Brechós de luxo ganham fôlego na crise e vendem peças até 90% mais baratas

Modelo de negócio é uma alternativa para economizar; veja quando, onde e como comprar, além dos cuidados a serem tomados

Escrito por Bruna Damasceno,

Negócios
Cliente olha roupas em brechó
Legenda: Em alguns casos, a economia pode chegar a 90%
Foto: Kid JR / SVM

Os brechós especializados são uma alternativa para consumidores que não abrem mão de peças grifadas ou únicas, mas buscam economizar nessas aquisições. Nesses locais, joias, roupas, bolsas e sapatos usados de marcas internacionais e nacionais custam, pelo menos, a metade do preço.

Entretanto, a redução comparada ao valor do produto novo varia conforme a etiqueta, coleção e o estado de conservação, podendo chegar a 90%.

Em Fortaleza, o modelo de negócio começa a se consolidar em consequência das mudanças de comportamento de consumo e da crise econômica.

Esses brechós de luxo foram ganhando cara de butiques e a internet também ajudou a alavancar as vendas, facilitando o ‘garimpo’ pelas redes sociais.

Um exemplo deles é o "Démodé", criado há dois anos, no início da pandemia de Covid-19, em formato de e-commerce. Um ano depois, abriu uma loja física, na Aldeota, bairro nobre da Capital. 

Brechós
Legenda: Na loja da marca, a peça custava R$ 800. De segunda mão, R$ 269
Foto: Reprodução

A cabeça por trás do empreendimento é a socióloga Selma Peres, de 47 anos.

Frequentadora de brechós da Europa, São Paulo e do Rio de Janeiro, ela decidiu reavaliar o seu guarda-roupa e o da filha para vender as peças em desuso e testar o modelo. 

Foto da dona do brechó
Legenda: O brechó Démodé tem curadoria de Selma Peres, de 47 anos. Na loja, é possível encontrar as marcas: Animale, Bobô, BobStore, LelisBlanc, Amissima, Adriana Degreas, Victor Dzenk, Ellus, Diesel, Ralph Lauren, Prada, Chanel, LuisVuitton , Schütz, Gucci, Armani, Valentino, Botega Venetta, Missoni, Givenchy, Sacada, Farm, Morena Rosa, além das locais Lenita Negrão, Kronne, Sil de Deus, Aná, entre outras
Foto: Kid Jr / SVM

Bastou uma conta no Instagram para o "Démodé" fazer sucesso. Atualmente, mais de 13 mil pessoas seguem a conta.

Para Selma, o resultado está relacionado à demanda crescente por sustentabilidade ambiental e, sobretudo, financeira. 

Bota
Legenda: Por mais de R$ 1 mil na loja de origem, bota custa R$ 999 em brechó
Foto: Reprodução

“O desapego de luxo é mais ou menos como a avaliação de um carro de segunda mão. Quem comprou primeiro, já pagou pela primeira desvalorização. Então, quem compra em brechó sempre sai lucrando”, exemplifica. 

Negócio em casa

Já a empreendedora Thayssa Sanches, de 54 anos, já está nesse mercado há mais de 20 anos, com o “Brechó Outra vez”, um dos mais antigos de Fortaleza. A ideia surgiu quando ela ainda era vendedora em uma loja de marca. 

Dona do brechó mostra roupa
Legenda: No brechó Outra Vez, os descontos variam de 50 a 70% do preço da loja. A curadoria, feita por Thayssa Sanches, inclui peças da Animale, Le lis Blanc, Bobô, Bob Store. Dentre as grifes de luxo, estão Prada, Miu Miu, Gucci , Louis Vuitton, Furla, Burberry. Jás as marcas cearenses encontradas no brechó são: Lenita Negrão, Hand to Lace, Interni e Zoe, entre outras
Foto: Kid Jr / SVM

Com apenas uma proposta, além da vivência com o público-alvo e da carteira de clientes já robusta, Sanches improvisou a venda de itens de segunda mão na sala de casa mesmo.

Empurrou o sofá e acomodou as roupas por ali.Deu tão certo que a residência da família logo se transformou em loja fixa, localizada no bairro Papicu. 

Vestido
Legenda: De R$ 1319, vestido é vendido por R$ 699 em brechó
Foto: Reprodução

“Os clientes procuram exatamente essas peças muito caras com o custo bem mais baixo. A moda no Brasil é absurdamente cara, né?”, comenta. Quando o negócio foi para as redes sociais, as vendas do "Outra vez" dispararam e se expandiram para outros estados.

“Iniciei a loja física em 2001. Na época, era no ‘boca a boca’ e no telemarketing”, lembra. No Instagram, o brechó tem mais de 22 mil seguidores. 

ex
Legenda: Óculos Oliver Peoples. Preço loja: 2249,00. Preço do brechó: R$ 699,99
Foto: Reprodução

Consumo consciente e a crise econômica impulsionam setor

O professor do curso de Administração e coordenador do Laboratório de Gestão e Inovação (Lapig) da Universidade de Fortaleza (Unifor), Bruno Lessa, explica que, nos Estados Unidos, na Europa e em regiões da Ásia, os brechós de luxo já são uma realidade há alguns anos.

No Ceará, o movimento ganha fôlego e tende a crescer de acordo com o mercado nacional. 

O Brasil, até recentemente, assim como a China e a Índia, seguia uma tendência de desenvolvimento em que uma parte significativa da população teve acesso a possibilidades de consumo inéditas, algo típico de países emergentes, com novas classes médias”. 
Bruno Lessa
Professor do curso de Administração e coordenador do Laboratório de Gestão e Inovação (Lapig) da Universidade de Fortaleza (Unifor)

“Ou seja, pessoas que passaram a acessar — mesmo que tardiamente —  mercados inacessíveis anteriormente por boa parte dessas populações”, avalia.

Essa ascensão social em massa, observa, acabou elaborando fenômenos como aumento do consumo do ‘fast-fashion’ (produção industrial de roupas a custos mais baixos, por exemplo, as grandes magazines) por uma parcela da sociedade. Por outro lado, houve o aumento da procura dos brechós de luxo tanto no Brasil quanto no Ceará. 

“O crescimento do setor ocorre tanto porque há consumidores empenhados em comprar roupas de marcas 'premium' porque elas sinalizam um status global, quanto aqueles que, ao mesmo tempo em que desejam consumir esses símbolos, também almejam contribuir com questões contemporâneas importantes, como a sustentabilidade socioambiental, a durabilidade dos produtos e o propósito por trás de determinadas marcas de luxo”, enumera. 

Além disso, aponta, a crise econômica agravada pela pandemia de Covid-19 reduziu o poder de compra das famílias de variadas faixas de rendimentos. 

Isso foi uma oportunidade para o setor. Porque um número ainda maior de pessoas passou a só poder acessar essas marcas por meio dos brechós. Logo, esse achatamento generalizado das rendas também é um fator para esse crescimento patente do segmento". 
Bruno Lessa
Professor do curso de Administração e coordenador do Laboratório de Gestão e Inovação (Lapig) da Universidade de Fortaleza (Unifor)

Como os artigos vendidos em brechó de luxo são econtrados?

A gestão do empreendimento faz a curadoria de peças de um grupo de consignantes formado, geralmente, por pessoas de alto poder aquisitivo. Esse perfil de fornecedores consome muitos artigos de luxo, mas deixa de utilizá-los após poucas utilizações — seja por não caber mais ou por não fazer mais sentido para a autoimagem estética.

Em alguns casos, contudo, são consumistas e depois arrependem-se da compra. Por esse motivo, algumas roupas vendidas em brechós de luxo nunca foram usadas e ainda estão com etiquetas.

O produto é avaliado nos seguintes aspectos para definição do preço: estado para avaliar se há descosturas, furos, pesquisa da coleção e a certificação da autenticidade.

Nas empresas citados nesta reportagem, peças com avarias não são vendidas, mas estabelecimentos com outras propostas fazem a customização. 

Depois dessa triagem, os itens passam pelos processos de higienização e de lavagem. No caso das roupas, são passadas para enfim serem expostas.  

Quais as vantagens de comprar em brechós:

  • Sustentabilidade: comprando produtos já em circulação evita-se a produção de novos, economizando energia para a fabricação e desviando a rota para não serem enviados a aterros sanitários;
  • Valorização dos pequenos negócios, incentivando a economia local;
  • Valor afetivo: as peças usadas contam histórias de uma época, revisitam tendência, além da possibilidade de serem únicas;
  • Economia: com o custo até 90% mais barato, algumas marcas passam a ser acessíveis para quem nunca imaginou conseguir consumir determinado produto. 

Há desvantagens?

As peças que circulam em brechós vêm da indústria tradicional, que, apesar dos avanços, ainda definem e seguem padronizações corporais. Portanto, pessoas com obesidade podem enfrentar dificuldades para encontrar roupas do seu tamanho.

O custo baixo, que é uma vantagem, claro, também pode ser tentador para se consumir mais sem perceber. Somado a isso, a expectativa pela chegada de novas mercadorias e o temor de perder aquele 'garimpo' pode motivar o consumo desenfreado. 

Bruno Lessa, pondera que, mesmo que isso ocorra, essa forma de comprar ainda é mais sustentável para o planeta comparada ao 'fast-fashion' tradicional.

“As sugestões para quem compra em brechós seriam similares a que daríamos para as compras tradicionais. Ou seja, comprar quando tem certeza de que a peça é realmente necessária para compor um visual ou que, de fato, será difícil de encontrar depois”, orienta. 

Por que alguns consumidores ainda fazem questão de roupas de marcas?

Lessa avalia que as questões relativas à posição social ocupada ou para obter notabilidade para o resto da sociedade ainda influenciam os padrões de consumo na contemporaneidade.

“Ou seja, as pessoas continuam comprando roupas pensando em projetar um status que possuem ou não. O que mudou, todavia, são alguns posicionamentos ideológicos que são também contemporâneos”, diz, citando a sustentabilidade ambiental e social, além da durabilidade do produto e propósito.

“Seguindo a lógica desse exemplo, vemos, sistematicamente determinadas marcas tendo suas reputações abaladas porque recaíram sobre alguma prática imoral e socialmente reprovável atualmente, como o racismo ou a utilização de trabalho infantil e/ou escravo em suas cadeias”, destaca. 

Lessa acrescenta que outro fator por trás dessa busca por artigos de grifes é a globalização dos mercados e padrões intensificados desde o surgimento à expansão das redes sociais.

Além disso, afirma, “essas marcas têm equipes focadas em oferecer conteúdos para influenciarem o público, o cativando por meio de linguagens em ações que levam os consumidores a aspirar pelas experiências e pela posição que usar aquela marca proporcionaria”.

Onde tem brechó de luxo em Fortaleza?

Diariamente, os brechós de luxo atualizam as peças à venda nas redes sociais. Veja algumas contas para seguir:

Além dos brechós de luxo, Fortaleza tem diversas opções para quem gosta de artigos vintage, de linho, alfaiataria e outros. Veja algumas:

Como é a experiência de comprar em brechós?

Espaço
Legenda: Os brechós foram ganhando cara de butiques, possuindo a mesma estética e esquema de organização, como é possível verificar no espaço do "Outra Vez"
Foto: Kid Jr / SVM

Apesar dos avanços, por questões culturais, a decisão de comprar roupa usada ainda é cercada de preconceitos. Dentre eles, achar que os produtos estão desgastados, sujos e que os brechós são ambientes desagradavéis. Receios que, aos poucos, vão sendo descontruídos. 

Foi assim para a educadora física Karine Farias, de 50 anos. "Já tive muito temor em relação à qualidade do produto, à conservação das peças e até mesmo à procedência delas, assim como a relação da empresa com o cliente", relata.

Apesar disso, ela decidiu comprar em brechós pela questão da sustenabilidade e, em segundo lugar, pela economia. Depois da primeira experiência, no Brechó Démodé, não parou mais. 

Foto de uma penteadeira no brechó
Legenda: Atualmente, os brechós são aconchegantes, têm identidade criativa e são espaços acolhedores para uma experiência de garimpar peças de acordo com diversos estilos, como mostra esse espaço no Démodé
Foto: Kid JR / SVM

"O que antes eram lojas sem muito atrativos, passou a ser um espaço de conceito. Então, passei a comprar mais em brechós e posso dizer que 90% de minhas compras são feitas nessas lojas", destaca. 

Já a professora de ginástica Regina Câmara, de 60 anos, compra somente em brechós há mais de 20 anos. Para ela, o custo é fundamental, além da consciência de reduzir o consumo. “Atualmente, entrar numa loja normal é ter a sensação de que está sendo assaltada. Nunca mais comprei nessas convencionais", brinca.

Personagem
Legenda: A professora de ginástica Regina Câmara, de 60 anos, compra apenas em brechós há 20 anos
Foto: Kid Jr / SVM

"Eu não busco especificamente por roupas de marcas, procuro o que combina com o meu estilo e o que eu esteja precisando, mas uma vantagem dos brechós é poder comprar uma roupa especial de uma marca que você sonhava”, exemplifica.