Estudo com alunos da rede municipal de Fortaleza revela maioria assintomática para a Covid-19

Pesquisa analisou estudantes ainda em condição de aulas remotas. Conclusão vem às vésperas do segundo semestre letivo, quando muitas escolas devem voltar em modelo híbrido ou, pelo menos, iniciar a transição

Pesquisa da Uece foi feita com estudantes em condições de aulas remotas entre novembro e dezembro de 2020.
Legenda: Pesquisa da Uece foi feita com estudantes em condições de aulas remotas entre novembro e dezembro de 2020.
Foto: Gustavo Pellizzon

Qual a prevalência da Covid-19 em crianças, adolescentes e adultos estudantes da rede municipal de Fortaleza durante as aulas remotas? Essa foi uma das dúvidas que, em 2020, motivaram um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e, agora, tiveram conclusões divulgadas na revista científica internacional Elsevier. Segundo o relatório, foi descoberto que a maioria dos jovens eram assintomáticos e em todas as faixas etárias estudadas foi detectado potencial de transmissibilidade da infecção. 

Wemmenson Gonçalves, pesquisador que trabalha no laboratório de Biotecnologia e Biologia Molecular da Uece, um dos que assinam o estudo, explica que isso significa que, independentemente de estar ou não em sala de aula, crianças e adolescentes continuam sendo infectados e transmitindo a doença. E isso acontece porque, mesmo estudando remotamente, esse grupo continua em contato com outras pessoas que, por diferentes motivos, mantêm contato social e, consequentemente, a exposição ao vírus

“O retorno às aulas [no segundo semestre letivo], o retorno seguro, deve ser melhor pensado”, destaca o pesquisador. Tanto, segundo ele, devido ao rigor e ao cumprimento dos protocolos sanitários, quanto à própria dinâmica da pandemia. Dessa forma, ele propõe que, no retorno híbrido, haja um acompanhamento semelhante, de testagem massiva, para dimensionar o potencial de transmissão da Covid-19 nas escolas e, a partir daí, definir se mantém ou não as aulas presenciais. 

O estudo feito ano passado resultou de uma parceria entre a Uece, o Instituto do Coração da Criança e do Adolescente (InCor Criança), a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) e a Secretaria Municipal da Educação (SME). Para este ano, Gonçalves disse que a universidade ainda não conseguiu firmar nova parceria, mas que segue em negociação com a Prefeitura. 

Os testes, inclusive, segundo ele, podem ser feitos quinzenalmente com a tecnologia de baixo custo produzida e divulgada recentemente pela universidade estadual.  

Assintomáticos 

De acordo com a pesquisa acadêmica, no momento da avaliação, ano passado, das 1.277 crianças e adolescentes analisados, a maioria (73,7%) era assintomática, ou seja, tinha a doença, mas não manifestava sintomas.  

Já os demais (26,3%) desenvolveram febre (16,2%), perda de paladar (11,5%), perda de olfato (10,9%), cefaleia (9,5%), tosse seca (8,1%), dor de garganta (7,8%), dores musculares (5%), coriza (4,8%), dificuldade de respirar (2,8%), diarreia (2,8%), fraqueza física (2,2%), vômitos (1,7%), dor no peito (0,6%), urticária (0,6%) e alteração na pele (0,3%). 

Metodologia 

A pesquisa utilizou dados coletados em uma triagem feita entre os dias 9 de novembro e 9 de dezembro de 2020 por meio de testagens com os exames sorológicos (IgM e IgG) e o molecular (RT-PCR).

  

Segundo os pesquisadores, durante o período de aprendizagem remota, muitos foram os conflitos sobre o quão seguro é para os estudantes frequentarem as aulas presenciais em plena pandemia. Contudo, tais definições carecem de dados e evidências. E essa foi uma das demandas que motivaram a pesquisa. 

O público estudado foi dividido em três faixas etárias: 

  • 423 crianças de até 9 anos;
  • 854 adolescentes de 10 a 19 anos;
  • 282 adultos com idade maior que 19 anos, funcionários das escolas (professores e profissionais administrativos) que participavam das atividades presenciais e tiveram contato com os alunos durante a entrega de materiais (alimentação e material escolar). 

Dentre as 423 crianças pesquisadas, 107 (25,3%) apresentaram soroprevalência com IgG, IgM ou IgG/IgM. Dentre os 854 adolescentes, 250 (29,2%) tiveram sorologia positiva para a Covid-19. Já no grupo dos adultos, dos 282, 59 (20,9%) foram positivados com a doença. A taxa de prevalência para todos os grupos foi de 26,7% na sorologia e 4,04% na RT-PCR. 

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