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O que o fenômeno do voto 'branco' para deputado federal no Ceará em 2022 indica para 2026

25 cidades cearenses tiveram abundância desse sufrágio eleitoral no último pleito.

Escrito por
Milenna Murta* milenna.murta@svm.com.br
Botoões
Legenda: No Ceará, 295 mil eleitores votaram em branco para o cargo de deputado federal na eleição de 2022.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A renovação das cadeiras destinadas aos deputados é um dos principais focos dos partidos para o pleito de 2026, junto à representação no Senado Federal. É a partir do quantitativo eleito no Legislativo que essas legendas recebem o fundo partidário anual, previsto na Lei dos Partidos Políticos.

Atualmente, a bancada cearense na Câmara dos Deputados é composta por 10 siglas diferentes, distribuídas entre os 22 parlamentares eleitos.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) é quem possui maior representação hoje na Casa, com 11 deputados cearenses em exercício, seguido pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), respectivamente com oito e seis parlamentares.

Apesar do estado ter computado cerca de 5,1 milhões de votos válidos para o cargo em 2022, a abundância do vácuo eleitoral também se destaca. Em uma análise dos três candidatos a deputado federal mais votados em cada cidade, a opção do voto em branco ocupou o pódio para o cargo em 25 municípios cearenses, conforme levantamento realizado pelo PontoPoder.

Ao todo, contabilizando apenas essas cidades, são mais de 58 mil eleitores que decidiram votar em branco e se abster da escolha por um representante na Câmara. Em todo o Ceará, esse número sobe para 295 mil.

Cascavel, na Região Metropolitana de Fortaleza, é o maior destaque: a tecla mais apertada nas urnas para deputado federal foi a “Branco”, contabilizando 3.495 votos. O candidato mais votado nesse município obteve apenas 3.178 votos.

Apesar do quantitativo, Pedro Barbosa, cientista político e diretor do Instituto Opnus, aponta para uma diminuição percentual dessas abstenções, com apenas 8,9% de votos brancos e nulos em 2022, enquanto anos como 2014 e 2018 registraram a marca de 12%.

Distribuição de votos no Ceará

Apenas na Grande Fortaleza, oito cidades registraram números expressivos de votos brancos em 2022 para o cargo de deputado federal. As legendas eleitas mais votadas nesses locais foram PL, PDT, PSD, MDB e União.

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Já nos municípios do levantamento localizados no interior do Ceará, a sigla do PT e do Progressistas (PP) também entram na lista, junto das demais enumeradas anteriormente.

Em 11 cidades, o pódio com maioria de votos brancos contém ao menos um candidato não eleito ao cargo dentre os mais votados pelo eleitorado. Os três políticos mais bem colocados em Ipu, por exemplo, não conseguiram quórum suficiente para se eleger.

Além da Grande Fortaleza, os municípios apurados no levantamento fazem parte das regiões da Serra da Ibiapaba, dos Sertões de Crateús e de Sobral, do Vale do Jaguaribe, do Maciço de Baturité, do Centro Sul e dos Litorais Norte e Leste do estado.

Veja lista das 25 cidades do Ceará com voto branco no ‘Top 3’:

  • Aquiraz: 2.766 votos;
  • Baturité: 1.111 votos;
  • Beberibe: 1.884 votos;
  • Camocim: 2.407 votos;
  • Cascavel: 3.495 votos;
  • Caucaia: 11.711 votos;
  • Chaval: 461 votos;
  • Croatá: 472 votos;
  • Eusébio: 2.407 votos;
  • Granja: 2.230 votos;
  • Graça: 507 votos;
  • Groaíras: 715 votos;
  • Guaraciaba do Norte: 1.540 votos;
  • Iguatu: 2.935 votos;
  • Ipu: 1.841 votos;
  • Itaitinga: 1.503 votos;
  • Limoeiro do Norte: 1.978 votos;
  • Maracanaú: 10.067 votos;
  • Pacajus: 2.923 votos;
  • Paracuru: 1.517 votos;
  • Massapê: 1.767 votos;
  • Mulungu: 353 votos;
  • Novo Oriente: 908 votos;
  • Redenção: 965 votos;
  • São João do Jaguaribe: 252 votos.

Brancos e nulos como abstenção

Além dos votos brancos, municípios como Caucaia e Pacajus também tiveram destaques entre os nulos, computados quando o eleitor seleciona um número diferente dos que estão concorrendo na disputa. Essa opção foi quase tão optada quanto o “Branco” nessas cidades.

Apesar de serem maneiras diferentes de exercer o sufrágio, ambas as categorias têm o mesmo efeito prático de se abster da escolha de um candidato ou legenda partidária, sendo o que a socióloga e cientista política Paula Vieira classifica como “votos de protesto”, para representar uma “abstenção eleitoral”.

Quando esse sufrágio é realizado de maneira consciente, conforme explica a especialista ao PontoPoder, pode significar uma espécie de rejeição ao cenário e às opções políticas presentes na disputa do pleito.

Esse voto de rejeição passa pela perspectiva antissistema, de ser tudo contra o que está aí. [Por exemplo], “nenhum candidato me representa, porque são todos corruptos, a política é corrupta, não gosto de política”. Então, todas essas ideias que vêm da população acabam repercutindo nos votos.
Paula Vieira
Socióloga e cientista política

Mesmo se tratando de um estilo de pleito onde é possível optar pelo voto apenas na legenda partidária, a socióloga pontua haver um tipo específico de eleitor para essa escolha.

Em geral, esse eleitorado precisa conhecer os partidos políticos e saber as bandeiras por eles defendidas. Entretanto, as siglas não costumam ter “uma boa aceitação da população”, dificultando o conhecimento mais aprofundado e que se transformaria em um voto de legenda.

Invisibilidade legislativa e força do Executivo

Diferente de cargos majoritários para o Executivo, como governador e presidente, as funções do Legislativo não costumam ser tão compreendidas pelo eleitorado, conforme aponta Paula. É uma vertente “menos visível e menos estampada” para a população.

Em geral, a especialista explica haver uma dificuldade por parte do eleitorado de sequer entender as atribuições dos parlamentares. A consequência atinge, especialmente, os deputados federais, pois, estando localizados em Brasília, eles ficam “distante de suas bases” eleitorais.

O contexto, somado ao alto quantitativo de siglas participando da disputa, também é um dos responsáveis pelo voto em branco, conforme explica o diretor do Instituto Opnus:

Em um cenário com muitos partidos, em geral com pouca ou nenhuma identidade nítida, e muitos candidatos disputando a atenção, recai sobre o próprio eleitor o trabalho de se informar e escolher. Nesse cenário, o voto em branco pode surgir como uma saída mais simples.
Pedro Barbosa
Cientista político e diretor do Instituto Opnus

Ao contrário do Legislativo, as votações para o Poder Executivo passam a ter uma compreensão mais abrangente pelos brasileiros, que pode ser vinculada ao maior destaque dado aos candidatos no período de campanha eleitoral. Como resultado, Paula entende que a disputa desses cargos pode influenciar no resultado das vagas federais.

“O Executivo, inclusive, vai puxar votos para o Legislativo, porque os candidatos ao Legislativo se vinculam a um candidato do Executivo. Por isso que nós vemos o PT e o PP, por exemplo, tendo, em algumas localidades, maior destaque. Por quê? Porque está vinculado à disputa do Executivo", ilustra a especialista.

Disputa pelo Centrão

Para 2026, o percentual de abstenções nas urnas para as vagas federais deve variar conforme o “calor da eleição", na perspectiva de Pedro Barbosa. O cientista político explica que a capacidade do pleito de “atrair atenção, engajar e mobilizar” o eleitorado será um dos fatores para a variação dos votos brancos e nulos.

Já Paula enxerga que o comportamento político dos brasileiros está “tendendo à escolha de candidatos de centro direita e direita”, resultando em uma disputa das legendas pelos votos de quem evita extremidades partidárias.

“Esse pessoal de centro acaba querendo fugir dos extremos. E os extremos - Bolsonaro, Lula, PT, PL - precisam disputar, porque eles têm garantido esses votos mais fiéis. É necessário disputar o centro para poder ganhar”, entende a socióloga.

Segundo ela, como as campanhas para o Legislativo estarão vinculadas a esses extremos em disputa no Executivo, eles também devem precisar conquistar os eleitores do centro, “que são os que, normalmente, no caso de insatisfação, vão acabar optando pelo branco ou pelo nulo”, para se elegerem.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Wagner Mendes.

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