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Caso Gorete Pereira: esquema de fraude no INSS teve compra de jatinhos, apartamento e carros de luxo

Os investigadores apontaram a compra de itens de luxo como sinais de 'dilapidação e ocultação' do patrimônio ilícito.

Escrito por
Luana Barros e Beatriz Matos, de Brasília luana.barros@svm.com.br
(Atualizado às 13:07)
Mulher fala ao microfone em púlpito durante evento, usando blazer azul e segurando o suporte do microfone.
Legenda: Gorete Pereira teria comprado um apartamento de R$ 4 milhões e um carro de R$ 400 mil com dinheiro desviado do INSS, aponta decisão do STF.
Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.

Apartamento, carro de luxo e até uma aeronave foram comprados com dinheiro desviado de aposentados e pensionistas do INSS. As informações foram reveladas a partir da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), nesta terça-feira (17). Entre os suspeitos de integrar o esquema criminoso, está a deputada federal cearense Gorete Pereira (MDB), apontada como uma das líderes e principais articuladoras.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, autorizou o monitoramento por tornozeleira eletrônica de Gorete Pereira, além da prisão preventiva de outros dois investigados por integrar o esquema criminoso — o empresário Natjo de Lima Pinheiro e a advogada Cecília Rodrigues Mota.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da deputada, que afirmou que "a defesa já analisa o teor da decisão" e se manifestará após reconhecimento do caso. A defesa de Cecília Rodrigues Mota não foi encontrada, e o espaço segue aberto para resposta. 

Em nota, a defesa do empresário Natjo de Lima Pinheiro, disse considerar "a prisão preventiva decretada medida desnecessária e desproporcional" e que irá tentar revogar a medida. "Desde abril de 2025, o investigado já havia sido alvo de busca e apreensão e bloqueio judicial de bens, medidas que se mostraram plenamente satisfatórias. Os descontos investigados encontram-se paralisados, inexistindo risco de continuidade, e o próprio cumprimento do mandado em sua residência afasta qualquer alegação de risco de fuga", acrescentou o advogado Bruno Queiroz.

Compras de luxo

Na decisão, o ministro do STF aponta os "inúmeros indícios" da participação da deputada cearense "nos crimes perpetrados contra o INSS mediante descontos indevidos nos benefícios previdenciários" pagos pelo órgão. 

Um deles é justamente a compra, por Gorete Pereira, de um apartamento no valor de R$ 4 milhões, "em nome de uma dessas empresas de fechada" que integraria o esquema, e de um "veículo de luxo com valor superior a R$ 400 mil". 

Ainda segundo Mendonça, os dois itens foram adquiridos "com o emprego dos recursos indevidamente subtraídos de aposentados e pensionistas do INSS". 

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Gorete Pereira receberia ainda "vultosas quantias de recursos ilícitos de empresas de fachada administradas por ela e por seus familiares", entre as quais a SOP PROCESSAMENTO DE DADOS LTDA, administrada pela sobrinha de Gorete, Sofia Lilia Freitas Pereira.

O nome dela foi encontrado em planilhas e, junto a ele, "valores expressivos que lhe seriam pagos a título de propina".

Dilapidação e ocultação de patrimônio

Gorete Pereira, que é suplente e está no exercício do mandato de deputada federal, também tinha as despesas com viagens "custeadas pelos integrantes do esquema criminoso", descreve a decisão de André Mendonça. 

Ele cita relatório da Polícia Federal que indica que o escritório de advocacia Cecília Rodrigues Mota, um dos alvos de mandado de prisão nesta terça, era um dos responsáveis pelo pagamento das despesas da deputada cearense

É também de Cecília Rodrigues Mota o interesse por comprar um "jatinho", conforme mostra a transcrição de mensagens de whatsapp da investigada. Ela segue o exemplo de Natjo de Lima Pinheiro, empresário também preso de forma preventiva na operação da Polícia Federal. 

"Deixa de fazer corpo mole. Vai atrás desse negócio, bora comprar um jatinho. O Natjo já vai comprar um jato. Vambora entrar na fila?", escreve a advogada a um interlocutor.

Segundo as autoridades, Natjo comprou uma aeronave e também uma BMW X 6 — o carro foi enviado posteriormente para Cecília no mesmo dia de uma das fases da “Operação Sem Desconto”, que investigava suspeitos de desvio dos benefícios do INSS.

Ao pedir a prisão preventiva de Cecília Rodrigues Mota, Natjo de Lima Pinheiro e Gorete Pereira, a Polícia Federal cita as compras destes itens de luxo como indício de que os investigados estão "praticando amplamente a ocultação e dilapidação de bens, que podem ser utilizados para a reparação dos danos aos investigados".

Qual foco da Operação ‘Sem Desconto’

A operação “Sem Desconto” foi deflagrada em abril de 2025 pela PF e pela CGU para investigar um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões concedidos pelo INSS.

O valor dessas irregularidades foi estimado em R$ 6,3 bilhões descontados por entidades investigadas entre os anos de 2019 e 2024.

Para prosseguir com a operação, nesta segunda-feira (16), o Supremo Tribunal Federal (STF) expediu mandados judiciais, procedidos sob relatoria do ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) André Mendonça.

Ao todo, na manhã de terça feira (17), estão sendo cumpridos 19 mandados de busca e apreensão, dois mandados de prisão e outras medidas cautelares no Ceará e no Distrito Federal.

Quem são os alvos

Cecília Rodrigues Mota

Cecília é advogada cearense e ex-presidente de da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e da Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB). Ela é apontada como uma das articuladoras centrais da organização criminosa.

As autoridades atribuem à investigada os crimes de:

  • Participação em organização criminosa estruturada;
  • Estelionato previdenciário mediante descontos não autorizados;
  • Lavagem de dinheiro por meio de empresa de advocacia;
  • Falsidade ideológica.

Natjo de Lima Pinheiro

Apontado como líder e administrador financeiro da organização criminosa, Natjo é empresário e foi preso preventivamente nesta terça-feira (17) na cidade de Fortaleza, sob fundamento de:

  • Interromper a atuação da organização criminosa;
  • Evitar a destruição de provas;
  • Impedir a continuidade da lavagem de capitais e dilapidação do patrimônio.

Conforme apontado na decisão, a liberdade do empresário poderia apresentar altíssimo risco para reorganização do grupo criminoso. Além de coordenar os esquemas, a PF aponta que ele articulava inclusão massiva de beneficiários em associações sem autorização.

Maria Gorete Pereira

A deputada federal em exercício pela bancada cearense, Gorete Pereira, é apontada como uma “integrante relevante da organização criminosa”.

Conforme a decisão, a parlamentar usou da influência política para viabilizar acordos com o INSS, teve o controle de associações usadas para a expansão dos descontos e tinha interlocuções diretas com autoridades e servidores.

O relator André Mendonça indeferiu o pedido de prisão preventiva solicitado quanto à deputada, mas decretou o monitoramento com tornozeleira eletrônica. O atual mandato da parlamentar na Casa Legislativa continua ativo e em exercício.

O que dizem as defesas

Ao PontoPoder, a defesa de Natjo, representada pelo advogado Bruno Queiroz, considera a prisão preventiva “desnecessária e desproporcional” e está em busca de sua revogação.

“Os descontos investigados encontram-se paralisados, inexistindo risco de continuidade, e o próprio cumprimento do mandado em sua residência afasta qualquer alegação de risco de fuga.”, afirmou em nota.

Já o posicionamento oficial da gestão de Gorete Pereira diz que a investigada “não praticou de qualquer ato ilícito e que as informações divulgadas não refletem a realidade dos fatos”. A defesa da parlamentar, feita pelo advogado Dr. Waldir Xavier, manifestará-se “após análise detalhada do caso”.

A defesa de Cecília Mota ainda não se pronunciou. O espaço segue aberto para manifestações.

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