Suplementação de proteínas para crianças e adolescentes: quais são os riscos e quando é indicada?
Especialista alerta sobre os perigos do excesso de proteínas para o desenvolvimento infantil.
Com o aumento do consumo de suplementos proteicos entre o público jovem, muitos pais têm recorrido a shakes, barras e pós de proteína na tentativa de melhorar a alimentação ou potencializar o desempenho esportivo de crianças e adolescentes.
No entanto, especialistas alertam que a suplementação sem orientação médica ou nutricional pode trazer riscos à saúde, como sobrecarga nos rins, desequilíbrios nutricionais e até impactos no desenvolvimento.
Afinal, em quais situações esse tipo de suplemento é realmente indicado? E quais os cuidados necessários antes de incluir proteínas extras na rotina alimentar dos pequenos?
A resposta é simples. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), não há indicação para o uso de rotina de suplementos proteicos em crianças e adolescentes saudáveis.
A necessidade diária de proteína nessa faixa etária é facilmente atingida pela alimentação do dia a dia, explica Mariany Cardoso, nutricionista materno infantil especialista em terapia alimentar e nutrição escolar, em entrevista ao Diário do Nordeste.
Conforme exemplifica a profissional, esse público necessita, em média, de 0,85 a 0,95 g de proteína para cada quilo de peso por dia.
Na prática, o consumo de um único ovo já pode cobrir uma parte expressiva da cota diária de uma criança menor.
Essa quantidade total é alcançada sem esforços por meio de uma alimentação equilibrada composta por carnes, ovos, leite, feijão e outros alimentos naturais. A regra de ouro é: nem a seletividade alimentar nem a prática esportiva justificam o uso automático ou por conta própria desses produtos.
Quando o uso pode ser recomendado por médicos ou nutricionistas?
A suplementação proteica só deve ser feita sob recomendação profissional e em casos isolados. A indicação exige uma avaliação técnica rigorosa e individualizada, sendo voltada para quadros graves de desnutrição que não melhoram apenas com a comida sólida, doenças que prejudicam a absorção do intestino (como doença celíaca não controlada ou Doença de Crohn) e condições de severa perda de peso e massa muscular devido a internações e tratamentos crônicos.
"Nesses cenários específicos, o suplemento não entra como um substituto de refeição para treino, mas sim como um tratamento de recuperação metabólica, com a dose exata calculada pelo profissional", detalha Mariany Cardoso.
A especialista explica que, na infância e adolescência, o organismo está em pleno desenvolvimento físico, hormonal e metabólico. O consumo sem critério e prolongado desses produtos quebra esse equilíbrio e gera riscos distribuídos em três frentes principais:
Riscos metabólicos
O excesso de proteína que o corpo não consegue utilizar para construir tecidos não desaparece e acaba sendo transformado e armazenado como gordura corporal. Além disso, essa sobrecarga crônica estimula a produção exagerada de hormônios como a insulina, o que está associado, nos estudos de saúde, ao aumento do risco de obesidade e resistência à insulina na vida adulta.
Sobrecarga de órgãos
Os rins e o fígado dos jovens ainda estão amadurecendo suas funções. Filtrar um volume artificialmente alto de resíduos de proteína eleva o esforço dos rins, gerando uma sobrecarga que, a longo prazo e sem a hidratação adequada, pode comprometer a função renal.
O fígado também sofre um desgaste desnecessário para processar essas doses massivas e concentradas.
Riscos comportamentais e nutricionais
Segundo a nutricionista, focar na proteína em pó faz com que as famílias deixem de investigar a verdadeira causa da falta de apetite ou do cansaço do jovem, mascarando deficiências reais de nutrientes essenciais, como ferro, zinco e vitamina B12.
A profissional também alerta para o risco psicológico: adolescentes influenciados pelas redes sociais tendem a buscar de forma imediatista padrões de corpo irreais, o que frequentemente serve de porta de entrada para transtornos de imagem (como a vigorexia, que é a obsessão pelo corpo musculoso) ou para o uso de substâncias perigosas como anabolizantes.
Whey protein faz mal para crianças? Ele pode ser usado por adolescentes?
Conforme Mariany Cardoso, o whey protein é a proteína extraída do soro do leite, e não deve ser rotulado como um "veneno". No entanto, o seu uso comercial em pó traz riscos importantes para o público jovem.
"O grande problema não é a proteína isolada, mas sim os aditivos químicos necessários para tornar esses pós atraentes para o consumo. A indústria costuma carregar esses produtos de adoçantes artificiais, corantes e aromas sintéticos", sublinha a nutricionista.
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O consumo frequente dessas substâncias altera negativamente a saúde e o equilíbrio da flora intestinal em desenvolvimento, além de viciar o paladar do jovem, fazendo com que ele rejeite os sabores naturais dos "alimentos de verdade".
A especialista também lembra que, para os adolescentes, o apelo estético das redes sociais torna o uso ainda mais preocupante, pois cria uma dependência de produtos industrializados em detrimento da comida do prato.
Toda criança que pratica esporte precisa suplementar?
"Não. Esse é um dos maiores mitos propagados pelo marketing focado em produtos de academia. O organismo de um atleta em crescimento funciona de forma muito diferente do de um adulto. Na infância e na adolescência, a prática esportiva, mesmo em nível competitivo, raramente exige o uso de suplementos de proteína", afirma a profissional.
O aumento das refeições já cobre a meta diária
Quando o jovem aumenta o volume de treinos, a sua fome e a necessidade de energia sobem. Ao ajustar o cardápio para suprir esse gasto por meio de carboidratos e gorduras saudáveis, as porções de comida aumentam naturalmente nas refeições.
Esse ajuste, explica a especialista, já faz com que a meta de proteína do dia seja batida com folga apenas da própria comida.
"A demanda do jovem atleta é prioritariamente por energia e hidratação, não por excesso de proteína. O melhor combustível para o jovem atleta não vem de um pote, mas do prato", diz.
Risco de perda de apetite
O estômago da criança tem uma capacidade limitada. A introdução de shakes de proteína concentrados logo após o treino gera uma saciedade artificial prolongada. Isso tira o apetite para as refeições principais, fazendo com que o jovem deixe de almoçar ou jantar a "comida de verdade", o que prejudica o crescimento e a própria performance no esporte.
Como garantir proteína de forma natural na alimentação?
Garantir o aporte de proteína de forma natural é muito mais simples do que o mercado faz parecer. Não precisamos de volumes gigantescos de comida. O segredo está na escolha de alimentos nutritivos e na boa distribuição deles ao longo do dia, aproveitando a nossa rica cultura alimentar regional
A seguir, a nutricionista lista algumas formas de obter esse índice de forma natural:
Proteína animal
- Ovos (dois ovos mexidos garantem cerca de 12g de proteína);
- Carnes vermelhas e frango (100g de peito de frango grelhado entregam cerca de 30g de proteína)
- Peixes como a nossa tilápia regional; e
- Laticínios (leite integral, iogurte natural e queijo coalho).
Proteína vegetal
- Grupo dos feijões, como lentilha, grão-de-bico e a própria soja.
"Quando combinamos o feijão com o arroz, criamos a união perfeita de nutrientes, gerando uma proteína completa e de excelente qualidade para o crescimento. A castanha de caju, orgulho da nossa terra, também entra nos lanches da tarde complementando esses nutrientes e gorduras boas", recomenda a profissional.
Para você entender na prática: em média, o jovem precisa de 1 grama de proteína para cada quilo de peso por dia. Ou seja, um adolescente de 40 kg precisa de 40g de proteína no dia.
"Olha como o prato de comida resolve isso: se ele comer 1 filé médio de frango (100g) no almoço e 2 ovos mexidos no jantar, ele já consumiu 42 gramas de proteína. A meta do dia inteiro já foi batida. Todo o resto (o feijão com arroz, o leite, as castanhas) entra como um bônus seguro e saudável", exemplifica Mariany Cardoso.
Cuidado com o excesso
A nutricionista aconselha que, se houver alguma dificuldade alimentar ou uma rotina intensa de treinos da criança ou adolescente, antes de comprar um suplemento por conta própria, a melhor atitude é pedir ajuda a um profissional, que irá avaliar as necessidades.
"Eu entendo a preocupação dos pais com tantas cobranças do mercado, mas o organismo em crescimento precisa de equilíbrio. Existe hoje uma obsessão com a proteína, e é aí que começam os problemas. As famílias focam tanto em um único nutriente que esquecem que o corpo precisa de carboidratos e gorduras saudáveis para funcionar. Não olhe para o prato do seu filho pensando apenas em proteína. O melhor investimento sempre será a comida de verdade", conclui a especialista.