Médicos que denunciaram Prevent Senior falam sobre pressão para alta precoce de pacientes

Três autores de um dossiê contra a empresa concederam entrevista exclusiva ao Fantástico, da TV Globo

Médicos em entrevista
Legenda: Médicos relataram rotinas de pressão e medos
Foto: Reprodução / TV Globo

Três médicos autores de um dossiê contra a Prevent Senior decidiram ir a público para relatar as irregularidades, pressões e assédios praticados pela operadora de saúde. Andressa Joppert, George Joppert e Walter Correa concederam entrevista exclusiva ao Fantástico, da TV Globo. O programa foi ao ar neste domingo (3).

Dentre as irregularidades atribuídas ao plano de saúde, eles relataram a pressão pela liberação antecipada dos pacientes para reduzir os custos da empresa. Conforme  Andressa Joppert, que trabalhou na empresa de 2015 até agosto de 2020, os médicos recebiam uma meta para despachar 60 pacientes em 12 horas, totalizando 12 minutos cada atendimento.  

“Infelizmente eles têm essa política, mas felizmente a gente tem essa parte da ética. E a gente sempre tentou fazer conforme a ética. Eu, várias vezes, levei bronca lá por não cumprir a meta”, disse. 

Walter Correa também comentou a situação.

“Importa é o fluxo, importa é o número, não importa o paciente. Vejo a Prevent como especialista em números e não importam as pessoas”, observou.

Ao todo, 12 profissionais ajudaram na elaboração do documento. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid já ouviu a advogada que representa o grupo, Bruna Morato, no último dia 28 de setembro. Mas, até o momento, os médicos ainda não haviam se pronunciado publicamente por medo. 

Questionados pela reportagem sobre a decisão de mostrar os rostos agora, George Joppert afirmou que estão "fazendo a coisa certa". 

"Nós não somos criminosos. Acho que o bem social tem que prevalecer acima de qualquer outra definição, ou de dinheiro ou de lucro”, afirmou. 

Andressa completou que “é preciso mudança”. "As pessoas, elas precisam de um cuidado melhor. (...) É uma pandemia, algo que a gente nunca enfrentou, mas precisa ser com ética. Então, estamos aqui, mostrando que a gente precisa fazer alguma coisa, porque isso não pode mais acontecer”, avaliou. 

Walter Correa apontou que a empresa “estava vendendo uma coisa que não funcionava e que, literalmente, estava enganando as pessoas, colocando-as em risco”.

“Se não houver uma atitude muito energética das autoridades com a Prevent, eles vão continuar fazendo isso e vão sair ilesos de toda essa história”, destacou.

Demitidos entre agosto de 2020 e fevereiro deste ano, eles acreditam ter saído por não obedecerem às práticas irregulares adotadas pela Prevent. 

Estudo manipulado para defender a cloroquina

Os médicos revelaram que um estudo da operadora foi manipulado para defender o uso da cloroquina — medicamento comprovadamente ineficaz no tratamento contra a Covid-19. Na Comissão, o diretor da Prevent, Pedro Benedito Batista Júnior, acusou os profissionais de “invadir o sistema” para “adulteração”. Os médicos negaram.

“Eles nos chamaram para revisar os dados depois até que o estudo já estava escrito. Tanto que o nosso nome não está no estudo”, relatou George Joppert.  “A forma vil, a forma de chamar a gente de criminoso. Nós não somos criminosos, nós não invadimos nada”, completou.

“Vieram da parte deles, compartilhar a tabela. Eu não sei porque que eles ficam acusando a gente de ter feito isso de forma criminosa, porque nós não fizemos isso”, enfatizou o médico.  

Médicos eram obrigados a indicar "Kit Covid"

Conforme relatos, havia, ainda, pressões para a prescrição de remédios comprovadamente ineficazes contra a Covid-19. Os médicos eram monitorados para saber se estavam indicando a medicação e viviam sob ameaças de demissões. 

A médica Andressa contou que se negou a hidroxicloquina a uma paciente com problemas cardíacos e foi repreendida. 

“É uma contraindicação para o uso de hidroxicloroquina. Até no próprio protocolo da Prevent é uma contraindicação. Então, mesmo com aquela contraindicação, eu fui orientada. Teria que prescrever, mas eu não prescrevi. E fui chamada atenção”, afirmou. 

“Eles estavam de olho em quem prescrevia ou não. Foi uma coisa que eles tinham um controle, então não havia essa autonomia”, acrescentou Walter Correa.

“Não era necessário que fosse feito uma ameaça aos médicos. O ambiente hostil já fazia isso por si só. A gente já sabia que existe uma sugestão de um protocolo, se você não segui-lo, você vai sofrer sanções. O máximo que acontecia era alguém prescrever e orientar a não usar”, declarou. 

O que diz a Prevent Senior

Ao Fantástico, a empresa negou todas as acusações e disse jamais ter adotado protocolos para redução de custos. 

"Pelo contrário, investiu R$ 250 milhões durante a pandemia na aquisição de equipamentos, contratação de profissionais e um programa de testagem em massa que atendeu mais de 500 mil beneficiários, com milhares de vidas salvas. Os médicos da Prevent jamais negligenciam as consultas, que duram o tempo necessário", informou a nota. 

A empresa afirma que os médicos estão mentindo e forjando acusações. Segundo a Prevent, os três médicos teriam sido demitidos da empresa por condutas irregulares”, incluindo "mau atendimento a pacientes que resultaram em boletins de ocorrência".

A Prevent, no entanto, não mostrou os boletins à reportagem e disse que iria apresentá-los no momento oportuno. Os médicos afirmaram desconhecer estas informações.