Maturidade Digital: o que ninguém está te contando (mas que está afundando sua empresa)

A maturidade digital envolve a realização de diversos processos e não somente a adoção de novas tecnologias

Escrito por
Arenusa Goulart producaodiario@svm.com.br
Legenda: Transformação Digital? Ou só uma nova camada de tinta?
Foto: Divulgação

Em 2018, um CEO de uma empresa do setor financeiro estava convencido de que sua transformação digital era um caso de sucesso. Achava que havia garantido seu lugar no futuro, quando na verdade apenas adicionou mais tecnologia a processos obsoletos. A empresa havia investido em um CRM robusto, dashboards interativos e um novo site de e-commerce. O mercado reconhecia a empresa como inovadora e a equipe executiva se sentia confiante.  

Cinco anos depois, os concorrentes que realmente adotaram a maturidade digital cresceram exponencialmente. O CRM tornou-se apenas um repositório de dados subutilizado, os dashboards geravam relatórios que ninguém interpretava corretamente, e o e-commerce nunca deslanchou. Enquanto isso, empresas menores e mais ágeis estavam conquistando fatias significativas do mercado, como motocicletas ultrapassando caminhões pesados numa estrada sinuosa; leves, rápidas e sem o peso da burocracia para atrasá-las.  

A distância entre as empresas líderes no uso de tecnologias digitais e de IA e os outros players do respectivo setor é grande e está aumentando. Nos últimos três anos, a margem de diferença entre as líderes e as retardatárias com relação à maturidade digital e em IA aumentou 60% (McKinsey). A prova disso é a constatação de que, mesmo em setores altamente digitalizados, a maturidade digital pode variar significativamente de forma a impactar os resultados das empresas. Líderes em maturidade digital no mundo apresentam desempenho superior, com taxa de crescimento de EBITA até cinco vezes maior em comparação às demais empresas (McKinsey).  

A discussão já não gira em torno da necessidade da transformação digital. O que está em jogo é a velocidade com que a empresa será capaz de adaptar sua estratégia para permanecer competitiva. As fintechs não dominaram o mercado apenas porque tinham bons apps. Elas entenderam que a transformação digital não é sobre tecnologia, mas sobre redefinir processos para criar novas experiências. Enquanto bancos tradicionais discutiam como 'adotar inovação', os novos entrantes já haviam reinventado o jogo. 

O que de fato é maturidade digital?  

A implementação de tecnologia não garante transformação. Acreditar que a maturidade digital se resume à adoção de novos softwares é o equivalente a trocar um controle remoto sem pilhas por um modelo mais moderno: o problema continua lá. Muitas empresas acreditam que comprar um software ou assinar uma plataforma resolverá seus desafios, quando, na verdade, estão apenas modernizando sua ineficiência.  

Andrew S. Grove, ex-CEO da Intel, descreve essa realidade em High Output Management:  

“A tecnologia por si só não garante sucesso. O diferencial real está na forma como as organizações a implementam, integram e utilizam para tomar decisões melhores.” 

Digitalizar processos e integrar sistemas não muda a forma como a empresa opera se a estrutura de decisão e a cultura organizacional permanecerem as mesmas.  

  • Digitalizar significa converter processos analógicos para um formato digital;  
  • Transformar digitalmente envolve uma mudança estrutural na forma como a empresa conduz seus negócios, orienta suas estratégias e toma decisões com base em dados.

Se a tecnologia foi adotada sem revisão de processos ou mudanças na cultura decisória, o resultado é apenas a digitalização de ineficiências. É como colocar um motor de Fórmula 1 em uma carroça e depois culpar a carroça por não atingir 300 km/h. Empresas continuam tratando a transformação digital como um espetáculo. Instalam dashboards brilhantes, contratam especialistas, mas, no fim, continuam operando com as mesmas decisões de sempre. Jogar tecnologia em um problema sem estratégia é como instalar câmeras de segurança em um cofre vazio. Impressiona, mas não protege nada.  

E pior: em vez de assumir a responsabilidade, o financeiro joga o problema para o time de tecnologia, que joga para o marketing, que espera que "alguém resolva".  

A maturidade digital não pode ser terceirizada. Departamentos que tentam delegar processos digitais para outras áreas, em vez de liderar essa mudança dentro de sua própria expertise, estão tão ultrapassados quanto enciclopédias vendidas de porta em porta. O mercado não premia quem apenas digitaliza. Ele premia quem transforma dados em decisões e decisões em resultados. E esse processo não acontece isoladamente em uma área, mas em todos os setores da empresa

So What?  

Maturidade digital não se resume a implementar ferramentas ou acumular dados. O verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de transformar essas informações em estratégia real.  

  • Se a tecnologia não altera a estrutura de decisão, sua adoção é irrelevante.  
     
  • Se os dados não geram novos diagnósticos, a empresa apenas replica padrões já existentes.  
     
  • Se a digitalização não resulta em mudanças concretas, trata-se apenas de um custo adicional sem impacto estratégico.  

Empresas competitivas não terceirizam maturidade digital. Se cada área não assume sua responsabilidade dentro da própria expertise, o resultado será sempre um projeto inacabado. A transformação digital não é um projeto de TI, é uma mudança estrutural que exige comprometimento de todas as áreas. Enquanto alguns ainda debatem dashboards e CRMs, outros já estão redefinindo as regras do mercado. Quem ainda não entendeu seu papel real nesse processo provavelmente já ficou para trás

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