Espetáculo infantil usa linguagem lúdica para discutir diversidade racial

Disponível de forma gratuita, a peça traz a história de uma menina que não entende o conceito de raça e escolhe a cor marrom para descobrir a sua identidade

Esta é uma imagem do espetáculo Marrom – Nem preto, nem branco?
Legenda: Espetáculo "Marrom – Nem preto, nem branco?" discute diversidade em linguagem lúdica
Foto: Guilherme Miranda/Divulgação

Com intuito de quebrar barreiras sociais e discutir sobre a pluralidade de tons de pele que existem no Brasil, o espetáculo “Marrom – Nem preto, nem branco? ” apresenta a história de Linda, uma menina de oito anos que não entende o conceito de raça, só de cor e acaba se definindo como marrom durante a construção da sua própria identidade. A peça infantil está disponível de forma gratuita até 25 de fevereiro no YouTube.

Inspirada em uma história real, o espetáculo parte de relatos da atriz Vilma Melo, uma mulher preta casada com um homem branco, descendente de alemão, cuja união gerou dois filhos: um menino e uma menina. Como a garota não era branca igual ao pai, nem preta como a mãe, Vilma relembra que a filha passou a se questionar em busca da própria identidade.

"Quando ela era bem pequena, um dia eu falei mais brava com ela: 'tá bom, você não é preta. Você é branca igual ao seu pai?'. Ela fez uma negativa com a cabeça, correu e pegou um lápis de cor ocre e me mostrou: 'Eu sou isso aqui mamãe', com os olhos cheios de lágrimas. Aquilo me fez entender que tinha uma crise de identidade, ela não se enquadrava. Criança não tem esse conceito de raça. Nem esse conceito de cor. Ela não se via nem igual a mim, que era preta, retinta, ou igual pai, que era branco", conta Vilma.

Então, das vivências de Lorena de Melo Schaefer nasceu a personagem Linda, pelo texto da autora Renata Mizrahi. No espetáculo, os sentimentos da protagonista afloram quando uma professora pede uma redação sobre identidade. Aluna de uma escola alemã no Rio de Janeiro, por conta da descendência do pai, o estopim acontece quando outro professor pede um trabalho sobre contos de fada, e uma amiga de Linda, branca, loira e de olhos claros, sugere que a princesa não poderia ser Linda devido às suas características físicas. 

Para fugir dos estereótipos, Linda encontra na “Terra do Marrom”  um refúgio onde todos são iguais e marrons. “Na Terra do Marrom, ela encontra todo mundo igual. Não tem mais cara, nem corpo, são pedras. Você perde completamente a sua identidade. Isso é uma piração da cabeça dela. A terra do marrom é uma tomada de consciência dela. (...) Não existe esse lugar onde todo mundo é igual. Então a gente tem que aprender a viver com as diferenças e aprender a se impor nas diferenças”, explica Renata.

Ao notar que se todos fossem iguais, o mundo não teria sentido, Linda encontra no amor e na estrutura familiar, forças para se empoderar e construir uma sociedade melhor. A partir desse contexto, o espetáculo se propõe a promover reflexões no público infantil, de modo a evidenciar a reprodução dos discursos frutos do racismo estrutural presente na sociedade brasileira. 

“A maioria dos desenhos são (com personagens brancos) brancos. As princesas também são brancas, não só brancas, mas também magras e esbeltas. Isso vai entrando no inconsciente da criança, e elas reproduzem aquilo que elas estão vivendo. Quando a criança vê essa peça, ela também vai refletir sobre esse mundo, que não é um mundo inclusivo, que na verdade é um mundo excludente, que apesar de estar tentando se retratar historicamente tem muito caminho pela frente”, afirma a autora. 

Para escrever o texto do espetáculo, Renata Mizrahi conta que procurou uma consultoria de conteúdo com a socióloga Cristina Lopes, mulher negra, a qual trouxe questões pontuais na peça que tornavam a linguagem compreensível ao público infantil. “Uma das coisas que achei importante foi colocar música e humor, tratar o tema com delicadeza, para que seja acessível, mas que também não deixasse de tocar no ponto, na ferida”, diz a autora. 

Luta de gerações

O espetáculo  “Marrom – Nem preto, nem branco?” torna a história ainda mais especial porque a personagem Linda é interpretada pela própria Vilma, idealizadora da peça e personagem real dessas vivências. Para a dramaturgia, ela afirma que uniu as vivências dela como mãe de uma menina preta e a sua experiência como mulher preta em uma sociedade racista. 

“É misto porque algumas histórias são minhas, pessoais também, porque eu sou mais preta do que ela. É uma questão de privilégios. É o tal do colorismo. Quanto mais claro você é dentro da sociedade, mais privilégios você tem. Quanto mais preto você é, menos privilégios você tem. É muito triste eu pensar que a gente ainda tem que falar sobre isso em 2021, mas ao mesmo tempo é um prazer enorme falar sobre isso e usar isso para modificar a sociedade”, relata Vilma.

Pelo fato da peça ser direcionada ao público infantil e de ter sido construída para provocar reflexões sobre o racismo estrutural, Vilma acredita que “Marrom – Nem preto, nem branco?” já está propagando o papel da arte ao modificar a vida das pessoas

“Teve uma vez, em uma das temporadas, que uma menina, amiga da minha filha, na escola dela também não tinha pretos,  virou pra mim e falou: ‘Tia, desculpa. Eu não sabia que tinha feito tão mal a Lorena’. Houve uma identificação para as crianças pretas que viviam aquela situação, e as crianças brancas identificavam coisas que elas faziam apenas por reproduzir. Ela não está fazendo porque é malvada. Uma criança de dois anos não é malvada, uma criança de dois anos não é racista, ela reproduz os parâmetros da sociedade. Acho que a gente tocou em um ponto muito crucial. Até hoje a gente é muito feliz de estar podendo levar (essa discussão) e modificar vidas, que é esse é o papel da arte”, acredita. 

Serviço

 “Marrom – Nem preto, nem branco?”

Disponível até 25 de fevereiro, no YouTube. Gratuito.

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