O 5G pode atrapalhar as operações dos aeroportos no Brasil? Entenda a discussão

Aumenta a expectativa pela chegada da tecnologia, mas ainda há dúvidas sobre os impactos na indústria da aviação

Escrito por Redação,

Negócios
Legenda: A cobertura de 5G é esperada para todas as capitais até setembro de 2022
Foto: Shutterstock

A poucos meses da chegada do 5G no Brasil, prevista para setembro, aumentam as incertezas sobre o risco de a tecnologia provocar interferências em sistemas de aeronaves e, consequentemente, prejudicar os voos nos aeroportos brasileiros. 

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A (Embraer) já iniciaram estudo para saber se há ameaça. Mas o que, na prática, pode prejudicar as operações aéreas? 

O professor de Departamento de Telemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Edson Almeida, explica que o temor da indústria da aviação surgiu após os Estados Unidos adiarem a inauguração do 5G, no início do ano, em razão das interferências. 

Ele pondera, contudo, que o Brasil possui condições distintas e que o risco de interferência é baixo.

Qual é o problema e quais os riscos no Brasil?

Segundo o professor Edson, o problema é a possível interferência dos sinais vindo do avião em razão do uso da chamada Banda C — uma faixa de frequência utilizada por satélites para a comunicação, com um espectro de frequência 3.7 GHz a 6.425 GHz. 

De forma simples, pode-se dizer que a frequência desse equipamento é próxima à do 5G, podendo causar esse temido choque. Outro ponto importante é que a Banda C mede a distância entre a aeronave e o solo. 

O professor Edson explica que a frequência do 5G no Brasil (3.300 a 3.700 MHz) é inferior à faixa dos Estados Unidos (3.700 a 3.980 MHz.). 

“Então, 3.98 é muito próximo às frequências do altímetro (o instrumento usado a bordo para medir a altitude), que é de 4.2 giga. E, por consequência, pode haver fuga de sinal, e, a partir daí, interferir nesses altímetros dos aviões”, esclarece, mostrando que a frequência dos Estados Unidos é mais próxima ao limite do 5G.

O Brasil, contudo, está mais distante.

“A possibilidade de interferência no Brasil é muito é pequena, praticamente inexiste”, observa.

Edson pondera, contudo, serem necessárias tecnologias para o acompanhamento e os cálculos para avaliar possíveis fugas. 

 

O que está sendo feito para ter certeza sobre os riscos?

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) disse que acompanha o assunto com atenção e cautela, principalmente por meio de sua Superintendência de Outorga e Recursos à Prestação (SOR), responsável por promover o uso eficiente do espectro radioelétrico no País, entre outros assuntos.  

A agência disse que mantém o cronograma de liberação da faixa de frequência de 3.5 GHz para a entrada das redes do 5G, conforme estabelecido no Edital de Licitação do 5G. 

O documento prevê a liberação da faixa condicionada à execução de medidas de proteção aos sistemas de satélite operando na banda C e à garantia da continuidade da recepção do sinal de televisão aberta e gratuita por satélite, que será migrado da banda C para a banda Ku (outra faixa de frequência para comunicação).  

Ainda assim, afirmou, até o início da ativação das estações do 5G, caso a Anatel identifique a necessidade de medidas adicionais para a proteção de equipamentos utilizados por aviões, "estas serão adotadas e divulgadas oportunamente".  

“Sobre as notícias que estão sendo veiculadas a respeito de testes sobre esse assunto envolvendo a Embraer e a Anatel, informo que a Embraer enviou ofício à Agência manifestando sua intenção de realizar ensaios em voo e em solo para verificar a susceptibilidade de suas aeronaves frente ao 5G e solicitou apoio da Anatel para a definição desses ensaios – o que será avaliado pela SOR”, disse. 

Já a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informou que está atenta às informações sobre eventuais interferências da tecnologia 5G na operação de aeronaves da aviação comercial.

 A entidade disse que já se colocou à disposição da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para contribuir com estudos e análises sobre eventuais impactos no Brasil, além de participar de consulta pública com a  Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), no próximo dia 22. 

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) disse que assunto está sendo monitorado de perto e que tem auxiliado a Anatel no trabalho de convivência entre faixas futuras do 5G e radares aeronáuticos.

"É importante mencionar que, até o momento, no Brasil, não foram identificados fenômenos que pudessem acarretar risco à segurança operacional", frisou.