Aluno do CE se classifica pela 3ª vez para olimpíada de matemática mais difícil do mundo
Aos 18 anos, Levi Castello coleciona medalhas e participações em provas ao redor do mundo
O cearense Levi Castello,18, acumula uma rotina pouco comum até mesmo entre estudantes de alto desempenho. Medalhista em olimpíadas nacionais e internacionais, o jovem se prepara para disputar, pela terceira vez, a Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), considerada a olimpíada de matemática mais difícil do mundo.
A edição deste ano da competição acontece na China, com uma delegação de seis estudantes brasileiros que embarcam para Xangai entre 9 e 21 de julho de 2026. O percurso até o país no outro extremo do globo é marcado por olimpíadas e testes seletivos.
Levi foi medalhista na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) em 2024, então, já estava classificado para participar da prova novamente no ano seguinte. Em 2025, o estudante foi medalhista mais uma vez.
Com os medalhistas, a OBM realiza uma bateria de testes seletivos que filtram os melhores resultados desse grupo para disputarem as olimpíadas internacionais de matemática. Os competidores são submetidos a duas provas, que classificam as vinte ou trinta melhores pontuações, entre as quais são escolhidos os seis melhores alunos do Brasil para representar o país na IMO, o mais alto nível das olimpíadas internacionais de matemática.
Levi passou por esse processo exitosamente por três anos seguidos. Em 2024, ele embarcou para o Reino Unido e conquistou a medalha de bronze. Em 2025, pousou na Austrália e levou a medalha de prata ao final da competição.
Veja também
Entre provas realizadas em diferentes continentes, madrugadas de estudo e a vida acadêmica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Levi construiu uma história marcada por disciplina, mas também por uma relação quase espontânea com a Matemática, tratada por ele menos como obrigação e mais como entretenimento.
A trajetória com os números começou cedo, mas ganhou contornos mais sérios a partir do 7ºano do ensino fundamental. Em Fortaleza, segundo ele, existe uma cultura já consolidada de olimpíadas científicas dentro das escolas, o que faz com que muitos estudantes tenham contato com competições desde pequenos.
Até então, Levi encarava tudo mais como diversão. Matemática sempre foi sua disciplina favorita, e o interesse pela área também encontrava eco dentro de casa: o irmão mais velho é matemático. “Meus pais são médicos e acham extremamente engraçado o fato de os dois filhos terem ido para esse lado”, comenta, entre risos.
Quando começou a frequentar aulas voltadas especificamente para olimpíadas iniciou sem grandes pretensões. “Eu achava divertido, não levava muito a sério”, afirma Levi, que cursou do 7º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio no Colégio Ari de Sá, em Fortaleza, parceiro do SAS Educação. Aos poucos, entretanto, a curiosidade virou comprometimento. Entre o 8ºe o 9ºano, passou a estudar com mais intensidade e descobriu um universo de competições internacionais que extrapolava as provas nacionais.
A primeira experiência fora do Brasil aconteceu em 2022, quando representou o país na Olimpíada de Matemática da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OMCPLP), realizada em Moçambique. No mesmo período, Levi conquistou medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática, terminando empatado em primeiro lugar entre estudantes de sua faixa etária.
Desde então, as olimpíadas passaram a conduzir não apenas os estudos, mas também a forma como conheceu o mundo. Aos 18 anos, Levi já esteve em todos os continentes por causa de competições acadêmicas. Na América, passou por Chile, Bolívia e Argentina. Na África, esteve em Moçambique. Na Oceania, viajou para a Austrália. Na Europa, competiu no Reino Unido e na Romênia. Já na Ásia, foi à China - destino ao qual retorna agora para disputar novamente a IMO.
Rotina de estudos
A Matemática está presente no cotidiano de Levi para além dos estudos convencionais. À reportagem, o universitário levanta que um hábito que carrega desde a preparação na escola é sempre engrenar um problema matemático no seu tempo ocioso. Resgata questões das mais diversas olimpíadas internacionais em fóruns da internet e se entretém em deslocamentos, filas de espera e demais momentos em que poderia usar o celular para amenidades, mas dá preferência ao papel, caneta e raciocínio lógico.
Na escola, ao lado dos colegas que dividiam rotinas de preparação semelhante, inicialmente gostava de estudar coletivamente, já que conseguia partilhar momentos de aprendizado com alunos de níveis mais elevados e alavancar conhecimento. Depois, passou a estudar sozinho, já que subiu alguns degraus de nível, que os outros colegas já não acompanhavam mais.
Com a configuração universitária, Levi não consegue mais despender tempo exclusivo, mas traz o acumulado de anos de dedicação. “Eu tenho que ir para minhas aulas de Matemática da faculdade e fico lá estudando para as Olimpíadas”, comenta durante a entrevista. Além disso, menciona que o conteúdo visto nas salas de aula da Unicamp são familiares e afins ao que ele estudou há muito tempo, então, consegue dividir atenção entre as aulas e as preparações.
Levi finaliza destacando a tutoria que faz com José Elias Padovan e Paulo Jônatas de Oliveira, também alunos de alto desempenho que disputarão a Internacional ao lado do universitário. “Agora que os meninos já estão num nível bem mais legal, preparar a aula já se torna algo não trivial. Só de investir um tempo pra preparar a aula, já é algo que me exige um esforço de estudar”, afirma.
“Não me sentia obrigado” .
Ao refletir sobre as dificuldades durante os três anos de realização da olimpíada, Levi lembra a pressão que os competidores estão submetidos por um “pente-fino” que seleciona seis pessoas para participarem da IMO, e considera o percurso “punitivo”. “Não dá para falar aquele tipo de coisa ‘se você estudar o suficiente, você vai passar’, porque isso não é verdade. São seis pessoas que passam, e certamente tem mais de seis pessoas que se preparam. É um processo complicado e injusto”, evoca o cearense.
Apesar de nos primeiros anos o jovem ter convivido com a pressão de estudar muito e entregar bons resultados, em algum momento Levi afirma ter encontrado “um meio termo mais saudável”, respeitando seus finais de semana como folga e desanuviando em outras programações.
Caminhadas no calçadão da Beira Mar, refrescados por sorvete ou água de coco, na companhia da namorada, faziam parte do descanso de Levi no último ano do ensino médio. Quando decidia se debruçar nos problemas de matemática no sábado ou no domingo, fazia questão de esclarecer: “Não tô estudando, por obrigação. É o que eu quero, eu acho divertido, acho legal estudar”.
Assim, segue levando de maneira mais simples e natural, como se o estudo aplicado à Matemática fosse um hobby que consome mais do seu tempo.
Vaga olímpica na Universidade
A escolha pelo curso de Ciências da Computação e pela Unicamp não aconteceu por mero acaso. Nativo digital, Levi lembra que, desde que se entende por gente, já era ambientado com computadores e celulares. Unido a esse interesse congênito, o estudante visualizou a Matemática presente na carreira, e decidiu investir na Computação para seu futuro mercado de trabalho.
Sair de Fortaleza em direção à Campinas se justificou pela excelência do curso selecionado na Universidade perante o cenário nacional, mas também pela possibilidade de ingresso com vagas olímpicas. Levi brinca que, para passar na faculdade, bastou preencher um formulário e estava dentro. Além disso, destaca a rede de apoio criada por ex-alunos olímpicos que escolheram a Unicamp como futuro universitário.
“Eu já conheço bastante gente que estuda aqui, um pessoal de Olimpíada que já veio pra cá antes. Acho que criou um grupo de pessoas de Olimpíada que costuma vir pra Unicamp. Então isso é legal, eu já tinha uma rede de apoio aqui, já tinha um pessoal que eu conheci.”
*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.