Acupuntura cresce, mas seu viés preventivo ainda carece de compreensão

A aplicação com as agulhas é hoje uma das principais terapias integrativas dos atendimentos de saúde no Brasil. Especialistas apontam os benefícios e as possibilidades ainda pouco exploradas sobre o procedimento

Legenda: A prática compreende as disfunções como oscilações no fluxo de energia yin (passiva) e yang (ativa) do paciente
Foto: Fotos: Thiago Gadelha

Tratar a saúde com agulhas é uma situação tensa para a vida de muita gente. Com receio da dor que uma injeção - dentre outros instrumentos pontiagudos - pode provocar, alguns pacientes costumam se esquivar da possibilidade de lidar com essa situação. Consolidada nos sistemas de saúde privada e pública, a acupuntura ajudou a transformar esse quadro e agora evolui, no Brasil, como alternativa na prevenção de doenças diversas.

"Aqui no Ocidente, a acupuntura ainda é tratada de forma 'remediativa'. Mas ela é preventiva. É boa para quem tem problemas de insônia, menstruação, enxaqueca, estresse, sequelas de AVC, da parte de cardiopatia, retenção de líquidos. Na verdade, vai ser boa pra tudo", resume o terapeuta e acupunturista Bruno Aboim.

Tradição

Extensa em seus benefícios, basicamente a acupuntura consiste na aplicação de agulhas em pontos determinados do corpo do paciente, para tratar desequilíbrios orgânicos.

Bruno explica que, na visão da medicina tradicional chinesa, a prática compreende as disfunções como oscilações no fluxo de energia yin (passiva, retensiva) e yang (ativa) do indivíduo. "Ela vai atuar no tratamento desse desequilíbrio no corpo. E, na linguagem chinesa, lidar com 'ataques de vento', 'excesso de calor', ou de frio, do organismo. É uma gama vasta de possibilidades", observa.

Sobre o principal instrumento de aplicação da acupuntura, Bruno Aboim destaca que as agulhas são muito finas. O terapeuta reconhece que o paciente pode sentir algum incômodo, a depender da região do corpo e do tipo de bloqueio que a pessoa retém.

No entanto, se o caso do paciente se trata de "fobia" de agulhas, a acupuntura já trabalha com alternativas, como o laser, o fogo e a aplicação de sementes no "pavilhão auricular" (região da orelha). "Só que essas alternativas são pouco utilizadas ainda. E têm uma finalidade mais específica. Não é sistêmica como a aplicação das agulhas", pondera Bruno.

Legenda: O terapeuta e acupunturista Bruno Aboim destaca a função da aplicação na prevenção de doenças

Efeitos

Para o acupunturista, as contraindicações da aplicação são muito pontuais. Não se recomenda aplicar em feridas abertas, por exemplo, pela vulnerabilidade da pele. E é preciso ter cuidado com pontos que são vasodilatadores, sobretudo, para as mulheres, durante a gravidez.

A pressão da agulha pode provocar uma contração ou até um aborto espontâneo. Por isso, Bruno Aboim recomenda que "a cada mês da gestação existe um protocolo mais indicado de acupuntura. Para as futuras mães, que não começaram a ter contrações, inclusive, a acupuntura é indicada pra trazer esses movimentos para a hora do parto".

Como toda terapia integrativa, a acupuntura, segundo Bruno, será mais eficiente se a gestante receber aplicações durante todo o período da gravidez. "Porque a acupuntura não é um milagre. Se a paciente tem uma deficiência de rim, de fígado, uma aplicação na véspera do nascimento do bebê não vai trazer essa força para a hora do parto", exemplifica. O acupunturista identifica, em linhas gerais, se o ponto do organismo está com excesso de energia, e estimula uma sedação; ou se houver a insuficiência energética, ele vai tonificar a região.

Segundo o médico e acupunturista Evaldo Leite, um dos pioneiros da acupuntura no Brasil, o tratamento está difundido pelo País. Além disto, a técnica já superou uma série de preconceitos que algumas terapias integrativas ainda sofrem - por conta do conteúdo simbólico e não-científico de parte desses conhecimentos.

O SUS (Sistema Único de Saúde) aceita, hoje, a acupuntura, de uma maneira franca, como um dos procedimentos integrativos. Existem pesquisas no Brasil, que apontam que a prática está presente em cerca de quatro mil municípios brasileiros (de um total de cinco mil)", estima o presidente da Associação Brasileira de Acupuntura (ABA)
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Formação

Em 60 anos de ABA, vislumbra Dr. Evaldo, a organização formou de 40 a 50 mil acupunturistas, em 18 estados e 31 cidades brasileiras. Aos 90 anos, o médico tornou-se acupunturista no tempo em que a prática ainda era restrita a ambientes comunitários e às famílias orientais radicadas em São Paulo (SP) e em outros lugares, na década de 1950.

"O trabalho era puramente privado, em certo sentido. Mas, desde esse tempo, realizamos atendimentos gratuitos, e já fazíamos 'acupuntura solidária' para as pessoas que não tem condições de pagar por uma consulta. Mas cada acupunturista tem seu consultório. E hoje, com esse panorama bem mais aberto, também trabalham em hospitais, postos de saúde, clínicas", resume o pioneiro na técnica oriunda da tradição chinesa.

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