Mestre do violão, Ribamar Freire reúne mais de 50 anos de bagagem musical em Fortaleza

Apaixonado pela versão de 7 cordas do instrumento mais popular, "Seu Ribamar" segue ativo nas rodas de choro e samba da capital cearense

Escrito por Felipe Gurgel, felipe.gurgel@svm.com.br

Verso
Legenda: Protegido por máscara facial para poder trabalhar, Ribamar tem tocado aos domingos, a partir de meio dia, no restaurante Raiz (Luciano Cavalcante)
Foto: Camila Lima

Um mestre é quem sempre realiza o ofício que ama e, dessa forma, aprende o tempo inteiro. "Seu" Ribamar Freire (71) está há 52 anos na música e, admite, não consegue largar o violão. "Já tive outros empregos, fui funcionário do Detran, e não sei de quê, até taxista eu fui. Mas voltava sempre para o violão, nunca larguei. É minha vida. E o que me incentiva a continuar é que ele faz parte de mim", declara o violonista.

Apaixonado pelo violão de 7 cordas, Ribamar é figura experiente do cenário musical de Fortaleza, e hoje circula, sobretudo, pelas rodas de choro e samba da cidade. Ao lado da filha, a musicista Brenna Freire, dentre outros parceiros, o violonista hoje consegue se dedicar mais aos gêneros tradicionais da música brasileira, depois de uma longa trajetória "servindo" à música - sempre envolvido com algum instrumento de cordas.

Legenda: Seu Ribamar e a formação do trio de choro (pandeiro, cavaquinho e violão de 7 cordas)
Foto: Camila Lima

"Quando me profissionalizei, quis aprender todos os estilos. Toco bolero, samba, forró. Toquei guitarra e contrabaixo em vários conjuntos, bandas de baile. Mas o violão é o que me dá mais prazer de tocar", observa ele. O apreço pelo violão veio do lar de origem. Seu pai já era violonista e Ribamar, caçula entre os irmãos, gostava de ver a habilidade paterna no instrumento de cordas. Ele ainda tentou aprender cavaquinho, mas não durou muito tempo.

Aos 9, 10 anos, cresceu com o violão e mais tarde quis aprender a tocar guitarra. Com 16, já tocava na noite de Fortaleza, sem deixar de praticar seu primeiro instrumento e articular um movimento junto aos amigos que apreciavam o samba e outros gêneros da tradição da música brasileira. "Depois de 15 anos tocando em bailes, viajando e tudo, eu deixei e fui tocar violão assim", acrescenta Ribamar.

A paixão pela versão de 7 cordas foi estimulada por conta da sonoridade grave que ouvia pelo rádio. Sem notícias sobre o instrumento em Fortaleza, ele conheceu este tipo de violão depois de fazer uma encomenda para São Paulo, por volta de seus 25 anos. "Queria muito tocá-lo e na época não tinha esses vídeos que têm hoje, tantos shows ao vivo. Só conhecia pelo rádio", lembra.

Renovação

Há muito tempo na música, Ribamar percebe de bom grado o interesse da juventude, hoje, pelo samba e o choro. Ele recorda que, nas primeiras décadas de disseminação do rock (dos anos de 1950 aos 70), jovens interessados em instrumentos de cordas, em boa parte, queriam tocar guitarra e contrabaixo elétrico. 

"Na época, quando comecei a tocar mais samba, choro, ouvia muitos jovens dizendo que aquilo era 'música de velho'. Queriam mais a guitarra, por conta dos Rolling Stones, Beatles. Hoje já tem uma juventudade tocando o 7 cordas, cavaquinho, bandolim, e vejo isso com muita alegria", observa o violonista.

Ele conta que a filha Brenna, também professora de música, leciona para meninos de 10, 11 anos, interessados em tocar bandolim, cavaquinho. Ribamar situa como é comum ele mesmo ser o mais velho das rodas onde toca atualmente. "E fico muito feliz com isso tudo. Porque escolheram uma música bonita, riquíssima em harmonia, pra tocar. Uma vez fui pegar a Brenna no Curso de Música da UECE e fiquei admirado com tantos jovens tocando choro", lembra.

Parceria

Dos filhos de Seu Ribamar, Brenna Freire (28) foi a única que levou a música a sério. Ele recorda que deu à ela, de presente, um violão, mas de cara a filha não se interessou. Com o tempo, percebeu como ela gostava de ouvir samba e fazer os gestos de quem toca, com as mãos. Até que a menina fez um pedido aos pais, que começava com as letras "C" e "A".

"Até lembro que a gente achou que fosse um carro (risos)", brinca Ribamar. "Mas ela queria um cavaquinho. E aquilo foi uma alegria pra mim. Ela começou a tirar som do cavaco. Aprendeu, fez aula de música. Depois foi pro Conservatório Alberto Nepomuceno. Quando ia para a faculdade, fez vestibular para outra coisa. Chegou a cursar Engenharia, mas depois voltou pra música", conta o pai.

Legenda: Brenna e Ribamar: interesse da filha pelo cavaquinho possibilitou a parceria nos palcos
Foto: Camila Lima

Hoje os dois trabalham juntos e Brenna ainda incentiva o pai a mostrar suas composições autorais. Seu Ribamar hesita em falar de bons choros de sua criação, como "Aperitivo", "Sem Pretensão" e "Escorregando na Tom Maior"; mas, principalmente durante a pandemia, ele cedeu aos apelos da filha e tem divulgado mais o repertório.

"Tenho muitas músicas gravadas no celular. Mas mais por brincadeira: eu pego uma harmonia, um solo e vejo que aquilo dá música. Mas não levo adiante não. Sou muito tímido para essas coisas. Tenho poucas músicas, uma faixa de 10, 15 composições", conta o mestre