Restrições na fase 4 travam mais de 39 mil empregos gerados por academias, bares e eventos no CE

Estimativa é de associações representativas dos segmentos que devem continuar fechados. Governador justificou a decisão de manter atividades suspensas devido ao elevado risco de disseminação da Covid-19

Legenda: Dos 39 mil trabalhadores, cerca de 15 mil são empregados diretamente nos bares. A estimativa ainda desconsidera os estabelecimentos que já fecharam.
Foto: Camila Lima

De fora da quarta fase do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais do Governo do Estado, bares, academias e eventos correspondem a 39 mil empregos - entre postos diretos e indiretos - que seguirão represados em todo o Estado. As estimativas são da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel-CE), Sindicato das Empresas de Condicionamento Físico do Estado do Ceará (Sindfit-CE) e do Sindicato das Empresas Organizadoras de Eventos e Afins no Estado do Ceará (Sindieventos-CE).

Na manhã de ontem, o governador Camilo Santana afirmou, em entrevista ao Sistema Verdes Mares, que a Capital deverá passar para a Fase 4 do plano na próxima semana se os indicadores da área de saúde permanecerem em queda, mas que esses segmentos - juntamente com as aulas presenciais nas escolas, cinemas, shows e espetáculos ficarão de fora, diferentemente do que foi previsto inicialmente.

Desses 39 mil trabalhadores, cerca de 15 mil são empregados diretamente nos bares. De acordo com Taiene Righetto, o número considera alguns dos restaurantes que ainda estão tentando se reerguer em meio à impossibilidade de atrair público com a realização de shows musicais, por exemplo. A estimativa ainda desconsidera os estabelecimentos que já fecharam as portas definitivamente.

O número inclui também 14 mil empregos diretos e indiretos ligados ao ramo de eventos no Estado, conforme estima o Sindieventos-CE. Os outros 10 mil empregos represados correspondem aos postos de trabalho diretos nas empresas de condicionamento físico no Estado, de acordo com projeção do Sindfit-CE.

Em transmissão pelas redes sociais, o governador explicou que a Fase 4 previa, praticamente, uma "volta à normalidade", o que preocupava o comitê que acompanha a evolução da pandemia no Estado. "São atividades que geram aglomeração e que, segundo especialistas, há um risco muito forte de transmissão", disse Camilo Santana.

Ele ainda justificou que a decisão foi tomada com o intuito de evitar um retrocesso no plano de retomada, o que obrigaria que atividades já liberadas fossem novamente suspensas. "Por uma questão de precaução, para evitar o que tem acontecido no mundo inteiro, você vê aí Miami, Flórida, que abriram atividades e tiveram que fechar novamente, estados do Brasil também, e não queremos que isso ocorra no Estado", pontuou.

Eventos

A operação de bares e de restaurantes com a realização de shows é importante também para a cadeia de eventos, segundo avalia Maurílio Fernandes, empresário de entretenimento das empresas Empire, In Beats e One RPM.

"A gente tinha, sim, uma expectativa grande de que o setor começasse a voltar, claro, com algumas restrições, respeitando os protocolos e com todos os cuidados. Com a retomada na quarta fase, esperávamos que em setembro ou outubro os eventos um pouco maiores começassem a ser liberados", pondera. "Em um cenário positivo, em dezembro a situação estaria normalizada, claro, dentro de um 'novo normal".

De acordo com a presidente do Sindieventos-CE, Circe Janes Teles, o setor ainda está buscando dialogar com o governo para que as atividades ainda consigam ser retomadas na Fase 4. Ela avalia que o segundo semestre pode trazer resultados ainda mais negativos, já que é neste período que ocorrem os eventos de negócios no Estado.

"Se os eventos não retomarem, os impactos serão ainda maiores, porque eles, principalmente os de negócios, acontecem neste período de setembro, outubro, novembro e em dezembro já são mais pujantes os eventos sociais", aponta.

A presidente do sindicato destaca que alguns eventos ainda seguem agendados, embora não haja certeza de que eles irão de fato acontecer. Em Fortaleza, o segmento já acumula perdas de R$ 173 milhões em sua receita no primeiro semestre deste ano.

José Arlindo é um dos trabalhadores que depende indiretamente do setor de eventos. Conhecido como Fala Mansa, ele vende copos e bonés em festas de forró da Capital e, agora, está com R$ 18 mil em mercadorias em estoque. "Eu já não esperava que os eventos voltassem a partir desta segunda-feira, mas o problema é não ter uma previsão. Se ficar assim até novembro, com certeza eu não vou ter condições de continuar", prevê.

Se a situação perdurar, ele acredita que deve mudar de ramo e voltar a vender espetinho na casa da mãe, no bairro Bom Jardim, atividade que exercia na adolescência. "Foi o que comecei a fazer durante a pandemia e está garantindo o mínimo do meu sustento. Só nesses meses parado, meu prejuízo já foi de R$ 32 mil, não tenho condições de continuar assim", explica.

Academias

Nas empresas de condicionamento físico, além dos empregos que ficarão represados, a presidente do Sindfit-CE, Juliana Sá, estima que mais de 500 dos 1.780 estabelecimentos, acima de um terço do total do Estado, não devem ter condições de se reerguer por conta dos impactos da pandemia do novo coronavírus. "Sem uma previsão de quando poderemos voltar, pode aumentar".

"O Sindfit-CE lamenta que as academias tenham sido enquadradas junto com setores de entretenimento na fala do representante do Governo do Ceará, quando, na realidade, as academias são um setor que promove saúde e bem-estar, devendo ser reconhecidas como essenciais para a população", diz Juliana.

Preparada para retomar as atividades já na segunda (20), Sasha Reeves, CEO da academia Ayo FItness Club, investiu em capacitação para os funcionários e adaptou a estrutura do empreendimento para receber de volta os alunos. "Agora, além do prejuízo com a paralisação nos últimos 4 meses, uma segunda despesa foi incluída nas nossas contas".

Segundo a empresária, 85 funcionários retornariam ao trabalho.

"Quando a gente recebe uma notícia cindo dias antes do retorno, fica todo mundo sem perspectiva, sem entender o porquê de isso não ser explicado de forma mais transparente", diz.

Planejamento

O governador Camilo Santana afirmou ainda que entende a reação dos setores que não poderão retomar suas atividades e reforçou que o comitê responsável pelo plano de reabertura se reunirá com cada segmento para definir protocolos e datas específicas para esses ramos.

"(O apelo dos setores) é legítimo, mas tudo isso tem sido decidido com muita responsabilidade, com muito critério, para que esse retorno seja sustentável e que não haja mais retrocessos. Nosso compromisso é que a comissão da elaboração do plano se reunirá com cada segmento para definir protocolos e prazos juntamente com a equipe da saúde", destacou Camilo.