Pesquisa aponta crescimento na venda de livros durante isolamento; livreiros de Fortaleza repercutem

Fevereiro fechou com aumento de 6,29% no quantitativo de vendas em relação a 2020

Legenda: Na Livraria Arte & Ciência, o aumento na venda de livros se deu sobremaneira por conta do e-commerce, principalmente a partir da procura por livros usados
Foto: Fernanda Siebra

À medida que o isolamento compulsório se alonga em todo o País – em face da necessidade de contenção dos efeitos da pandemia de Covid-19 – cresce também o número de pessoas que dedicam mais tempo à leitura. 

É o que atestam os recentes dados da pesquisa Painel de Varejo e Livros no Brasil, realizada pela Nielsen e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). Para se ter uma ideia, o setor fechou o mês de fevereiro com aumento de 6,29% em relação a 2020, o que representa R$ 172 milhões de faturamento.

O número de exemplares vendidos cresceu 18,69% e somou 3,77 milhões de unidades. Por sua vez, com relação ao valor atribuído aos exemplares, o preço médio caiu 10,45%, resultando na quantia de R$ 45,65 por cada título.

O levantamento demonstra ainda que, com o isolamento social, os consumidores passaram a buscar nos livros uma opção de entretenimento viável e plural. O número de ISBNs (International Standard Book Number/ Padrão Internacional de Numeração de Livro), que reflete a quantidade de títulos lançados, aumentou 12,59% no comparativo com o ano passado, indicando, assim, maior variedade por parte das editoras.

Nesse movimento, o Verso conversou com três livreiros de Fortaleza a fim de conferir se os dados refletem a realidade do setor na cidade, dimensionando aspectos que dizem respeito não apenas à pesquisa, mas engendrando outras questões.

Legenda: Apesar da manutenção do negócio, proprietário da Livraria Arte & Ciência calcula que a queda de faturamento foi de 70% desde o início da pandemia
Foto: Fernanda Siebra

Viabilidade pelo e-commerce

Há 32 anos compondo a paisagem livresca da Capital, a Livraria Arte & Ciência é contemplada com os resultados da pesquisa. Proprietário do estabelecimento, Vladimir Guedes afirma que, de fato, houve um crescimento nas vendas, embora apenas por conta da adesão às plataformas de e-commerce.

Além de os consumidores comprarem por meio das redes sociais, o acervo de aproximadamente 80 mil livros da casa – com dois espaços na cidade, um no Centro e outro no Benfica – também está disponível no portal Estante Virtual, ampliando o raio de alcance das obras. “Essa dinâmica de estar no digital certamente ajudou as livrarias que trabalham com essa modalidade, tendo em vista que não são todas”, observa Vladimir.

18,69%
foi o crescimento do número de exemplares vendidos no Brasil, no comparativo entre fevereiro de 2020 e deste ano. O total equivale a 3,77 milhões de unidades

Segundo ele, o carro-chefe da loja sob sua tutela é a venda de livros usados e também a seção de obras raras, outro fator que contribui para que o negócio se mantenha, ainda que diante do nebuloso momento. 

“Se tratando de vendas on-line de livros novos, a concorrência é desleal com relação às grandes redes, como a Amazon. Eles têm uma política predatória, colocando as obras a preços muito baixos, elevando os descontos. Ou seja, não dão espaço para que outros estabelecimentos do segmento se sustentem”.

Não sem motivo, nas últimas semanas, fornecedores da Amazon receberam uma carta propondo um novo acordo para descontos sobre o preço de capa de livros, resultado de intensa mobilização entre editoras nacionais

Para as casas editoriais que vinham praticando descontos inferiores a 55%, a varejista propôs descontos que variam de 55% a 58% mais 5% de “plano de marketing”. Em resposta, um documento foi redigido pelo grupo Juntos pelo Livro, que reúne mais de 120 editoras, alegando que “as condições solicitadas estão muito além das possibilidades”.

“Por esse motivo, a venda de livros novos por livrarias de pequeno ou médio porte, como a minha, é bem pouca. Mas, como a gente também trabalha com livros usados, houve realmente esse aumento indicado na pesquisa”, reitera Vladimir, sublinhando ainda que 70% dos livros vendidos pela casa neste momento acontece pela internet.

Desbalanço de variáveis

Compreendendo que o isolamento otimizou a venda de livros, mas não para todas as lojas  – vide as inúmeras livrarias que já fecharam as portas no Brasil – o livreiro, quando encara o panorama geral da Arte & Ciência durante a pandemia, calcula que a queda de faturamento foi de 70%, tendo em vista que 90% do comércio da casa era efetuado de modo presencial.

“Os 30% que nós estamos conseguindo vender, do que precisaríamos vender, é pela internet, cujo movimento aumentou relativamente. Além disso, também fazemos entrega a domicílio, o que otimiza um pouco as coisas”, considera.

Ele também observa que, neste novo lockdown, a situação ficou mais difícil para a livraria, levando em conta o mesmo período no ano passado. “Eu atribuo essa resposta do público à questão da situação econômica do país, do receio que as pessoas estão tendo de gastar o pouco dinheiro que elas talvez tenham reservado com algo que, de qualquer maneira, não é de primeira necessidade, como é o livro. Elas se retraíram, o que é normal e compreensível”.

Desta feita, a fim de driblar os prejuízos, foram feitas readequações com fornecedores e distribuidores, além de prorrogação de alguns pagamentos, quando possível. O número de funcionários também diminuiu.

Legenda: Com os corredores da Arte & Ciência vazios, perspectivas de vendas são reforçadas no meio virtual
Foto: Fernanda Siebra

“No nosso caso, eu tenho praticamente uma convicção de que a gente vai conseguir sobreviver a essa situação. Internamente, já tomamos algumas medidas para garantir nossa permanência. Mas não está sendo fácil. Tem que ter muita tranquilidade e cabeça fria para, dia a dia, ir driblando as dificuldades”, lamenta.

Resistência em meio ao caos

Semelhante conjuntura é vivenciada pela Livraria Lamarca, também localizada no bairro Benfica. O estabelecimento, inclusive, está posicionado no mercado de forma muito singular. Por estratégia comercial, os proprietários não entraram na disputa com as grandes plataformas de vendas on-line, fazendo com que o faturamento seja muito vinculado à presença das pessoas no espaço físico da livraria. 

Legenda: Por estratégia comercial, os proprietários da Livraria Lamarca não entraram na disputa com as grandes plataformas de vendas on-line, fazendo com que o faturamento seja muito vinculado ao presencial
Foto: Divulgação

Apesar das portas fechadas em mais um período de severas restrições, o grande esforço realizado no ano passado para ampliar o alcance da loja e o engajamento dos clientes deu resultado. A livraria conseguiu manter o faturamento nos dois períodos mencionados.

“De fato, após o retorno às atividades em junho de 2020 até fevereiro de 2021, estávamos conseguindo aumentar ou, no mínimo, manter o faturamento de livros em comparação com o mesmo período de anos anteriores. Ao contrário do momento de isolamento, que fez com que nossas vendas caíssem um pouco, ao passo que nossos custos aumentaram, principalmente com logística e vendas”, explica Guarany Oliveira Marques, livreiro responsável pela casa.

Em comparação entre março do ano passado e o mesmo mês neste ano, ele situa que houve uma queda próxima a 30%, resultado das mesmas percepções de Vladimir: a crise financeira causa um comportamento retraído dos consumidores.

“O crescimento do desemprego, as incertezas em relação à condução da pandemia e a falta de ajuda do governo tem feito com que as pessoas concentrem seus gastos em produtos de necessidade mais básica”, diz. “Além disso, o preço tem cada vez mais peso nas decisões dos consumidores, o que leva as pessoas a preferirem comprar em plataformas que ofereçam maiores descontos, como os grandes sites de venda e os e-commerces próprios das editoras”.

Leitura de ficção

Outro aspecto levantado pela pesquisa da Nielsen que ecoa na realidade das livrarias de Fortaleza é o aumento do consumo de livros de ficção. De acordo com o levantamento, esse foi o segmento que mais cresceu entre os leitores, algo também mensurado pelos proprietários da Arte & Ciência e da Lamarca.

“Sim, as ficções têm mantido um lugar de evidência em nossas vendas. As que falam sobre as questões de gênero, sexualidade e raça têm se destacado. Um dos livros que mais vendemos neste ano foi ‘Primeiro eu tive que morrer’, da escritora cearense Lorena Portela”, cita Guarany Oliveira.

A obra conta a história de uma jovem publicitária que é pressionada a uma pausa e se refugia na vila de Jericoacoara. Sob o sol, entre mergulhos no mar e os temperos daquela terra, e sob a lua, entre gozo e sombra, ela se reconecta com outras mulheres, apaixona-se e vive um comovente e misterioso renascimento.

Guarany ainda aponta outra particularidade dos livros vendidos pela loja. “Nosso público sempre foi composto por pessoas de esquerda, que buscam compreender o mundo por meio de conteúdos produzidos via pesquisas científicas e de reflexões profundas. Neste momento, nossa clientela tem buscado livros como ‘Bolsonaro – o mito e o sintoma’, da editora Contracorrente, mas também tem muita procura por literatura e poesia. Acredito que o momento pede um pouco de leveza até para a militância. A busca por equilíbrio emocional por meio de leituras amenas tem movimentado nossas vendas”.

Legenda: Livros de ficção têm mantido um lugar de evidência nas vendas da Lamarca, em conformidade com resultados da pesquisa
Foto: Divulgação

Dentre tantos aspectos a se observar no atual panorama, fica mais nítido mesmo o quanto o período está sendo duro com todos os pequenos negócios. A Lamarca amarga sucessivos prejuízos desde janeiro, quando as vendas começaram a cair. Somado às dívidas do ano passado e dos investimentos iniciais –  uma vez que a livraria tem menos de cinco anos de vida e ainda estava tentando alcançar equilíbrio financeiro pleno – a queda de faturamento do presente instante tem sido um grande pesadelo. 

“Após sucessivos aportes de capital próprio e de terceiros, estamos sem opção. Assim como para grande parte das pequenas e médias empresas, a única saída é uma ajuda contundente do governo federal – empréstimos às empresas negativadas, possibilidade de pagamento dos funcionários e, principalmente, a dedicação real no combate à Covid-19, com a ampliação da vacinação em todo território nacional”, aponta Guarany.

Abaixo do esperado

A situação não difere do contexto dos sebos, outro importante braço do comércio de livros na Capital. O JD Livros, por exemplo, localizado no centro de Fortaleza, avalia que, apesar do susto com a nova realidade imposta pela pandemia, em 2020 as vendas aumentaram significativamente. O feito, contudo, parece não seguir o mesmo curso neste ano.

“Em 2021, ainda não senti um grande aumento com relação às vendas por aqui”, percebe Janderson Duarte, responsável pelo sebo. “Porém, percebo, sim, que as pessoas acabam lendo mais nesse período de confinamento”.

Legenda: Em 2020, as vendas do sebo JD Livros aumentaram significativamente; o feito, contudo, parece não seguir o mesmo curso neste ano
Foto: Divulgação

A questão já mencionada pelos livreiros da Arte & Ciência e da Lamarca se repete na fala de Janderson: muitos clientes esbarram na falta de dinheiro para adquirir obras em brochura com medo de que o recurso monetário falte para algo mais essencial, a exemplo de alimentos e medicamentos.

Ainda assim, questionado sobre que tipos de livros estão sendo procurados neste momento, o livreiro destaca aqueles que tratam de assuntos relacionados a desenvolvimento pessoal, auto ajuda e empreendedorismo. “São inúmeros títulos nesse seguimento procurados diariamente. Mas o carro-chefe mesmo ainda são as obras de literatura clássica nacional e estrangeira”, sublinha.

Legenda: Uma das estratégias para resistir diante do panorama é o uso das redes sociais. Nesse sentido, o instagram do sebo tem dado um bom retorno no que toca à procura pelos livros.
Foto: Divulgação

Tratando-se de ficção, livros adaptados para o cinema e para a TV igualmente ganham destaque, a exemplo da saga Crepúsculo, escrita pela americana Stephenie Meyer. “Alguns autores mais clássicos também são bem desejados, como Agatha Christie, Dostoiévski, Machado de Assis, Thomas Mann… A lista é bem extensa”.

Uma das estratégias para resistir diante do panorama é o uso das redes sociais. Nesse sentido, o instagram do sebo tem dado um bom retorno no que toca à procura pelos livros. Num cálculo rápido, Janderson afirma que, no início da pandemia, o perfil tinha aproximadamente 600 seguidores; agora, possui mais de quatro mil.

“Não são números absurdos, mas, para nós, foi bem significativo, pois conseguimos fazer vendas pelo Instagram e trabalhar com o serviço de delivery. Neste ano, contudo, apesar da boa marca de pessoas acompanhando a gente por lá, esse número não aumenta como aumentou em 2020”, situa.

Serviço
Acompanhe os estabelecimentos mencionados nas redes sociais
Livraria Arte & Ciência: @arteeciencia, no instagram. WhatsApp: (85) 98768-2261
Livraria Lamarca: @livraria.lamarca, no instagram. WhatsApp: (85) 98614-4125
Sebo JD Livros: @jd_livros, no instagram. WhatsApp: (85) 98761-5777

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