Quais as chances de Sérgio Moro na luta pelo eleitorado nordestino?

De passagem por Pernambuco, o ex-ministro garantiu o registro clássico entre políticos no Nordeste: a foto com chapéu de cangaceiro

Sérgio Moro é ex-ministro do Governo Bolsonaro
Legenda: Sérgio Moro é ex-ministro do Governo Bolsonaro

Cotado como pré-candidato pelo Podemos à Presidência da República, o ex-juiz Sérgio Moro iniciou aproximação com o eleitorado nordestino neste fim de semana, no lançamento do seu livro “Contra o Sistema de Corrupção” em Recife (PE).  Essa é a primeira vez que ele visita o estado após filiação partidária.

Dar os primeiros passos de uma entrada política no Nordeste, no entanto, não é missão fácil. A região tem histórico de forte apoio a candidatos da esquerda e tem sido alvo de investidas mais intensas do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Para especialistas, o ex-ministro da Justiça precisa de habilidade política para atrair aliados e dominar o debate público, além da pauta anticorrupção, para tornar-se relevante em um ambiente historicamente dominado pelo PT. 

Na análise de cientistas políticos ouvidos pelo Diário do Nordeste, as investidas de Moro deverão ocorrer mirando em eleitores indecisos, aqueles que apoiaram a Operação Lava Jato e que, de certa maneira, estão infelizes com o governo Bolsonaro.

Colocando-se como uma terceira via à medida que o atual presidente divide espaço com Lula (PT) no 2º turno, o ex-juiz deverá, segundo análise, ser capaz de montar palanques regionais que independam do cenário político nacional, um desafio atípico na política.

Chapéu de cangaceiro 

Ao posar com apoiadores em Recife no último domingo (5), Sérgio Moro aparece usando um chapéu de couro, culturalmente ligado ao Cangaço, em um contexto histórico ligado às raízes nordestinas.  

Sergio Moro possa com chapéu de cangaceiro ao lado de apoiadores no Recife
Legenda: Sergio Moro possa com chapéu de cangaceiro ao lado de apoiadores no Recife
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Gesto parecido já foi feito por figuras políticas que almejavam a presidência em passagem pela região. É o caso de Jair BolsonaroAécio NevesLula e Dilma Rousseff.

A pré-candidatura do ex-ministro é tida por especialistas como mais uma alternativa da chamada terceira via. A real chance de disputa no segundo turno, no entanto, se daria caso os outros expoentes desse espectro se unissem em prol de uma candidatura em comum, realidade pouco provável atualmente.

Diário do Nordeste conversou com professores das universidades federais do Piauí, Bahia e Pernambuco para entender as chances reais de Sérgio Moro ao se aproximar do eleitorado nordestino.

Joscimar Silva é (UFPI) é professor do curso de graduação e mestrado Ciência Política da Universidade Federal do Piauí; Priscila Lapa é pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco e doutora em Ciência Política e professora na Faculdade de Ciências Humanas de Olinda; e Cláudio André é doutor em Ciências Sociais e  professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). 

A quem Sérgio Moro está mirando e qual a intenção dele em investir na aproximação do eleitorado dos estados do Nordeste?

Joscimar Silva (UFPI) - A figura de Sérgio Moro apareceu em muitas pesquisas em 2019 e 2020 como uma possível figura de continuidade de Bolsonaro até a saída dele. As chances de crescimento dele são limitadas, dado uma permanência do Lula como primeiro colocado e uma continuidade forte, mas os apoiadores do Bolsonaro continuam com 20% sendo o segundo colocado. Dificilmente poderia decolar, a não ser que tivesse uma aliança entre os candidatos da terceira via.

Priscila Lapa (UFPE) - Moro precisa se posicionar como um candidato que conhece o Brasil. Ele ainda é muito especificado como um combatente da corrupção, isso é muito distante do eleitor comum; ele precisa mostrar que reconhece a realidade e que tem capacidade de tratar de outros temas. Isso ele já está fazendo, a construção desse discurso é sair dessa questão monotônica.

Cláudio André (UFBA) - Essa movimentação é prevista, é de um cálculo político de ele conseguir, de fato, visitar a região, dialogar com algumas lideranças. Mas as chances dele, o seu sucesso para 2022, depende exatamente da capacidade de atrair eleitores indecisos, que, nesse momento, são críticos tanto a Lula quanto a Bolsonaro. Ou seja: a partir do momento em que ele se coloca como alternativa, ele se torna competitivo para substituir Bolsonaro em um eventual 2º turno, então é muito importante a gente perceber que as movimentações que ele tem feito dialogam com um objetivo de falar de maneira direta com o eleitorado do Nordeste e do Brasil, mas também é uma perspectiva de ele se viabilizar e se tornar competitivo o mais rápido possível.

Qual mensagem Moro pretende passar usando chapéu de couro? Do que depende ele se viabilizar como um candidato competitivo?

Cláudio André (UFBA) - Essa conversão dos candidatos a vestirem o chapéu nordestino já é um grande apelo entre o eleitorado, no entanto ocorre que a movimentação de Sérgio Moro é para dialogar com aqueles eleitores descontentes de Bolsonaro, que já apoiaram a operação Lava Jato anteriormente à Eleição de 2018. Faz parte ele circular por diversas regiões, sabendo que o Nordeste tem 27% do eleitorado brasileiro, é a segunda maior região do Brasil no quantitativo de eleitorado. 

Então, sua chance de sucesso depende muito da capacidade de ele conseguir também aliar-se a partidos importantes na região Nordeste e em todo Brasil. E me refiro a montagem dos palanques regionais com grande apelo para que ele consiga de fato ser uma figura importante para receber apoio.

Priscila Lapa (UFPE) - Ele vem sempre se comparando a Lula e Bolsonaro, o quanto um é 'corrupto' e o quanto o outro 'é inapto'; ele mais uma vez fala sobre aquilo que é lugar de conforto dele. Moro tem um desafio enorme de se conectar com o eleitor, principalmente na questão da economia, que muitos estão reclamando. É forte na memória do eleitorado nordestino o quanto ele foi privilegiado nas políticas do PT com o Bolsa Família, a região passou a ser o centro dos investimentos do Governo Federal, que deu outra dinâmica, isso passa pelas universidades.

Joscimar Silva (UFPI) - Quem ele precisa buscar são os indecisos, mas principalmente aquele que estão frustrados com o Bolsonaro. A figura de Sérgio Moro apareceu em muitas pesquisas em 2019 e 2020 como uma possível figura de continuidade de Bolsonaro até a saída dele. A base mais próxima do Bolsonaro.  É importante compreender que nas últimas eleições, principalmente a partir de 2006, a gente tem um domínio do PT cada vez maior na região.