões, mas a gente precisa encarar. Há, assim, um movimento muito forte de desconstrução do preconceito, e eu acho que, no futuro, dias melhores virão. Para isso, porém, precisamos nos manter atentos e vigilantes”.


“Talvez você seja…: Desconstruindo a LGBTfobia que você nem sabe que tem”
Marcelo Cosme

Planeta
2021, 208 páginas
R$44,90 

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