Gestão pública ainda precisa ser sensibilizada para o empreendedorismo feminino

Cerca de 80% das mulheres apontam o cuidado com outros afazeres como o maior desafio no empreendedorismo

Escrito por Paloma Vargas , paloma.vargas@svm.com.br
Feiras são oportunidades de renda para mulheres empreendedoras
Legenda: Feiras são oportunidades de renda para mulheres empreendedoras
Foto: Divulgação

O empreendedorismo feminino tem impacto socioeconômico relevante e não é um instrumento de transformação que beneficia só as mulheres, mas beneficia a cidade, o estado e o país na totalidade. Inclusive, segundo Raquel Andrade, secretária executiva de Mulheres do Estado, o nosso PIB poderia ser até 15% maior se houvesse investimento em equidade de gênero e, consequentemente, empreendedorismo feminino. 

Assim, ela aponta que oportunidades como essa, de participar do XII Seminário de Gestores Públicos - Prefeitos Ceará 2024, tem fundamental importância de sensibilizar e também de demonstrar, técnica e cientificamente, para os gestores públicos, que investir em políticas para as mulheres dá retorno para os municípios.

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"E esse retorno pode ser sentido em diversas áreas, dentre elas a área sócio-econômica, na qual o empreendedorismo desponta como alternativa de aquisição ou fortalecimento da renda de mulheres aqui no Ceará. Com essa intervenção gostaríamos que não só os prefeitos, mas também gestores públicos em geral, voltem um olhar mais apurado para as políticas de mulheres e os resultados que essas políticas podem oferecer".

Raquel lembra que a pandemia deixou uma grande lição porque "empurrou as mulheres ao empreendedorismo, já que elas tiveram que ficar em casa por conta da exclusividade do lugar do cuidado".

"Então, empreender, para essas mulheres que precisaram fazer um bolo, fazer artesanato, encontrar alternativas foi o mecanismo mais imediato para ter uma complementação de renda ou até mesmo ter alguma renda. Isso, por si só, já gera um impacto na capacidade contributiva daquele município".

A secretária ainda ressalta que a mulher empreendendo reverbera no investimento da família. "A mulher, quando melhora o seu rendimento, dificilmente ela vai comprar um carro novo, por exemplo. Já é cientificamente comprovado que as mulheres quando empreendem elas investem na educação dos filhos, na qualidade de vida, na estrutura da casa. Ou seja, existe ali um investimento que dá retorno para a sociedade".

Sobre o papel dos gestores neste contexto de empreendedorismo feminino, Raquel exemplifica que é importante primeiro a oferta de capacitação. "As mulheres precisam conhecer os programas de governo, em todas as esferas, que podem impulsionar a sua capacidade empreendedora, o seu potencial, e o segundo ponto é o investimento, ou seja, dar acesso a crédito, microcrédito, direcionado e com taxa diferenciada para nós, mulheres. Porque não temos a mesma capacidade de competir que os homens por conta da desigualdade histórica de gênero", reforça.

Assim como iniciativa que microcrédito, Raquel citou o Ceará Credi Mulher, que este ano destinou R$ 40 milhões apenas voltado para esse público.

Ceará tem média de mulheres empreendedoras maior do que a do Brasil

Outra participante de um painel no Seminário de Gestores Públicos, Monica Arruda, articuladora estadual da Unidade Educação Empreendedora do
Sebrae Ceará, afirma que dados do IBGE do ano passado apontam que no Brasil, as mulheres são 52% da população e desse montante, 33,9% são empreendedoras. No Ceará, essa média sobe para 35,1%, ficando acima da nacional.

Além disso, nos últimos 5 anos, 74% dos negócios abertos são de mulheres e a escolaridade média das mulheres é 17% maior do que a dos homens. "Empreender é desafiante para todos, mas a questão da mulher tem as barreiras invisíveis, sociais e culturais. Quando a mulher empreende ela gera renda para a família, muitas vezes começa por necessidade. Essa realidade precisa ser modificada, levando a mulher a empreender por oportunidade".

Monica também comenta dados trazidos por pesquisas do Sebrae em que realidades de jornadas múltiplas, economia do cuidado, crenças e medo do fracasso (autoestima), impactam no empreender feminino. Mulheres ultrapassam 3 horas diárias com atividades de cuidado, contra 1,6 horas dos homens. Nos afazeres domésticos, as mulheres se dedicam, em média, 2,9 horas, enquanto os homens apresentam uma hora e meia. 

"Por isso, 80% das mulheres empreendedoras apontam o cuidado com outros afazeres como o maior desafio no empreendedorismo", reforça a especialista do Sebrae.

Programas do Sebrae voltados para o tema

Ela reforça que, atualmente, a entidade possui 11 escritórios regionais, atendendo praticamente todos os municípios do estado. No Sebrae Delas, programa voltado exclusivamente para a aceleração de negócios de mulheres, há três trilhas de capacitação: Quero Empreender (22 turmas), Sou Empreendedora (30 turmas) e Efeito Furacão (aceleradora que atende 240 negócios nesse ano).

Além disso, voltado para mulheres que moram na área litorânea, o Mulheres no Litoral está trabalhando com esse público nos municípios de Bela Cruz, Acaraú, Itarema, Amontada, Itapipoca, Trairi e Paraipaba, com o objetivo específico de formação de lideranças, atingindo 210 mulheres empreendedoras.

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