Dave Grohl dirige “What Drive Us”, documentário sobre a vida dos músicos na estrada

Entrevistando colegas de ofício, líder do Foo Fighters faz ode às vans e aos anos de formação das bandas de rock; filme pode ser visto no Prime Video

Legenda: O Foo Fighters, de Dave Grohl: banda produziu documentário sobre aventuras e desventuras de músicos em turnês precárias
Foto: Danny Clinch/ RCA Records

Dave Grohl é um caso raro na história do rock: sobreviveu ao fim de uma grande banda, a cultuada Nirvana, e criou para si uma carreira que não depende desses louros do passado. À frente do Foo Fighters, o músico norte-americano conquistou plateias mundo afora. Workaholic, ele ganhou fama de ser um cara boa gente, sem arroubos de estrelismo comum a rockstars. 

É essa a figura que comanda o documentário “What Drive Us”, que acaba de estrear no Prime Video, o serviço de TV por streaming da Amazon. Grohl dirige e se coloca diante das câmeras num filme concebido para ser uma ode à vida na estrada, materializada na figura das vans.

Pequenas demais para terem seus próprios ônibus, sem dinheiro para voar entre as cidades, bandas iniciantes ou independentes costumam se engalfinhar nesses veículos para ziguezaguear entre um palco e outro. 

“What Drive Us” é o segundo documentário de longa-metragem dirigido por Dave Grohl. O primeiro foi “Sound City” (2013), a respeito do estúdio homônimo onde gravaram de Johnny Cash a Vanilla Ice, de Neil Young ao próprio Nirvana. Por trás das câmeras, ele também comandou mais de uma dezena de videoclipes do Foo Fighters. 

Músicos contam suas histórias de origem 

Como em "Sound City", em seu novo documentário, o diretor convoca medalhões do rock e é visível seu prazer em ouvir as histórias que eles têm para contar.

Dave Grohl dialoga com cada entrevistado a partir da ideia fixa de que todos partilham uma experiência comum, romântica, meio ingênua e imprudente, de terem se apaixonado pela música e, a partir daí, terem se lançado, sem garantias, em viagens sem estrutura, encontrando outros apaixonados pela música, aqueles do tipo que não sobem nos palcos
 

Ringo Starr (Beatles), The Edge (U2), Steven Tyler (Aerosmith), Flea (Red Hot Chilli Peppers), Slash e Duff (Guns N’Roses) são alguns dos nomes mais famosos ouvidos por Grohl. A presença ilustre, contudo, nem sempre rende boas histórias.

A turma do Guns faz apenas aparições breves, sem contar nada interessante (a despeito do que se pode imaginar como foram as turnês da banda em seus primeiros anos). Flea e Steven Tyler dão depoimentos exaltados, num tom de chapação, mas que parecem dar voltas.

Legenda: Fã de carrões, Brian Johnson aparece em "What Drive Us" relembrando dos tempos que viajava em pocilgas motorizadas
Foto: Divulgação

Mas há boas histórias para se ouvir. Brian Johnson (AC/DC) está ali, para relembrar a infância pobre na Inglaterra; da epifania de ver, ainda criança, o pioneiro Little Richard na TV; e de ter rompido com o destino miserável a ele prometido, por correr os riscos de viver de música.

O problema é que, para chegar até depoimentos assim, Dave Grohl sai do caminho que se propôs percorrer. Por melhores que sejam a narrativas, elas acabam soando batidas e repetitivas, vistas não poucas vezes nos muitos documentários de historiam as origens de bandas famosas.

Ouro no fim do arco-íris

O fato de o condutor do filme, por vezes, sair da estrada, não quer dizer que ele não chegue a seu destino.

As participações da cantora St. Vincent vão ao ponto do questionamento de Dave Grohl, contando como é a vida na estrada, o que ela significa para quem passa mais tempo numa van do que nos palcos e entrega anedotas despudoradas, como a de um ataque de flatulência que precisou suportar de um companheiro de viagem. Tudo contado com sua elegância e beleza estranhas.

Legenda: Ian MacKaye (sem camisa), na van do Minor Threat: depoimento reconstitui primeiros anos do circuito de turnês independentes nos EUA
Foto: Divulgação

Outra participação que faz valer o documentário é a de Ian MacKaye (Minor Threat), lenda da cena independente norte-americana.

Ian MacKaye quem conta as origens do circuito de shows underground, que se estabeleceu de costa a costa nos EUA. Credita o pioneirismo aos canadenses do D.O.A., que gentilmente emprestaram para MacKeye e amigos a lista de contatos por onde haviam passado, abrindo caminhos.

Da parte mais mainstream do elenco do documentário, é Tony Kanal (No Doubt) quem entrega os melhores testemunhos. Fala do impulso irrefreável de fazer música, de botar o pé na estrada e traduz as conquistas de um artista em sua evolução veicular: da van própria ao ônibus, passando pelo comboio de automóveis, o primeiro ônibus próprio e ao luxo de ter dois ônibus rodando numa turnê.

Faixas bônus

"What Drives Us" tem uma ausência estranha: a história de Grohl no Nirvana. A banda até aparece, numa fotografia, quando Grohl nem fazia parte da formação e as baquetas eram de Chad Channing. O músico fala, em diversas ocasiões, de sua experiência no Foo Fighters. A banda - que produz o filme - também aparece relembrando dos dias na estrada a bordo de uma van vermelha (a mesma que seu líder dirige no documentário).

Mas, afinal, por que Dave Grohl se enfiou numa van vermelha, apertado com outros músicos, se como um ex-Nirvana poderia ter estreado com uma estrutura mais profissional?

A resposta foi dada, na semana passada, quando Grohl apareceu no apresentador Jimmy Kimmel para divulgar seu filme.

"Quando começa algo numa velha van com seus amigos, você realmente estabelece a base para tudo o que vem depois e isso faz você apreciar todas as recompensas que vêm depois", explicou o músico, acerca da escolha que ele e os companheiros fizeram. Uma boa história que caberia no filme melhor do que as divagações um tanto repetitivas de Grohl.

Legenda: Cartaz da turnê de 25 anos que o Foo Fighters faria em 2020: seria 10 datas a bordo da mesma van que usaram em 1995
Foto: Divulgação

Outra boa história que ficou de fora foi a ideia gestada pelo Foo Fighters que faria tabelinha com o filme. A turnê de 25 anos da banda – programada para 2020 e cancelada por conta da pandemia – havia sido planejada como uma reedição de sua primeira excursão pelos EUA. A turma de Dave Grohl se apresentaria, dessa vez, em grandes espaços, mas novamente chegando até eles de van.

Nessa turnê comemorativa, a bordo do velho veículo vermelho, os músicos entrariam nos locais das apresentações, montariam seus equipamentos e fariam shows de 3h de duração. Depois dos últimos acordes, claro, seria de se mandar para a estrada de novo. Esse, aliás, parece ser o desejo que percorre cada depoimento no filme e que é inflamado em que o assiste.

Você tem interesse em receber mais conteúdo de entretenimento?