Importante voz do movimento LGBTQIAP+ no Ceará, Yara Canta fala sobre trajetória em série documental

Programa do Centro Cultural Porto Dragão vai ao ar neste sábado (4), contemplando os projetos, sonhos e desafios da multiartista

Legenda: Coordenadora e integrante de células especiais de luta em prol dos direitos de travestis e transexuais cearenses. Yara Canta iniciou o enlace com a arte aos 18 anos
Foto: Estúdio Mateus Monteiro/Divulgação

Feito um sonho, algo muito distante de alcançar. É esse o sentimento de Yara Canta ao participar do mais novo programa da série documental “Nós no Batente”, capitaneada pelo Centro Cultural Porto Dragão. O episódio vai ao ar neste sábado (4), às 18h, no canal do YouTube do equipamento, apresentando a trajetória da multiartista, uma das vozes mais importantes do movimento LGBTQIAP+ no Ceará.

Segundo Yara – mulher transexual responsável por alicerçar diversas iniciativas e debates no campo da arte e do gênero – foi muito bom fugir do óbvio no programa, podendo mostrar um lado desenvolvido por ela na moda que ainda não é tão conhecido do grande público. “Estou no processo de aprender melhor a criar moda e a costurar”, diz.

“A minha participação foi boa também para mostrar que esse movimento de aprendizado tem sido com outras travestis e transexuais, por meio do curso de costura que a Casa de Andaluzia oferece especialmente para mulheres trans e travestis. Mas no episódio tem muito mais, eu trouxe a minha mãe também, que foi algo muito lindo pra mim”, detalha.

Coordenadora Geral da Associação de Travestis e Mulheres Transexuais do Ceará (ATRAC) e integrante do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negros e Negras (Fonatrans), Yara Canta iniciou o enlace com o segmento artístico aos 18 anos. De lá para cá, já assinou inúmeras ações em distintas linguagens, a exemplo de teatro, música, produções culturais e, mais recentemente, conforme já adiantou, moda.

Legenda: O orgulho de ser quem é e de tocar tantos projetos de valorização e visibilidade à causa LGBTQIAP+ se configura como uma das expressões mais genuínas de Yara Canta
Foto: Divulgação

Não à toa, sendo o “Nós no Batente” uma série voltada para apresentar o viver de arte de múltiplos modos, ela dimensiona como a pandemia de Covid-19 tem atravessado seus amplos ofícios. “O início foi algo bem desesperador para mim, pois estava em plena produção, começando um coletivo artístico novo, ensaiando espetáculo, cantando... Enfim, estava atuando em vários projetos diferentes”, situa.

A notícia sobre a necessidade de pausa compulsória chegou quando a artista estava no palco, em março do ano passado, às vistas de apresentar o espetáculo “Toró” – trabalho de conclusão da turma noite de 2019 do Curso de Princípios Básicos de Teatro (CPBT), do Theatro José de Alencar. “Assim, passei muitos meses realmente em casa tentando me adaptar às lives e a essa forma virtual de fazer arte. É um grande desafio e continua sendo”.

“Mas, com o tempo, fui fazendo algumas outras coisas também, como o desfile pro DFB Festival; estive em um projeto de dança; gravei filme; participei de um projeto de moda, cantei, atuei”, enumera. Também se aproximou muito mais de movimentos sociais, o que a fez associar-se à ATRAC e ao Fonatrans, células especiais de luta em prol dos direitos de travestis e transexuais cearenses. 

Processos criativos

No momento, ela assume o posto de monitora da nova turma do CPBT Noite, de forma virtual, colhendo os frutos de todo o esmero na arte de representação cênica. Ainda assim, não cessa de tecer reflexões sobre o atual período para a arte e a cultura de um modo geral.

“Acho que um dos maiores desafios de fazer arte na pandemia, nesse formato onde não se pode estar tão perto um do outro é, além do medo pela doença e como isso afeta nossa saúde mental, também a comunicação e a conexão com as pessoas. Acredito que isso deixa qualquer processo criativo muito mais complexo e difícil”, observa.

Nada que desmorone as empreitadas já iniciadas e as que ainda estão por vir no front. O orgulho de ser quem é e de tocar tantos projetos de valorização e visibilidade à causa LGBTQIAP+ no Ceará se configura como uma das expressões mais genuínas de Yara Canta. O principal foco em praticamente qualquer trabalho que efetua é justamente fazer algo no sentido de que outras travestis, mulheres transexuais e pessoas trans, especialmente negras, possam perceber que é possível elas prosperarem.

Legenda: "Trago a minha força e o meu foco para construir novas narrativas, que não sejam pautadas nas nossas mortes, mas sim nas nossas vidas", afirma a multiartista
Foto: Reprodução/Instagram

No mais recente episódio do “Nós no Batente”, por exemplo, ela traz a própria mãe, Maria Dolores, num momento em que estão preparando um vatapá para almoçar. “É algo que parece tão simples, né? Mas que, para muitas de nós, é impossível porque vivemos em um mundo que ainda continua a nos excluir das nossas famílias, da sociedade, da escola, de tudo”, lamenta.

“Nós enfrentamos um processo de exclusão constante. E eu acho que trazer minha mãe para um momento de afeto como esse que eu citei é ir contra esse processo. É mostrar, inclusive para outras mães ou famílias, que esse processo de exclusão deve ser parado”.
Yara Canta
Multiartista

Construção de novas narrativas

Questionada sobre a relevância da militância LGBTQIAP+ no Brasil – sobretudo considerando as tristes estatísticas relacionadas à violência contra essa comunidade – Yara volta-se para o mais profundo de si na intenção de afirmar: é muito difícil estar em um local próximo da morte.

Legenda: O principal foco de Yara Canta é fazer com que outras travestis, mulheres transexuais e pessoas trans, especialmente negras, possam perceber suas potencialidades
Foto: Divulgação

“É exaustivo e doloroso contabilizar as mortes das suas iguais – ao mesmo tempo que é um trabalho necessário, a fim de cobrarmos mudanças nas leis e em toda a estrutura que vivemos. Mas eu acho que é justamente por isso que pego essa minha dor, minha revolta, meu ódio e direciono para a construção de um novo mundo. Trago a minha força e o meu foco para construir novas narrativas, que não sejam pautadas nas nossas dores, nas nossas mortes, mas sim nas nossas vidas e nas coisas boas que vivemos ou que gostaríamos de viver”.

Todo esse vigor não esconde a ansiedade para a exibição de logo mais do programa realizado pelo Porto Dragão. Estar junto do “Nós no Batente” acendeu novo fôlego e energia para continuar. “Queria ter trazido meu pai também para o episódio, mas, na correria do dia da gravação, não deu certo”, confessa.

“Hoje eu vou trabalhar o dia todo, ensaiando para um filme que gravarei em breve, então não sei se consigo assistir ao lançamento ao vivo, com a minha família. Mas, com certeza, vamos nos juntar na sala depois e conferir juntos”. Uma trajetória que, de fato, vale a pena conhecer – e, de preferência, em conjunto – para irromper em vastas inspirações.

 

Serviço
Estreia do episódio 2 da terceira temporada do programa “Nós no Batente”, com Yara Canta
Neste sábado (4), às 18h, no canal do YouTube do Centro Cultural Porto Dragão

 

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