Legislativo Judiciário Executivo

Com baixo desempenho histórico do PT em Fortaleza, Elmano entra em mobilização por votos na capital

Vitória apertada de Evandro Leitão na eleição de 2024 e boa pontuação de oposição nas pesquisas pressionam governador.

Escrito por
Bruno Leite bruno.leite@svm.com.br
Foto de Elmano de Freitas.
Legenda: Governador realizou uma série de reuniões com vereadores da base de Evandro nas últimas semanas.
Foto: Thiago Gadelha.

Há um volume crescente nas redes sociais de fotos de vereadores de Fortaleza em encontros com o governador Elmano de Freitas (PT), pré-candidato à reeleição. Ao lado do prefeito Evandro Leitão (PT), ainda em começo de mandato, os petistas apostam na capilaridade eleitoral das lideranças locais em um dos maiores eleitorados do Estado. Não é uma estratégia dissociada do que cobram os resultados recentes do partido.

É um desafio da chapa governista superar o histórico de desidratação no desempenho do PT em Fortaleza, nos últimos pleitos. Elmano ficou em 2º lugar na Capital em 2022; viu o partido vencer uma disputa com aperto pela Prefeitura em 2024 e sabe que as vagas na disputa pelo Legislativo têm sido um território de candidaturas de centro e de direita. Além disso, para 2026, o partido perdeu uma das principais puxadoras de voto na Capital, a ex-prefeita e deputada federal, Luizianne Lins, recém filiada à Rede Sustentabilidade.

Aliados do Governo e analistas políticos apontam o que está em jogo nessa estratégia, em entrevista ao PontoPoder.

Aproximação articulada entre Legislativo e Executivo

Em declarações públicas das lideranças ligadas ao prefeito Evandro Leitão na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor), a série de conversas entre o governador e os parlamentares é descrita como um momento de escuta e apresentação de resultados da gestão estadual, o que inclui as entregas do Governo do Ceará na cidade. O presidente da Casa Legislativa, o vereador Leo Couto (PSB), foi um dos articuladores das reuniões, segundo políticos ouvidos pelo PontoPoder.

De acordo com o vereador Bruno Mesquita (PSD), líder do governo municipal na CMFor, os convites estão sendo feitos "para ter uma conversa de saber o que está acontecendo em cada pauta, de cada vereador, em cada região de Fortaleza". "É mais para escutar os vereadores, para que alguns conheçam melhor o governador e possam falar sobre demandas dos bairros", adicionou.

Mas a aproximação do petista com os representantes da situação é considerada nos bastidores como uma mobilização para converter os apoios de vereadores em votos para o Partido dos Trabalhadores, especialmente pelo cenário apertado de eleição de Evandro Leitão em 2024, por uma vantagem de pouco mais de 10 mil votos em relação ao seu oponente no segundo turno, o deputado federal André Fernandes (PL).

Para Elmano, o páreo também não se mostra fácil. A primeira rodada da pesquisa Quaest sobre a disputa pelo Governo do Ceará mostra Ciro Gomes (PSDB) com 41% das intenções de voto. Em seguida, aparece o atual governador, que soma 32%. Na sequência, Eduardo Girão (Novo) tem 4% e Jarir Pereira (Psol) registra 1%. Zé Batista (PSTU) não pontuou. Os dados são da pesquisa estimulada para o primeiro turno. 

Neste contexto apertado, um colégio eleitoral como o de Fortaleza, onde aproximadamente 1,8 milhão de eleitores estão aptos a votar, tem uma importância relevante no somatório necessário para dirigir o estado.

Fortalecimento necessário

O fortalecimento da aliança na Capital é considerado relevante também pelo histórico do PT nas últimas disputas. Dados acerca dos pleitos realizados desde 2012, obtidos junto à Justiça Eleitoral, mostram que o PT costuma liderar ou ser competitivo em Fortaleza para a Presidência da República e para o Governo do Estado, mas amarga resultados inexpressivos na Câmara Municipal, raramente emplacando vereadores entre os mais votados, perdendo espaço para o PL, PDT e Psol.

A vitória de Evandro no último pleito municipal também foi o fim de um jejum, já que o PT acumulava derrotas ao competir pelo Palácio do Bispo nas três ocasiões anteriores. Em 2012, Elmano perdeu para Roberto Cláudio (atualmente no União) no segundo turno. Em 2016, quando a então petista Luizianne Lins (hoje na Rede) tentou voltar à cadeira de prefeita, sequer foi ao segundo turno e amargou o terceiro lugar. E, em 2020, ela tentou novamente e repetiu o feito.

Foto de vereadores com o governador Elmano de Freitas.
Legenda: Léo Couto (PSB), Professor Enilson (Cidadania) e Bruno Mesquita (PSD) foram alguns dos vereadores recebidos pelo governador.
Foto: Reprodução/Redes sociais.

Para o Palácio do Planalto e também para o Senado Federal, não houve derrotas de filiados ao partido em Fortaleza durante o período. Já para Governo do Estado, Camilo Santana, apesar de ter sido eleito, ficou em segundo lugar na eleição de 2014 no colégio eleitoral fortalezense, perdendo para Eunício Oliveira (MDB). Elmano de Freitas, em 2022, embora vitorioso no 1° turno, ficou em segundo lugar em Fortaleza, perdendo para Capitão Wagner (União).

Ainda quando se observa as eleições gerais, no caso das proporcionais, não se percebe uma hegemonia petista. A ex-filiada Luizianne Lins sempre foi quem figurou entre os dez mais votados em Fortaleza para a Câmara dos Deputados — com quantitativos entre 130 mil e 180 mil votos. 

Enquanto isso, Elmano de Freitas (na sétima colocação em 2014 e nona em 2018), Larissa Gaspar (na sexta posição em 2022) e Guilherme Sampaio (oitavo lugar em 2022) foram os únicos que conseguiram boas posições em Fortaleza na disputa por cadeiras na Assembleia Legislativa.

Impacto da saída de Luizianne

Hoje, por estar fora da agremiação e em um partido que não integra a federação composta pelo PT, a ausência de Luizianne Lins como puxadora de votos fortalezenses representa um desafio na contagem de votos proporcionais para os antigos correligionários.

A ex-prefeita foi, em 2022, a parlamentar mais votada em Fortaleza, entre homens e mulheres, com 119 mil votos. Célio Studart (PSD), com 107.542 votos; e André Fernandes (PL), com 105.974, ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

Pela expressividade das votações conquistadas, houve em 2024 outra mobilização: para que ela participasse da campanha do então colega de partido no segundo turno das eleições. A primeira aparição dela ocorreu após 57 dias do início da corrida pela Prefeitura de Fortaleza.

O que dizem os membros do PT Fortaleza?

Esses aspectos são reconhecidos por políticos no exercício de seus mandatos filiados ao PT Fortaleza consultados pela reportagem.

A vereadora Mari Lacerda apontou que há um desafio posto para a sigla, "que é ser governo" e, com isso, "ser vitrine". Na leitura da parlamentar, essa condição "afeta necessariamente a votação dos vereadores". Outro aspecto levantado por ela foi o que chamou de "voto antissistêmico", uma tendência recente vista nos últimos pleitos.  

"Torço para que a chapa ao Palácio da Abolição possa caminhar muito próxima da candidatura de Luizianne ao Senado", falou, justificando que a candidatura da ex-prefeita "potencializa o PT" na eleição pelo Executivo. 

Acerca da estratégia para compensar a desfiliação da ex-prefeita no somatório de votos de Fortaleza para a chapa proporcional, Mari revelou que "isso está sendo montado das regiões do interior para cá" e o diretório ainda não havia definido a situação na Capital.

O vereador Aglaylson, por sua vez, atribuiu o insucesso do PT em alcançar os primeiros lugares nas eleições proporcionais em Fortaleza ao cenário de "polarização" visto, segundo ele, "em grandes centros urbanos". "Mas o PT, se você pegar o histórico do partido e as últimas duas eleições para vereador, ele cresceu", disse, mencionando o tamanho da bancada.

Perguntado sobre a estratégia do governador em convidar os parlamentares da CMFor, Aglaylson frisou que "fazem parte do mesmo projeto". "Há um alinhamento entre os governos federal, estadual e municipal. É natural que os vereadores que compõem a base do governo do PT sejam procurados para conversar", acrescentou, reforçando que as reuniões não tiveram teor eleitoral.

Veja também

O deputado estadual Guilherme Sampaio entende como natural a pulverização de votos entre candidatos do PT ao Legislativo municipal e o não aparecimento de petistas nas primeiras colocações entre os mais votados. 

Apesar da perda de Luizianne para a Rede, Sampaio afirma que houve reforço da chapa petista e espera uma ampliação do desempenho na capital. Além disso, ele destacou não ter "dúvidas de que o prefeito Evandro será um grande puxador de votos em Fortaleza, ao lado de Camilo e Lula, em apoio à reeleição de Elmano". 

O também deputado estadual Acrísio Sena alega que, com a administração de Evandro Leitão, há "a expectativa de que o partido deva, novamente, conquistar uma grande vitória nas urnas". Ainda acerca dos resultados, ele discorda dos dados que mostram a dificuldade do PT em lograr os primeiros lugares na Câmara Municipal desde 2012.

"Não vejo desta forma. O partido conseguiu formar excelentes quadros que chegaram à Câmara Municipal e, posteriormente, conquistaram vitórias expressivas para o Legislativo estadual e nacional. Artur Bruno, Nelson Martins e a própria Luizianne Lins são exemplos vivos desse tipo de trajetória", diz Acrísio.

O PontoPoder procurou o presidente do PT Ceará, Antônio Alves Filho, o "Conin", e também o dirigente do diretório municipal da capital, Antônio Carlos, para que pudessem se manifestar sobre o assunto. Eles não responderam à tentativa de contato até a publicação desta matéria.

Especialistas opinam

Na compreensão da professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio de Andrade, o PT costuma oferecer uma "narrativa redistributiva, uma figura de identificação nacional, uma percepção de que aquele cargo entrega política pública tangível", e que agrada boa parte do eleitorado, para cargos como o de governador e presidente. 

Porém, segundo a estudiosa, "para o cargo de vereador ou prefeito, por exemplo, a lógica muda radicalmente". "Ultimamente, o PT tem recebido nomes fortes, mas que não possuem histórico de alinhamento ideológico com o partido, o que pode gerar desconfiança para eleitores mais tradicionais. E aí o PT estruturalmente perde", salientou. No entendimento dela, isso é resultado de uma "plataforma sem capilaridade".

Segundo Dionísio, o Psol tem atraído um eleitorado "progressista urbano", conquistando um "eleitor de esquerda mais jovem, escolarizado, das áreas como Benfica, Aldeota e Meireles". "Por outro lado, o PL, em 2020 e 2022, desenvolveu uma rede de candidatos com forte identidade de nicho, a exemplo dos evangélicos, policiais militares e comunidades bolsonaristas organizadas que transferem votos de forma muito mais eficiente para o legislativo municipal", disse.

Nesta mesma linha, a socióloga e cientista política Paula Vieira, pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC), apontou que Luizianne Lins "deu uma alavancada" no PT em Fortaleza, "entrando na disputa, sendo prefeita por dois mandatos e continuando candidata".

Mas ela pontuou que isso não se reflete na Câmara Municipal porque há lideranças que "para conseguirem se eleger, elas não conseguem ser competitivas dentro de grandes legendas como o PT". Essa dificuldade, discorreu, se dá porque líderes partidários costumam ter uma maior fatia de financiamento de campanha e visibilidade junto ao candidato do Executivo.

Vieira também comentou que "existem formatos diferentes de lideranças e os variadores são mais vinculados a uma base eleitoral específica". No caso de vereadores, explicou, há uma ligação com grupos religiosos — especialmente os cristãos evangélicos — e vinculação com segmentos de bairros.

Mariana Dionísio chamou atenção para outro aspecto da saída de Luizianne que vai além da votação expressiva. "A ex-prefeita, além de âncora territorial, que agregava votos justamente porque tinha presença real em vários bairros periféricos de Fortaleza, funcionava também como motor eleitoral, na medida em que suas votações para a Câmara Federal funcionavam como um colchão para toda a chapa petista", analisou.

E continuou: "O PT perdeu a militância ideológica que conquistava os eleitores mais tradicionais, os movimentos sociais aliados, as pastorais e os sindicatos". "O 'espólio político' de Luizianne (se é que pode ser herdado) teria de ser distribuído entre perfis muito distintos, e nenhum deles cobre o espectro completo que ela cobria", completou. 

Paula disse que o partido "está com outra cara" e que o impacto da saída dela, estadualmente, deve ocorrer na base mais simpática à figura de Luizianne. "Não necessariamente o PT vai sofrer um impacto na sua base eleitoral mais orgânica. Não perde tanto, porque existem outros nomes, outras lideranças que podem renovar esse quadro", comentou. 

Ao buscar compreender a articulação recente do governador Elmano de Freitas, Mariana alegou que "governadores não mobilizam vereadores de prefeituras por cortesia institucional". A operação direta na base municipal sinaliza, conforme avaliou, "a fragilidade real de Evandro na Câmara". 

Para a pesquisadora, o envolvimento do chefe do Executivo estadual tem relação com o discurso da tríade de poder (estadual, municipal e federal) que o PT opera localmente. "Quando você controla tudo, você é responsável por tudo", lembrou. De acordo com ela, Elmano "está protegendo patrimônio político coletivo". 

Já Paula argumentou que o governador "precisa dessa estratégia de puxar os vereadores", pois eles "vão garantir a base eleitoral desse ano para a reeleição no município de Fortaleza". "Ele é um distrito eleitoral importante, uma cidade que tem muitos votos", considerou, apontando a utilização de alianças recorrentes para construir uma base para além do Partido dos Trabalhadores.

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados