Na pandemia, entregadores trabalham mais e ganham menos: 15h por dia para faturar R$ 2 mil no mês

Baixa remuneração e falta de assistência têm feito entregadores largarem atividade ou a utilizarem apenas como renda extra

fotografia
Legenda: Levantamento do Instituto Locomotiva sobre o impacto da pandemia no dia a dia dos entregadores apontou que 92% deles estão preocupados com a possibilidade de não ter como pagar as contas.
Foto: Agência Brasil

Sem conseguir uma recolocação no mercado de trabalho, Ricardo Rodrigues resolveu apostar nas atividades ligadas a aplicativos. Após a experiência, no entanto, percebeu que para garantir um salário de R$ 2 mil a R$ 2,4 mil por mês, ele teria que rodar uma média de 15 horas diariamente.

Primeiro, ele se cadastrou como motorista da 99, atividade na qual ficou por oito meses até ter o carro roubado durante uma corrida no início do ano. Sem ter encontrado o veículo ainda, ele resolveu fazer entregas, também por aplicativo.

> Entregadores pedem melhores condições de trabalho

"Passei apenas um mês. Quando vi a realidade, parei. É pouco remunerado. Para tirar R$ 2 mil, tem que roda no mínimo 15 horas de segunda a segunda", afirma.

Ele detalha que, do pouco que ganhava durante as oito horas que costumava trabalhar, ainda tinha que pagar combustível e alimentação. "Agora estou só fazendo entregas para a minha sogra, que tem uma mamitaria", revela.

Mudança de rumo

A baixa remuneração e as más condições de trabalho também estão desestimulando Roseberg Nunes de Oliveira, que, assim como Ricardo, viu nas entregas uma alternativa ao desemprego.

Ele conta que está no ramo desde 2018 e que é cadastrado em vários aplicativos, iniciando às 10h e parando somente às 21h. "Agora, to rodando só no iFood, mas tenho passado dia todo e não faço quase nenhuma entrega. Eles aceitaram muitos cadastros para baratear as entregas", aponta.

Ele lembra que a redução no número de pedidos começou desde dezembro do ano passado e foi acentuada pela pandemia. Antes dessa situação, Roseberg revela que conseguia ganhar em torno de R$ 550 por semana, valor que caiu para R$ 46,90 na semana entre os dias 29 de junho e 5 de julho.

Por não conseguir mais fazer da atividade a principal fonte de renda, ele está investindo no próprio negócio: um pet shop. "Durante o dia, eu quero trabalhar na loja e à noite complementar a renda com o aplicativo, fazer dele uma renda extra", aponta.

Falta de assistência

O motoboy ainda reclama da assistência durante a pandemia e alega que as plataformas forneceram Equipamentos Individuais de Proteção (EPIs) apenas uma vez logo no início.

"Eles não dão nenhum apoio. A gente não sabe nem onde é o escritório deles aqui, justamente para ninguém ir na porta deles cobrar nada. Tratam a gente que nem lixo", dispara.

Levantamento do Instituto Locomotiva sobre o impacto da pandemia no dia a dia dos entregadores mostra que 46% dos entregadores disseram estar ganhando menos que antes com as entregas por aplicativo. Além disso, a pesquisa destaca ainda que 90% dos brasileiros estão preocupados com a possibilidade de não ter como pagar as contas.

A pesquisa ainda indica que a atividade é a única ou a principal fonte de renda para 46% dos entregadores. Apesar das adversidades, 92% dos entrevistados afirmaram que pretendem continuar trabalhando com entregas após o fim da pandemia.