Pianista Amaro Freitas (PE) volta ao Ceará e traz a força hipnótica do álbum 'Rasif'

Ao lado de Jean Elton (contrabaixo acústico) e Hugo Medeiros (bateria), o Amaro Freitas Trio fará duas apresentações no Festival Jazz & Blues

Legenda: Pianista projeta ainda para o fim de 2020
Foto: FOTO: JAO VICENTE

A 21ª edição do Festival Jazz & Blues promete generosos encontros musicais ao público cearense. De 22 a 29 de fevereiro, com programação em Guaramiranga, Aquiraz, Maracanaú e Fortaleza, o evento reúne artistas com trabalhos consolidados na cena brasileira e internacional.

Exemplo notório é a participação do pianista Amaro Freitas. Com apresentações em Aquiraz (dia 22) e na cidade serrana (dia 23), o compositor e arranjador forma o Amaro Freitas Trio com Jean Elton (contrabaixo acústico) e Hugo Medeiros (bateria).

Juntos, os amigos riscaram o mapa de alguns dos mais respeitados palcos da Europa e dos Estados Unidos como o Ronnie Scott's (Londres) e Dizzy's Jazz Club (Nova York). Em 2020, o Ceará integra a série de shows iniciada em fevereiro pelo Nordeste.

Na bagagem, o trabalho de estreia "Sangue Negro" (2016) e "Rasif" (2018). Em cena, um artista cuja essência autoral entende a música enquanto elemento inseparável de mudança social, comunicação e reconhecimento da cultura nacional.

Legenda: Hugo Medeiros (bateria), Amaro Freitas e Jean Elton (contrabaixo): descontração e amizade nos palcos  
Foto: FOTO: HELDER TAVARES

O giro nordestino aquece a alma do pernambucano. Esgarça, nas palavras do músico, o quanto a região é historicamente um território de luta. Diferente do cenário vivido por outras gerações, para Amaro, é possível criar e desenvolver uma carreira artística sem a necessidade de migrar para outros centros do País, a exemplo do Sudeste.

"Estamos provando que nosso olhar está diferente, enquanto sociedade estamos mudando. A valorização do Nordeste foi marcada pela imagem do lugar seco, quente, árido, sempre no pejorativo. O Nordeste não é só isso, é cultura e história. Sempre foi ponto de resistência desse País, de onde saem grandes artistas do Brasil", pontua Amaro.

Aos 28 anos, o músico absorveu influências dos grandes nomes do piano na seara da música afro-americana, porém, o processo criativo é mediado por heranças brasileiras, principalmente nordestinas. Tal entrega é sugerida já no título do disco. De origem árabe, "Rasif" alui a "pedra ou terreno pavimentado" e evidencia o batismo da cidade de Recife. Semelhante à costa da cidade natal, o piano de Amaro é formado por rebentações contínuas.

Aqui sai o mar, adentra Thelonious Monk (1917-1982), Keith Jarrett, Chick Corea, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Moacir Santos (1923-2006). O tempero é mediado pelo coco, frevo, baião, maracatu, ciranda e afoxé. Amaro destrona a concepção equivocada do jazz enquanto manifestação de uma abastada classe social.

Ter voz

Pelo contrário, o segmento é mais uma raiz musical apropriada do povo e revendida com verniz intelectual. "O jazz, assim como o frevo, maracatu são manifestações de uma população, da cultura popular. Outras pessoas são aplaudidas, enquanto quem trouxe essa cultura fica na sarjeta", identifica o músico.

Diferente da pecha excludente, o jazz remete a expressões de um povo em busca pelo alívio no dia a dia, do processo de encarar as dificuldades. Natural de Nova Descoberta, subúrbio da Zona Norte do Recife, o artista, hoje com nome em letreiros do estrangeiro, batalhou desde criança.

Aos 12 anos começou a tocar na igreja. Já adulto, dividia um trabalho em call center e tocava em bandas para casamentos e bailes. O objetivo era financiar os estudos no Conservatório de Música de Pernambuco. Integrou também a escola Tritonis Ensino de Música Contemporânea, na qual passou a ter aula de harmonia com Thales Silveira.

Depois da excelente recepção a "Ouro Negro", seu disco de estreia, Amaro compôs o universo de "Rasif". A entrega permitiu a merecida visibilidade no circuito da música instrumental, além de shows e presença em festivais de diversos estados brasileiros.

"Jazz não é música de restaurante. Aquele senso comum de escutar tomando uísque, eu tocando com meu paletó para ganhar 150 reais no fim da noite", critica.

Rasif

Com nove faixas, o mais recente álbum foi lançado pelo selo londrino Far Out Records, casa especializada em música brasileira. "Dona Eni" abre os trabalhos e evoca história passada em chão cearense.

O nome remete a uma senhora que hospedou o trio em outras passagens por Fortaleza. Durante a estada, Eni cozinhava um delicioso baião. A homenagem materializou-se no ritmo que nomeia o prato. Um baião ao compasso de sete tempos.

Criar as composições de "Rasif" (cuja missão incluiu o clarinetista e flautista Henrique Albino) ao longo de quase dois anos e meio remete a uma escolha cuidadosa. É uma musicalidade que respeita o tempo e as influências que Amaro testemunhou durante o período de criação. Interessa chegar à melhor versão da música.

Outros destaques do conjunto são "Mantra", "Aurora", Vitrais, além da faixa que batiza o registro. "Trupe" entrega loas ao coco de Arcoverde, no Sertão. A citada "Aurora" narra o nascer e a fuga do amanhecer. Nada escapa às marcas e observações do músico.

"Rasif", assim, reverbera a entrega de um realizador cujo "fazer musical" não se resume à rigidez dos compassos e das escalas. Interessa desviar-se do virtuosismo inócuo e entregar linhas melódicas repletas de paixão e observações do mundo.

Na ótica do pernambucano, urge aos comprometidos com a música instrumental adentrar outras formas de produzir. Essa crítica também incide no modelo de ensino musical ainda conduzido no Brasil. Estuda-se nos conservatórios e universidades a música europeia do Século XVII, todavia, de qual maneira esse aprendizado dialoga com as demandas e questões contemporâneas?

"É altamente defasado e com uma única via de olhar. Todo esse modelo foi muito embranquecido. O olhar da escravidão, da História do Brasil, da música brasileira passa pelo crivo branco. O que temos registrado é embasado em cima disso", alerta o pernambucano.

Um terceiro álbum vai chegar no fim de 2020. Ciente da própria trajetória e da força social de sua música, Amaro Freitas carrega em seu som a força de várias representatividades. A cultura nordestina pode ser melodiosa e resistente, tal qual as pedras que suportam as batidas do mar.

> Onde Assistir

Sábado (22/02)
17h - "Rasif" - Amaro Freitas Trio (PE) e "Casa do Blues - 10 anos" - Casa do Blues (CE)
Gratuito. No Teatro Tapera das Artes (Rua Antônio Gomes dos Santos, s/n, Centro, Aquiraz)

Domingo (23/02)
17h - Shows das Cinco: "Elas, o Brasil e o Jazz" - Quinteto Aqualtune (CE) / "Rasif" - Amaro Freitas Trio (PE).
Gratuito. Na Cidade Jazz & Blues (Guaramiranga)