Saída de Pedro Guimarães da Caixa não deve trazer mudanças em políticas adotadas

Para economistas, a sucessora Daniella Marques não terá tempo hábil para mudanças antes das eleições

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: Maior desafio para a próxima gestão é mudar viés político que a Caixa assumiu ao longo do governo Bolsonaro, diz Mauro Rochlin
Foto: Agência Brasil

O ex-presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, deixou o cargo nesta quarta-feira (29), após denúncias de assédio sexual. A ex-secretária de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia Daniella Marques assumirá a posição. 

Guimarães estava no comando do banco público desde o início do governo Bolsonaro e foi o porta-voz de anúncios de programas de renda e acesso a crédito criados durante a pandemia, como o Auxílio Emergencial e o Pronampe.  

Para economistas, não deve haver mudanças significativas em termos de políticas adotadas pela instituição com a saída do ex-presidente, principalmente se considerando o curto espaço de tempo até as eleições.  

Imagem da Caixa 

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, avalia que a Caixa teve um papel de exibição de medidas “eleitoreiras” por parte do governo federal durante a última gestão.  

Ele avalia que esse perfil deve continuar, mas que a Caixa deve ser uma carta menos utilizada após o escândalo com Guimarães. Para ele, a saída do ex-presidente devido a denúncias de assédio é um episódio ruim para a imagem não só da Caixa, mas do Governo Federal como um todo 

“Não vejo o que de bom pode ser angariado pelo governo via Caixa Econômica, é como se tivesse queimado a chance de usar a Caixa como ferramenta eleitoral”, considera. 

A presidente do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Silvana Parente, reitera a visão negativa da saída de Pedro. 

A Caixa tem uma equipe de gestão técnica importante que tem que ser protegida. É lamentável a saída do presidente dessa forma por esse motivo, prejudica muito a instituição e toda a equipe. Creio que a caixa vai se recuperar, pode se profissionalizar mais na sua missão. As estratégias de política social vêm do próprio governo federal, então a expectativa é que não tenha mudança nenhuma.
Silvana Parente
presidente do Corecon-CE

Sem tempo hábil 

Com menos de 100 dias até as eleições, os economistas consideram que não há muito que possa ser feito pela nova gestora em termos de mudanças estruturais.  

“Ela só vai mesmo tomar conta da empresa que já tem seu funcionamento normal. Daqui para o final do ano não vai ser lançada mais nenhuma política. A expectativa é que nada vai mudar, porque mudanças mais estruturais só vão se dar mesmo após a eleição”, percebe Silvana. 

Mauro julga que a escolha de uma mulher para gerir o banco foi uma forma de tentar reverter os danos causados pelas denúncias feitas a Pedro Guimarães. Para ele, independente da nova gestão, não será possível reverter a imagem política que o ex-presidente do banco trouxe à Caixa. 

Pedro tocou a Caixa Econômica a serviço das propostas eleitorais do governo. Não vejo condições de mudar essa proposta e implementar em 100 dias, antes das eleições, que é o prazo que a gente tem. Nem acho que tenham esse objetivo colocando ela [Daniella] lá
Mauro Rochlin
professor de economia da FGV

O maior desafio, segundo ele, é reverter a imagem política que a Caixa tomou nos últimos anos, priorizando aspectos técnicos.  

Entenda a saída de Pedro Guimarães 

Guimarães deixou o banco estatal um dia após a repercussão da denúncia de assédio sexual supostamente praticado por ele contra funcionárias. Ele oficializou seu pedido de demissão em carta entregue ao presidente Jair Bolsonaro. 

No documento, o ex-chefe da Caixa diz que não pode "prejudicar a instituição ou o governo sendo um alvo para o rancor político em um ano eleitoral". 

Guimarães ainda cita na carta diversas premiações pela Caixa durante sua gestão. Ele também nega as denúncias de assédio e afirma que "não refletem a minha postura profissional e nem pessoal". 

Segundo relato de pelo menos cinco vítimas ao portal Metrópoles, Pedro Guimarães tinha comportamentos inadequados no ambiente de trabalho, como convites, frases constrangedoras e até toques em partes íntimas das funcionárias. 

O chefe do banco tinha um  "conceito deturpado de meritocracia", que acreditava ser possível garantir ascensão na carreira para as funcionárias que aceitassem as investidas. 

Uma das funcionárias relatou ter sido tocada nas nádegas. "Nunca precisei disso na minha vida para ganhar cargo. Prefiro até não ter cargo, mas nunca precisei disso", disse. 

A Caixa Econômica disse não ter conhecimento das denúncias e citou haver protocolos de prevenção contra comportamentos indevidos de seus funcionários. 

"O banco possui um sólido sistema de integridade, ancorado na observância dos diversos protocolos de prevenção, ao Código de Ética e ao de Conduta, que vedam a prática de 'qualquer tipo de assédio, mediante conduta verbal ou física de humilhação, coação ou ameaça'", acrescentou, em nota ao site.