No disco 'Madame X', Madonna retorna provocativa e universal

Cantora mergulha nas influências musicais de diferentes países e continua uma artista perigosa para a caretice

Legenda: Madonna lança "Madame X", seu 14º disco de estúdio
Foto: Foto: Divulgação

O 14º disco de estúdio de Madonna ilumina uma artista ainda interessada em arriscar. Concentrada na perspectiva de se opor ao lugar comum, essa mulher construiu legado único no universo do entretenimento. "Madame X", o disco, denuncia severamente tal perspectiva. Se lança como um dos trabalhos mais universais dentro da discografia iniciada em 1983. O tesão da diva pop é ser global e beber da interferência de outras culturas.

Como todo produto da grife Madonna, o álbum lançado oficialmente na última sexta-feira (14) foi cercado por inúmeras expectativas. A principal delas era saber quais caminhos sonoros a realizadora entregaria ao mercado. Morando atualmente em Lisboa, Portugal, os novos ares influenciariam no resultado? Como a rainha do pop dialogará com o atual cenário da indústria musical? As respostas estão entranhadas nas 15 canções do disco.

Na recente era do streaming, calcificada pelo acirramento dos singles e uma audição cada vez mais dispersa, entregar um trabalho com mais de uma hora de duração tem se tornado algo raro entre os astros da música. Aos 60 anos, essa entidade opta por continuar perigosa. Madonna é conflito, ruptura. Lá fora, habita um mundo bem diferente dos anos 1980 ou 1990. Mais conectado, porém ainda cínico e violento. "Madame X" revela sombras. Esgarça zonas periféricas. É político ao mediar fúria e parcerias com outras mentes criativas.

Legenda: Cantora durante o ensaio fotográfico do single "Medellín"
Foto: Foto: Divulgação

A dançante "Medellín" conta com a parceria do rapper colombiano Maluma (ele repete a dobradinha na fraquinha "Bitch I'm Loca") e reverbera uma atmosfera totalmente oposta à "Dark Ballet". Tema caro na trajetória da cantora, o fanatismo religioso é atacado. Determinado trecho da peça evoca os maneirismos líricos de Wendy Carlos. Completa a obra o videoclipe, no qual Joana D'Arc é personificada por Mykki Blanco, referência da cena musical conhecida como "queer rap" nos Estados Unidos.

A longa "God Control" (seis minutos) mistura coros e uma deliciosa batida disco. Nada mais do que isso. A misteriosa Madame X, novo alter ego de Madonna, conduz e costura as peças. Na seguida temos o reggaetown de "Future" (com participação de Quavo).

"Batuka" é experimental e emula superficialmente batidas de matriz africana. A balada "Killers Who Are Partying" coloca o ouvinte em outra sintonia. Violões, quase um fado. "Crave" soa plastificada e o reforço de outro carinha do rap, Swae Lee, não salva a equação.

Em outro tom, "Crazy" absorve um trip hop esquisito e deslocado. O termo loucura é recorrente no disco. "Eu te amo, mas não vou deixar você me destruir", canta em belo português. "Come Alive" dissemina um pop etéreo e alicerçado pelo trabalho dos sinths.

Batidão do funk

"Faz Gostoso" traz a aguardada parceria de Madonna com Anitta. O funk é uma releitura do hit europeu assinado pela cantora Blaya, artista nascida em Fortaleza e radicada em Portugal. O gênero musical brasileiro entra de vez no mapa do pop mundial. Apesar de um ou outro arranjo excessivo, a faixa é um dos destaques de "Madame X".

A oitentista "I Don't Search I Find" é um acerto no conjunto. "I Rise" mantém o nível da anterior e finaliza de forma positiva a mais nova obra de Madonna. Mais duas faixas extras podem se encontradas nas plataformas de streaming, "Extreme Occident" e "Looking for Mercy".

"Madame X" remete diretamente a um registro raro, por apresentar uma realizadora veterana em busca de novas experiências sonoras. Com mais de quatro décadas de labuta no show business, Madonna construiu a imagem sacra de uma criadora antenada com as possibilidades do underground. Dessa vez, ela abraça um mundo distante dos EUA. A estrela se mostra ciente da agitação política e social que dissolve os últimos anos da era 2000. Estamos diante de uma estrela incomodada e ainda disposta a bater de frente com a caretice.

É a melhor obra da cantora? Difícil precisar diante de uma trajetória tão luminosa. Uma verdade, Madonna Louise Veronica Ciccone segue complexa. Perigosa.

Confira as faixas de "Madame X": 

1. Medellín

2. Dark Ballet

3. God Control 

4. Future 

5. Batuka 

6. Killers Who Are Partying

7. Crave 

8. Crazy 

9. Come Alive  

10. Faz Gostoso (feat. Anitta)

11. Bitch i’m Loca (feat. Maluma)

12. I Don’t Search I Find

13. I Rise 

 

 

 

 

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