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Fabiana Bolsonaro faz 'blackface' e é denunciada por ataque a mulheres trans na Alesp

Deputada se pintou de preto e mencionou Erika Hilton durante discurso no plenário.

Escrito por
Raísa Azevedo raisa.azevedo@svm.com.br
(Atualizado às 20:48)
foto da deputada estadual Fabiana Bolsonaro fazendo blackface, pintando o rosto e partes do corpo de preto durante discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Legenda: Fabiana Bolsonaro levou uma base de tom escuro para pintar a pele em plenário na Alesp.
Foto: Reprodução/Alesp.

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) fez "blackface", prática considerada racista, pintando o rosto e partes do corpo de preto durante discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), nesta quarta-feira (18).

No plenário, a bolsonarista disse que o ato de se pintar com uma cor mais escura não a torna uma mulher negra, assim como pessoas trans "não são mulheres, mesmo que se maquiem".

A atitude causou revolta e repercutiu imediatamente entre os parlamentares da Casa Legislativa, que denunciaram os ataques. O vídeo do momento também rapidamente circulou nas redes sociais e provocou críticas entre os internautas.

Entenda o caso

A deputada iniciou o discurso argumentando que é uma mulher branca e disse que se maquiar se passando por uma pessoa negra não a torna alguém que entende as causas dos negros. Ela, então, começou a pintar a pele com uma base de cor mais escura.

"Eu, sendo uma pessoa branca, vivendo tudo o que eu vivi como uma pessoa branca, agora aos 32 anos, decido me maquiar, me travestir como uma pessoa negra, me maquiando e deixando só o fora parecer. E aqui, eu pergunto: e agora? Eu virei negra? Eu senti o desprezo da sociedade por uma pessoa negra que jamais deveria existir? Eu te pergunto, você que está me assistindo, eu me pintando de negra, sinto na pele a dor que uma pessoa negra sentiu pelo racismo? Por não conseguir um trabalho, um emprego?", questionou.

Assista ao vídeo

Durante a fala no plenário, Fabiana Bolsonaro mencionou a deputada federal Érika Hilton, escolhida como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, em Brasília. Para ela, Érika "tira o espaço" de mulheres.

"Eu quero justamente mostrar que não adianta me maquiar. Não adianta eu fingir algo. Eu não sei as dores das mulheres negras. [...] Mas agora eu não sou negra. Eu estou pintado de negra por fora [...]. E aqui, agora, tirando essa maquiagem, eu digo pra vocês, como uma mulher. Eu sou uma mulher. Não adianta se travestir de mulher. Não estou ofendendo nenhum transexual. Eu estou dizendo que eu sou mulher. A mulher do ano não pode ser transexual. Isso está tirando a mulher que inventou a vacina. Alguém tirou o lugar dela para colocar uma transexual", continuou Fabiana.

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A deputada ainda disse que "transexual tem que ser respeitado, sim", mas segue com o discurso considerado transfóbico.

"Estamos vendo um aumento na história de assassinato de pessoas transexuais. Transexual tem que ser respeitado sim. Não quero que nenhum trans passe por situação de preconceito, que seja assassinato e discriminado por ser trans. Mas não quero que nenhum trans tire meu lugar", alegou.

Fabiana Bolsonaro citou a endometriose, o parto, a amamentação e a menopausa para argumentar que as transexuais não vão saber "o que é ser mulher".

"[..] Você, que é trans, tem a sua própria pauta para cuidar. Crie uma comissão para cuidar das transsexuais do país. A gente viu agora essa semana, na Comissão Federal, lá em Brasília, que uma mulher trans, Érika Hilton, foi colocada como presidente da Comissão da Mulher e isso me interessa muito. Não porque ela, uma trans, está como presidente. Mas porque uma trans está tirando o espaço de fala de uma mulher, assim como várias outras estão tirando", disse.

Denúncias

Não demorou para que outras parlamentares se manifestassem contra o discurso de Fabiana Bolsonaro. A deputada Ediane Maria, líder do Psol na Alesp, disse que fará uma representação em nome da bancada na Comissão de Ética por quebra de decoro e pedido de investigação do Ministério Público.

Já a deputada estadual Beth Sahão (PT) entrou com representação no Conselho de Ética contra Fabiana pelos crimes de racismo e transfobia.

"Ela destilou todo seu racismo e sua transfobia durante sua fala, e ambas as atitudes configuram crimes. Seja a transfobia, que já foi tipificada como crime pelo Supremo desde 2019, seja o racismo, que toda a sociedade sabe que é crime", defendeu Beth. "Naturalizar o racismo e a transfobia é um absurdo, é inaceitável”, acrescentou.

O que é 'blackface'?

O "blackface" é uma prática que consiste na pintura da pele com tinta escura. Entende-se que o ato era feito para ridicularizar pessoas negras para o entretenimento dos brancos, utilizando estereótipos negativos associados a piadas.

A prática de "blackface" pode ser considerada crime, com enquadramento na Lei 7.716, por seu caráter discriminatório, e também no Código Penal, no artigo 140, parágrafo 3º, como injúria racial, equiparada ao crime de racismo.

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