Melhor opção para entregadores, moto apresenta mais insegurança

Trabalhadores motorizados acabam recebendo mais das empresas de aplicativos por causa da velocidade na entrega e do raio de cobertura. Contudo, problemas de segurança viária apontam para maior quantidade de acidentes de trânsito envolvendo o meio de transporte

Legenda: O projeto é assinado pelo deputado Ivan Valente (PSOL-SP), junto à bancada de seu partido.
Foto: Foto: JL Rosa

Com a difusão dos aplicativos de entrega em Fortaleza, Nícolas Gonçalves, de 22 anos, resolveu iniciar o ano de 2019 com o foco no pedal. Em janeiro, o estudante de psicologia começou a tirar a bicicleta de casa para pedalar pelas ruas da Capital em troca de dinheiro. As empresas de delivery por aplicativo foram a saída que ele encontrou para continuar comprando as coisas de que gosta.

“De início, a demanda de entrega não era boa, mas comecei a trabalhar todo dia, de 6h às 11h da noite. A partir de março, melhorou, e eu fazia de 10 a 12 entregas por dia. Porém, em maio, a entrega caiu muito e, enquanto vários ciclistas esperavam, quem usava moto continuava as entregas”, conta o estudante.

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Observando esse desnível nos serviços, Nícolas resolveu investir. No fim de maio, após juntar o valor de várias semanas de trabalho, conseguiu trocar o pedal pelo acelerador. Desde que comprou a tão sonhada moto, os R$ 4,90 que adquiria, no mínimo, a cada entrega na bicicleta se multiplicaram e, agora, chegam a R$ 15.

“Não falta entrega, apesar de ser muito concorrido. Mas, a taxa é bem melhor, levando em conta distâncias maiores”, ressalta. Por semana, o estudante consegue cerca de R$ 200, embora o valor não seja fixo e varie de acordo com a sua disponibilidade, uma vez que a faculdade ainda é sua prioridade. “Estava desempregado, só estudando, queria algo flexível. Para mim, basta ligar o aplicativo e já estou trabalhando; essa facilidade absurda me chamou muita atenção porque eu organizo meu horário”, narra. 

Dedicação

Com outro contexto de vida, o que pesa na rotina de Emanuel Abreu é a falta de descanso. Aos 53 anos de idade, o homem dorme pouco mais de 4 horas por noite, após um dia dividido entre a lanchonete gerenciada pela esposa e as entregas por aplicativo.

O ex-vendedor acorda em torno de 3h30 para ajudar a mulher a fazer os produtos que serão comercializados no ponto. Às 8h, pega a moto e sai de casa, no Demócrito Rocha, em direção aos bairros que concentram entregas na Capital. Volta para casa no horário do almoço e retorna às ruas, trabalhando até as 23h30.

Em um dia ruim, Emanuel consegue cerca de R$ 49; em um melhor, pode passar dos R$ 60. Força de vontade e necessidade de garantir o sustento de uma família com oito pessoas são o nome e o sobrenome do trabalhador. Com o que ganha, também garante os estudos da filha, Emiliane do Nascimento, 21. Ela pretende ser assistente social. O sonho, em épocas de modernização das atividades laborais, encontra obstáculos difíceis de serem superados com pouca dedicação.

Insegurança

Trabalhar em uma motocicleta – especialmente quando é preciso cumprir um horário para não ser penalizado pelas empresas que o gerenciam – pode ser perigoso. Embora os números de acidentes com motociclistas tenham caído nos últimos anos, Fortaleza ainda continua com altos índices que apontam para a necessidade de melhoria na segurança viária.

No ano passado, conforme dados do Relatório Anual de Segurança Viária de Fortaleza, 226 pessoas morreram em acidentes de trânsito na Capital. Desse total, 36,7% (83) pilotavam motocicletas, outros 24 andavam de bicicleta pelas vias. No mesmo ano, dos 12.093 casos que deixaram vítimas feridas, 7.570 ocorreram com motociclistas – o que representa 62,5% dos acidentes com sobreviventes –, do restante, apenas 652 envolveram ciclistas.

Conforme a urbanista da Bloomberg Philanthropies, Beatriz Rodrigues, apesar de os números terem caído, a iniciativa deve continuar até o fim deste ano monitorando, especialmente, os acidentes que envolvem motociclistas. A entidade vem trabalhando com a Prefeitura de Fortaleza desde 2015, a fim de reduzir esses casos no trânsito.

“Os aplicativos têm meta de entrega rápida, e isso é muito ruim. Primeiro, porque ela pressupõe que o entregador vá para a moto e não para a bicicleta; e a moto é um dos nossos calos”, admite Beatriz, considerando métodos para evitar o aumento desses casos no público de entregadores.

Segundo a urbanista, “ninguém vai banir as motos ou os aplicativos mas, em compensação, pelo menos fazer uma pressão para que os apps tirem essa meta de rapidez. A intenção é justamente que se use cada vez mais a bicicleta”. 

O acidente

Fernando Lima, de 31 anos, usa a moto que comprou com suas economias para fazer entregas pelo Uber Eats. Há cerca de três meses, ele também prestava serviço para a Rappi, mas tudo mudou após um acidente que sofreu enquanto ia fazer uma entrega.

“Estava chovendo e tinha acabado de pegar dois pedidos. Aí, enquanto estava em deslocamento para a casa do cliente, vi um buraco, freei para diminuir a velocidade e desviar, mas não deu certo. O pneu de trás derrapou, a moto virou de lado e acabei caindo”, narra.

Com um pedido de R$ 85 para entregar, Fernando ativou a função do aplicativo que informa sobre acidentes ocorridos e, automaticamente, o pedido saiu da tela. “Fiquei com uma dívida dos dois produtos. No outro dia, tive que ir lá na filial da empresa e deixar os pedidos para não ficar com a dívida”. Acidentado, Fernando machucou joelhos, cotovelo e ombro, mas, ainda assim, continuou trabalhando. A Rappi, porém, como ele conta, não deu nenhum suporte.

Empresas

A Rappi informou que, em casos de acidentes de trânsito, “orienta que os entregadores parceiros acionem o seguro DPVAT (Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre) – que oferece cobertura abrangente para todas as vítimas de acidentes de trânsito”.

A Uber Eats, por sua vez, disse que “oferece gratuitamente ao entregador parceiro um seguro com cobertura de até R$ 100 mil em caso de acidentes pessoais que ocorram durante as suas entregas e reembolso de até R$ 15 mil em despesas médicas”. A empresa acrescentou que concede o “Vale Saúde Sempre”, que dá descontos em atendimentos médicos e ambulatoriais.

O iFood informou “que preza pela segurança de seus parceiros e os incentiva a seguir as leis previstas no Código Brasileiro de Trânsito”. Além do desenvolvimento de campanhas, destacou a existência do botão “Sofri um acidente”, que auxilia o atendimento mais fácil para acionar o Samu rapidamente.

Já a James Delivery disse que não trabalha com pagamento adicional por velocidade da entrega. “Ofertamos a eles produtos com preços de custo ou subsidiados e fazemos também palestras presenciais de onboarding, nas quais destacamos a importância de obedecer as leis de trânsito”, posicionou-se, em nota.

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