No mês da Consciência Negra, curso gratuito oferece formação em relações étnico-raciais

Promovida pela Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos - SPS, iniciativa acontece pelo YouTube até o dia 19 de novembro

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 13:24)
Legenda: Iniciativa da SPS, curso pretende descortinar conceitos e trabalhos pertinentes sobre um assunto ainda tão silenciado
Foto: Helene Santos

Novembro não se restringe à cor azul: também detém o tom das ancestralidades. Não à toa, para além da campanha incentivadora de olhares sobre a saúde masculina, há outra, igualmente importante e detentora de múltiplos fôlegos. Trata-se do Novembro Negro.

A efeméride foi criada em alusão ao Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 deste mês. Em todo o Brasil, diversas atividades estão sendo programadas de modo a festejar o momento, promovendo iniciativas e projetos que procurem refletir e debater sobre pautas importantes referentes à temática.

No Ceará, a Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) promove o curso “Relações Étnico Raciais na Sociedade Brasileira e Cearense”. Realizada gratuitamente pela Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial (Ceppir) da SPS, a ação pretende descortinar conceitos e trabalhos pertinentes sobre um assunto ainda tão silenciado.

Com uma programação inteiramente virtual, devido à pandemia de Covid-19, o evento tem encontros acontecendo até o dia 19 de novembro, sempre às terças e quintas, das 14h às 17h. As transmissões ao vivo acontecem pelo canal da SPS Ceará no YouTube. Para se inscrever, basta acessar este link. A participação garante um certificado ao término.

Coordenadora especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial da SPS, Zelma Madeira explica que o curso tem como tema o aniversário de 10 anos do Estatuto da Igualdade Racial. A lei foi promulgada em 2010 pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, dispondo de um conjunto de regras e princípios jurídicos que visam coibir a discriminação racial.

Além disso, procura estabelecer políticas para diminuir a desigualdade social existente entre os diferentes grupos raciais. Segundo Zelma – que conduziu a aula de abertura do curso, ao lado de Socorro França, titular da SPS, e do professor doutor em Direito pela PUC/RJ, Ilzver Matos – os matizes referentes ao estatuto servirão, durante os dias formativos, para estabelecer um balanço dos avanços e desafios no que concerne às políticas de afirmação das diferentes raças e etnias presentes no Ceará.

“A ideia é que a formação seja voltada tanto para servidores públicos quanto para a sociedade em geral. Nossa perspectiva é fazer uma discussão sobre identidade racial contando com a fala de acadêmicos, pesquisadores e técnicos, bem como de ativistas e lideranças, uma vez que estas possuem a sabedoria para falar sobre as vulnerabilidades porque passam esses povos, as resistências, o modo de viver, de existir”, explica.

Entre as várias representações de povos de terreiro, indígenas e comunidades tradicionais que conduzirão os debates, estão Ceiça Pitaguary, João do Cumbe, Marciane Tapeba, Ogan Leno Farias, Ezequiel Tremembé, Mãe Hélia e Hilário Ferreira.

Adesão

Zelma comemora a grande adesão do público ao curso. Já são mais de 700 inscrições realizadas por pessoas de todo o País, um feito que sinaliza algo maior. “Essa capacitação vem no sentido de contar a história dos povos e fazer com que o Ceará e a sociedade brasileira falem sobre um assunto tão relevante”, situa a gestora.

“Só podemos superar um problema primeiro quando a gente avista que ele é um problema. A sociedade do Brasil não tem sequer unanimidade em dizer que é racista. Então, quando colocamos a questão racial no centro do debate, podemos fazer a desconstrução de narrativas preconceituosas, que excluem, e começamos a apostar numa ambiência democrática, de respeito à diferença, de abertura para uma verdadeira democracia racial”, completa.

Diversos grupos têm suas particularidades evidenciadas nos encontros. Há diálogos sobre territórios e lutas dos povos indígenas e dos povos ciganos no Ceará; a respeito da população negra e dos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) do Estado; sobre as conquistas e desafios, tanto local quanto nacionalmente, de mulheres negras, indígenas, quilombolas e de terreiro; e sobre as juventudes do Ceará.

No dia 19, o curso finaliza com o módulo “Uma Década de Estatuto da Igualdade Racial: por mais reconhecimento étnico e justiça racial”, com palestra de Zelma Madeira e mediação de Lourdes Vieira. 

“Quando a gente faz uma leitura crítica e propositiva da História; quando a gente passa a dizer – e essa é a proposta do curso – que trabalhar a questão racial não é coitadismo, assistencialismo nem mimimi, é porque trata-se de uma causa histórica. Ela guarda raízes profundas. Romper com o racismo não é simples, mas parte da dimensão valorativa, da qual fazem parte os processos educacionais”, sublinha Zelma.

Segundo ela, a aposta na educação pode superar a ignorância e a dimensão de discursos ideológicos. “A partir daí, dessa superação, podemos ser mais propositivos, mais assertivos na construção de uma democracia”, diz. Nesse sentido, a gestora também chama a atenção para a Campanha Ceará Sem Racismo – Respeite minha história, Respeite minha diversidade, lançada no ano passado pelo Governo do Estado por meio da SPS.

A ação – que percorreu municípios do interior, comunidades quilombolas e aldeias indígenas, discutindo e levando material educativo com a imagem de heróis e heroínas negros e de diversos grupos étnicos que simbolizam a luta destes povos por sua cultura e tradições – é uma das 12 finalistas do Prêmio Innovare 2020, premiação nacional que busca divulgar e difundir práticas que contribuem para o aprimoramento da justiça e cidadania no Brasil.

Legenda: Peculiaridades de vários povos serão trabalhadas em cada encontro
Foto: Helene Santos

“Nossa aposta é em um Ceará sem racismo, de uma gente apoiada em processos educacionais para melhor compreender o mundo e nortear as nossas iniciativas. Para, sobretudo, entender que a luta antirracista só pode ser compreendida no campo da prática. Não pode ser retórica, cosmética, mas ter a dimensão política da ação. É fazer para transformar”, destaca Zelma.

Lutas e necessidades

Professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), Vera Rodrigues é uma das palestrantes do módulo 4 do curso, intitulado “Mulheres negras, indígenas, quilombolas e de terreiro: conquistas e desafios no Brasil e Ceará”. Realizado na próxima quinta-feira (12), o encontro pretende abordar especialmente os temas atuais sobre relações raciais no País, a exemplo do Movimento Vidas Negras Importam.

“Vou desenvolver essas questões a partir de uma metodologia dialógica e expositiva, ou seja, exponho os temas e, depois, abro para o público tirar as dúvidas. Também trago referenciais para esse pensamento, porque geralmente as pessoas do grande público têm noções muito rasas sobre essas questões”, detalha Vera.

Legenda: Formação deve estabelecer um balanço dos avanços e desafios no que concerne às políticas de afirmação das diferentes raças e etnias presentes no Ceará, enfocando em suas formas de existir e resistir
Foto: Helene Santos

Também coordenadora dos projetos de extensão “Mulheres Negras Resistem: processo formativo teórico e político para mulheres negras” e  “O Apagamento do Negro na Terra do Sol: rumos da educação e cultura afro brasileira no Ceará”, a professora gaúcha situa que, no Ceará – Estado em que ainda perdura um discurso oficial da não-existência de negras e negros e, portanto, possuindo grande dificuldades de lidar com as raízes afro-brasileiras – promover uma leitura pluralista do assunto é necessário.

“Espero que essas discussões e iniciativas não ocorram apenas em novembro. Me incomoda que ainda se espere este mês para falar sobre isso, como se, no resto do ano, não existissem populações negras, o debate racial. Acho que isso é algo a ser alterado com o passar do tempo, que passe de uma pauta pontual para ser uma pauta corriqueira, do cotidiano”, afirma a estudiosa.

A necessidade dessa transformação na ótica de abordagem e trabalho se dá, entre outras questões, por dados alarmantes no que toca à população negra do Ceará e do Brasil. De acordo com o Atlas da Violência 2020, documento que traça o perfil das mortes ligadas a crime no Brasil, o número de homicídios de negros no Estado saltou de 1.377 em 2008 para 4.477 em 2018. 

Por sua vez, no que toca ao homicídio de mulheres negras em solo cearense, o dado vai de 74 em 2008 para 426 em 2018, algo urgente e com valores totalmente díspares ao da população não-negra no mesmo recorte de análise.

“Penso que, em termos de políticas públicas, isso é o que se torna mais urgente. Sou uma defensora das políticas públicas porque elas têm a capacidade de alterar a realidade social no coletivo, não se trata de uma questão individual. E, nesse sentido, penso que a Ceppir é um espaço valioso para isso. Nós só vamos mudar algumas questões, como a invisibilidade social negra, com ações afirmativas cada vez mais abrangentes”, conclui Vera Rodrigues.

Serviço
Curso “Relações Étnico Raciais na Sociedade Brasileira e Cearense”
Até o dia 19 de novembro, sempre às terças e quintas deste mês, das 14h às 17h, por meio de transmissões ao vivo pelo canal da SPS Ceará no YouTube. Inscrições neste link. Gratuito. Contato: (85) 3101-4557


Confira a programação dos próximos encontros:

10/11 (Terça-feira)
Módulo 3 – População negra e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) do Ceará
Palestrantes: Hilário Ferreira, Cícera Barbosa, Ogan Leno Farias, Mãe Hélia da Cabloca Mariana, Tatiana Ramalho e João do Cumbe 
Mediação: Fernando Sanha 

12/11 (Quinta-feira)
Módulo 4 – Mulheres negras, indígenas, quilombolas e de terreiro: conquistas e desafios no Brasil e Ceará
Vera Rodrigues, Marciane Tapeba, Cristina Quilombola, Aurila Quilombola e Ana Andrade 
Mediação: Wanessa Brandão e Lourdes Vieira

17/11 (Terça-feira)
Módulo 5 – Conversando com as juventudes do Ceará
Ezequiel Tremembé, Tainara Eugenio, André Luís, e Wellington Nascimento
Mediação: Ceiça Pitaguary

19/11 (Quinta-feira)
Módulo 6 – Uma Década de Estatuto da igualdade Racial: por mais reconhecimento étnico e justiça racial
Palestrante: Zelma Madeira
Mediação: Lourdes Vieira

 

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