Entregadores de aplicativo paralisam atividades em Fortaleza e pedem melhores condições de trabalho

Os entregadores são remunerados por corrida e pela distância percorrida, e por isso esses dois indicadores acabam definindo o pagamento por cada entrega. o movimento é organizado nacionalmente

Foto: Isanelle Nascimento

Entregadores de aplicativo de Fortaleza se juntaram à paralisação nacional por melhores condições de trabalho e fizeram mobilizações em praças e outros pontos da Capital nesta quarta-feira (1º). Em sua maioria motociclistas, os trabalhadores pedem aumento das taxas mínimas recebidas por cada corrida e do valor mínimo por quilômetro, além de auxílio para aqueles que são vítimas de roubos e violências durante o serviço, e providências mais efetivas em relação aos riscos da nova pandemia de coronavírus.

 

De acordo com o entregador Paulo Alberto Silva, muitos motociclistas estão sofrendo assaltos durante o trabalho e perdendo as ferramentas necessárias para o serviço, como o próprio veículo.  

“Um colega nosso pediu apoio ao suporte e o suporte falou que ele só poderia ter um auxílio se tivesse inválido. Que aplicativo é esse que não olha para o seu funcionário? A gente não tem vínculo empregatício de carteira assinada, mas a gente quer que pelo menos o aplicativo nos ajude a custear nosso transporte”, reivindicou Alberto. 

Os entregadores são remunerados por corrida e pela distância percorrida, e por isso esses dois indicadores acabam definindo o pagamento por cada entrega. Segundo Paulo Alberto, em Fortaleza a taxa mínima é de R$ 1,03. 

“A gente tá recebendo um valor mínimo de três, quatro quilômetros por R$ 3,00. Isso é injusto pra nossa categoria. A gente tá levando medicação, comida, até bens materiais pras pessoas em suas residências”, ressaltou. Os trabalhadores defendem uma taxa mínima de R$ 5 por quilômetro rodado. 

Eles também reclamam de bloqueios e desligamentos indevidos feitos pelo suporte dos apps. Para eles, as punições ocorrem a partir de critérios não claros e sem a possibilidade de apuração dos ocorridos e de direito de defesa dos envolvidos. 

Foto: José Leomar

Pandemia 

Assim como em outras partes do país, em Fortaleza os entregadores também destacaram a necessidade de receber auxílio contra os riscos de contaminação do novo coronavírus durante seus trabalhos. 

“Desde o início da pandemia que a gente tá na linha de frente também. Agora imagina você sair de casa, trabalhar de 11 a 15 horas sem parar. Então, a gente merece respeito, a gente quer que esses mega empresários donos desses aplicativos de delivery olhem pra gente com seriedade. Aqui tem cidadão, pai de família, filho, e a gente precisa levar o pão de cada dia pra nossa família”, disse Edvan Souza, 28 anos. 

Foto: Isanelle Nascimento

Estudo

Um estudo de sete pesquisadores, publicada na revista Trabalho e Desenvolvimento Humano e realizada neste ano, entrevistou entregadores de apps em 29 cidades durante a pandemia. O trabalho mostrou que mais da metade (54%) trabalham entre nove e 14 horas por dia, índice que aumentou para 56,7% durante a pandemia. Entre os ouvidos, 51,9% relataram trabalhar todos os dias da semana.

Cerca de metade dos entrevistados (47,4%) recebia até R$ 2.080 por mês e 17,8% disseram ter rendimento de até R$ 1.040 por mês. A maioria dos participantes do levantamento (58,9%) afirmou ter tido queda da remuneração durante a pandemia.

Segundo os autores, houve um aumento do número de entregadores como alternativa de pessoas que perderam renda durante a pandemia, mas apesar do aumento de entregas, os valores de hora/trabalho ou bonificação caíram.

Do total, 57,7% declararam não ter recebido nenhum apoio das empresas durante a pandemia para mitigar riscos e 42,3% disseram ter tido algum tipo de auxílio, como equipamentos de proteção e orientações. Independentemente do apoio, 96% comentaram ter adotado algum tipo de medida de proteção, como uso de álcool em gel e máscaras.

O professor de comunicação social da UNiversidade do Vale dos Sinos (Unisinos) e coordenador do projeto Fairwork no Brasil, da Universidade de Oxford, Rafael Grohmann, diz que a análise dessas plataformas em outros países revelou que elas não cumprem requisitos básicos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para o trabalho decente: remuneração, condições de trabalho (inclusive saúde), contratos que reflitam a atividade, gestão dialogada e transparente e representação e liberdade de associação.

“As plataformas digitais de trabalho têm mecanismos de vigilância intensa e uma extração de dados dos trabalhadores com uma gestão algorítmica desse trabalho. Acaba virando uma caixa-preta, e o indivíduo acaba ganhando cada vez menos. Os entregadores estão desesperados, ou é isso ou não é nada”, comenta o pesquisador.

Foto: Foto: Isanelle Nascimento

Contraponto

Em resposta, o iFood afirmou que o valor médio das rotas é de R$ 8,46, calculado usando fatores como a distância percorrida entre o restaurante e o cliente, uma taxa pela coleta do pedido no restaurante e uma taxa pela entrega ao cliente, além de variações referentes a cidade, dia da semana e veículo utilizado para a entrega.

"Todos os entregadores ficam sabendo do valor da rota antes de aceitar ou declinar a entrega. Todas as rotas tem um valor mínimo de R$5,00 por pedido, mesmo que seja para curta distância", informou, em nota.

Sobre desligamentos, a empresa destacou que "em nenhuma hipótese entregadores são desativados por participar de movimentos. Essa medida é tomada somente quando há um descumprimento dos Termos & Condições para utilização da plataforma e é válida tanto para entregadores, como para consumidores e restaurantes".

Segundo o iFood, o entregador recebe uma mensagem via aplicativo e é direcionado para um chat específico para entender o motivo da desativação e pedir análise do caso. Ao rejeitar muitos pedidos, o sistema entende que o entregador não está disponível naquele momento e pausa o aplicativo, voltando a enviar pedidos, em média, 15  minutos depois. 

O iFood também diz que não possui um sistema de ranking e nem de pontuação, como apontam os entregadores. Mas que "o algoritmo de alocação de pedidos leva em consideração fatores como, por exemplo, a disponibilidade e localização do entregador e distância entre restaurante e consumidor".

Sobre medidas de enfrentamento do Covid-19, a empresa afirma que desde o início da pandemia, em março, foram implementadas medidas protetivas que incluem fundos de auxílio financeiro para quem apresentar sintomas e para aqueles que fazem parte dos grupos de risco.

"Também foi disponibilizado gratuitamente até o final do ano um plano de benefícios em serviço de saúde. Até o momento, foram destinados mais de R$ 25 milhões a essas iniciativas. Em abril, a empresa iniciou a distribuição de EPIs (álcool em gel e máscaras reutilizáveis) em kits com duração de pelo menos um mês", completou, em nota. 

Já o Uber Eats informou que "as empresas associadas à Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (“Amobitec”) que atuam no setor de delivery implementaram, desde o início da pandemia, diversas ações de apoio aos entregadores parceiro, tais como a distribuição gratuita ou reembolso pela compra de materiais de higiene e limpeza, como máscara, álcool em gel e desinfetante, e a criação de fundos para o pagamento de auxílio financeiro para parceiros diagnosticados com Covid-19 ou em grupos de risco. Além disso, os entregadores parceiros cadastrados nas plataformas estão cobertos por seguro contra acidentes pessoais durante as entregas".

Uber Eats também disse que não trabalha com esquema de pontuação para a distribuição de pedidos e que a participação em atos como a manifestação desta quarta-feira não acarretará em punições ou bloqueios de qualquer natureza.

A reportagem não conseguiu contato com as empresas de app Rappi e Loggi.


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