Modalidade de casa compartilhada promove economia de R$ 2 mil; entenda como funciona

Opção mais econômica, fenômeno iniciou na década de 1960 com estudantes universitários

Escrito por Lívia Carvalho, livia.carvalho@svm.com.br

Negócios
Legenda: Apartamentos com melhor localização tem preços maiores
Foto: Fabiane de Paula

Dividir casa com desconhecidos não é um fenômeno recente. A modalidade é uma opção para estudantes e profissionais economizarem com o aluguel, principalmente em bairros mais caros. Em alguns casos, é possível poupar cerca de R$ 2 mil com os custos de uma casa compartilhada.  

É o caso do enfermeiro João Victor Dourado, de 25 anos, que divide casa desde os 18 anos, quando saiu da residência dos pais no município de Sobral para estudar em Fortaleza. Atualmente, ele divide um apartamento com três mulheres, no bairro Meireles, cujo aluguel custa aproximadamente R$ 3 mil.  

“Venho de família que não tem condições de me ofertar uma casa sem que eu precisasse dividir. Quando me mudei, na época da faculdade, com o custo de vida alto, tive que procurar um apartamento com quem eu pudesse dividir para conseguir arcar com as despesas", conta.  

Mesmo após formado, Dourado continuou optando pela casa compartilhada, já que consegue economizar por volta de R$ 1 a 2 mil por mês os gastos referentes ao lar e não conseguiria arcar sozinho com os custos.  

“Sou enfermeiro e faço mestrado em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará (UFC), mas atualmente nossa bolsa que o Governo nos dispõe não é suficiente para o nosso sustentar. Tive que buscar apartamentos para dividir com colegas que pudessem ser compartilhados”. 
João Victor Dourado
enfermeiro

Custo com aluguel 

Atualmente, o jovem divide apartamento com outras três pessoas também formadas, duas de Fortaleza e uma de outro estado. "Por questão do emprego e localização, decidiram morar no bairro onde moramos, que tem um custo de vida mais caro”.   

Conforme pesquisa do DataZAP+, encomendada pelo colunista Victor Ximenes, o metro quadrado no Meireles é o mais caro de Fortaleza, custando em média R$ 8.029. Em seguida, vem Mucuripe (R$ 7.741) e Guararapes (R$ 7.582).  

Dourado explica ainda que não conhecia as mulheres com quem mora e há muita rotatividade no apartamento. Para a divisão, o valor pago do aluguel é como se estivesse atribuído ao quarto que a pessoa ocupa. 

Além do aluguel, os quatro dividem entre si também a conta de energia elétrica, internet, gás de cozinha, água de beber, produtos de limpeza, sal e açúcar. “Já com relação à alimentação, cada pessoa faz sua comida, cada pessoa tem suas compras”.  

Legenda: João Victor compartilha casa com outras três mulheres
Foto: Arquivo pessoal

Bolsas não cobrem o gasto 

Situação similar é da estudante de Letras Sarah Senna, de 19 anos. Natural de São Gonçalo do Amarante, ela se juntou a uma amiga para vir estudar em Fortaleza. “Dividimos uma kitnet próxima à faculdade. Teve de ser assim para reduzir os custos”.  

"Não tenho condição de pagar um aluguel sozinha de mais de R$ 500 e na região perto da faculdade é difícil de encontrar. Tudo é dividido pela metade, até o sal, a vida universitária já é difícil, as bolsas não cobram os gastos”. 
Sarah Senna
estudante de Letras

No caso da estudante, a economia chega a R$ 500, já que somente o aluguel é R$ 520, a conta de energia elétrica fica em torno de R$ 60 e a internet por R$ 40. 

Apesar das vantagens, Senna aponta que a questão de privacidade acaba sendo um inconveniente. “A gente acaba dependendo muito do convívio um do outro, tem dia que queremos estar sozinhos, por mais que sejamos só duas e ela é minha amiga, mas é diferente conviver todo dia”, diz. 

Além da alta inflação, o valor do aluguel também tem sofrido desde o ano passado com os aumentos. Em novembro, Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), responsável pelo reajuste, acumula alta de 16,77% no ano e de 17,89% em 12 meses, conforme a Fundação Getúlio Vargas (FGV).  

Fenômeno estudantil  

O presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (Creci-CE), Tibério Benevides, explica que este fenômeno iniciou na década de 1960, quando as repúblicas estudantis se tornaram uma realidade para muitos estudantes universitários que saíam do interior para fazer faculdade nas capitais.  

Apesar do aumento de preços durante a pandemia, o presidente não acredita que a modalidade tenha se intensificado nos últimos dois anos.  

“O que acontece hoje em dia é que em várias cidades chamadas universitárias existem apartamentos pequenos, 25 a 30 m², para aluguel e para as necessidades dos estudantes é suficiente”.  
Tibério Benevides
presidente do Creci-CE

Uma pesquisa realizada pela Urbit aponta que mudanças de hábitos ou preferências de moradia, como a maior popularização do coliving (espaços de moradias compartilhadas) ou de maneiras mais flexíveis de moradia, estão relacionadas por fatores demográficos e também geracionais.  

“A tendência do coliving talvez tenha mais a ver com a busca por uma opção de moradia com menos entraves burocráticos do que aluguel tradicional e que ofereça um estilo de vida mais em linha com as expectativas atuais”, diz a pesquisa.  

De acordo com a Urbit, outro fator que pode impactar esta demanda é a escassez de moradia de boa qualidade em regiões centrais, com boa localização, nas grandes metrópoles brasileiras. 

Mudança de perspectiva 

O professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e Design, da UFC, Bruno Braga, acrescenta ainda que esse é um movimento também movido pela questão da sustentabilidade, além da viabilidade econômica.   

“A pandemia fez a gente repensar a ideia de moradia, e eu acho que um dos aspectos foi esse, que algumas coisas precisam ser isoladas, mas outras tornam essa vida um pouco menos sozinha. Quem conseguiu compartilhar algumas coisas nesse momento, teve menos problema durante a pandemia”.  
Bruno Braga
professor de Arquitetura e Urbanismo

Braga pontua também que as infraestruturas de moradia vão trazer cada vez mais espaços coletivos, promovendo uma vida em comunidade.