Autor da trilha de ‘Os Trapalhões’, cearense Zé Menezes é homenageado em festival de choro

Centenário do músico instrumentista, natural do município de Jardim, é celebrado em setembro deste ano

Legenda: José Menezes de França (1921-2014), o Zé Menezes, deteve singular prestígio na música popular brasileira
Foto: Acervo/Site Zé Menezes

A partir de março de 1977, pontualmente às 19h, bastava sentar no sofá para dar de cara com as situações absurdas vivenciadas por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Já na abertura de “Os Trapalhões”, o quarteto fugia da perseguição de um tubarão, atravessava o sertão com trajes de cangaceiros e subia a bordo de um navio pirata, para a alegria dos espectadores.

Outro elemento fundamental responsável pela magia desse momento era a trilha sonora – que anunciava, ao longe, o início da atração dominical. O inesquecível trabalho foi concebido pelo cearense José Menezes de França (1921-2014), o Zé Menezes, outrora diretor musical na Rede Globo, onde ingressou na mesma década de estreia do programa.

O aclamado músico instrumentista – também à frente de vinhetas dos igualmente humorísticos “Chico City” e “Viva o Gordo”, por exemplo – volta a ganhar notoriedade  nesta semana ao ser homenageado pelo III Festival da Casa do Choro, centro cultural localizado no Rio de Janeiro. A deferência acontece em virtude do centenário de nascimento do artista, celebrado em setembro deste ano.

Gratuita e virtual, a programação acontece a partir desta segunda-feira (19), seguindo até 23 de abril. A culminância se dá exatamente no Dia Nacional do Choro, reverenciado gênero da música popular e instrumental brasileira. Até lá, workshops de formação e shows de nomes como Luciana Rabello, Cristóvão Bastos, Mauricio Carrilho, Jayme Vignoli e Rui Alvim, tratarão de imergir o público na cena dedicada à longeva sonoridade.

Todas as apresentações serão transmitidas por meio da plataforma Casa Do Choro Digital. As atividades iniciam com aulas de instrumento, na parte da manhã, e de prática de conjunto, à tarde. Por sua vez, os shows, no período noturno, evidenciam a produção de novos compositores e prestam tributo a Dominguinhos (1941-2013) – que completaria 80 anos em 2021 –  e ao já citado Zé Menezes.

Legado de sucesso

Natural do município de Jardim, distante pouco mais de 63 quilômetros de Fortaleza, Zé Menezes dedicou-se de forma plural à música. Tocava violão de seis e de sete cordas, violão tenor, viola de 10 cordas, guitarra amplificada, guitarra portuguesa, bandolim, banjo, cavaquinho e contrabaixo.

Legenda: Zé Menezes dedicou-se de forma plural à música: tocava violão de seis e de sete cordas, violão tenor, viola de 10 cordas, entre outros instrumentos
Foto: Acervo/Site Zé Menezes

O interesse pelo universo sonoro nasceu na infância. Ficou famoso na terra natal ao compor a primeira música, “Meus Oito Anos”, a qual apresentou perante o Padre Cícero (1844-1934). Na sequência, foi convidado pelo maestro Arlindo Cruz para tocar profissionalmente em um cinema de Juazeiro do Norte. Tinha 10 anos. Aos 11, passou a integrar a Banda Municipal da cidade.

De passagem várias vezes por Fortaleza, o músico chegou a se dedicar ao ofício de alfaiate. Contudo, por volta de 1940, foi contratado como segundo violonista pela Ceará Rádio Clube, formando o próprio grupo musical, com o qual se apresentou na emissora durante quatro anos.

A saída do Ceará aconteceu aos 22 anos, em 1943. O radialista César Ladeira (1910-1969) o ouviu tocar e convenceu o jovem a seguir carreira na até então capital federal, o Rio de Janeiro. Na cidade, angariou prestígio como solista e, em 1945, formou o “Conjunto Milionários do Ritmo”. Dois anos depois, Zé Menezes foi contratado pela Rádio Nacional.

O samba “Nova Ilusão” – composto em parceria com Luiz Bittencourt, com quem assinou vários sucessos – foi sua primeira canção gravada. À frente do registro, estava o grupo “Os Cariocas”. Da oportuna parceria com Bittencourt, se destacam ainda o samba-canção “Mais uma ilusão”, e os choros “Sereno”, “Comigo é assim” e “Seresteiro”.

Além-fronteiras

A qualidade e repercussão de “Nova Ilusão” foi tão grande que a canção chegou a ser gravada em inglês pelo cantor e trompetista americano Billy Eckstine (1914-1993). Por sua vez, no Brasil, Tom Jobim (1927-1994) foi um dos grandes nomes da música que gravou composições do cearense.

Ainda na Rádio Nacional, Zé Menezes conheceu o maestro Radamés Gnattali (1906-1988), o mesmo que, em 1949, convidou-o para integrar o “Quarteto Continental”, tocando guitarra. O grupo era composto pelo próprio Radamés ao piano, Luciano Perrone (bateria) e Pedro Vidal Ramos (contrabaixo). 

Legenda: Com mais de oito décadas de vida, nos anos 2000, Zé Menezes ainda lançou o projeto “Zé Menezes – Autoral”
Foto: Acervo/Site Zé Menezes

A partir de 1951, o Quarteto passou a mudar a configuração, tornando-se primeiro um Quinteto – com a entrada de Chiquinho do Acordeom – e depois um Sexteto, com a chegada de Aída Gnattali. A formação excursionou pela Europa em 1960, apresentando-se em Paris, Londres, Oxford, Roma, Lisboa e Porto.

Naquela mesma década, o declínio das emissoras de rádio, diante do iminente avanço da televisão, fez o artista mudar de atividade. Zé Menezes passou a ser maestro na RCA Victor, além de arranjador de um time de estrelas da MPB, que incluíam Gilberto Milfont, Miúcha, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, entre outros.

Foi também naquela época que ele criou o grupo “Os Velhinhos Transviados”, que se consagrou por criar paródias de músicas antigas e modernas. Ao todo, a agremiação musical lançou 13 LPs até 1971.

Energia para criar

Foi na Rede Globo que o músico se aposentou, após começar a trabalhar na empresa na década de 1970. Iniciou como primeiro guitarrista, ocupando, em seguida, os cargos de maestro, arranjador e diretor musical

Com mais de oito décadas de vida, nos anos 2000, Zé Menezes ainda lançou o projeto “Zé Menezes – Autoral”, que contemplava a gravação de três CDs e o registro em CD-Room de seus acervo digitalizado, incluindo partituras e suas composições.

O instrumentista faleceu no dia 31 de julho de 2014, em Teresópolis, no Rio de Janeiro, deixando, assim, um farto legado para a música nacional.


Serviço
II Festival da Casa do Choro
De 19 a 23 de abril, de 10h às 21h, por meio deste link. Gratuito.

> Programação de aulas

Dia 19 de abril, às 15h: Principais Conjuntos da História do Choro, com Luciana Rabello e Sergio Prata
Dia 20 de abril, às 15h: História da Percussão nos Conjuntos de Choro, com Marcus Thadeu e Gabriel Leite
Dia 21 de abril, às 15h: Composições e Arranjos para juntar músicos, com Mauricio Carrilho e Jayme Vignoli
Dia 22 de abril, às 15h: Os Flautistas e os Conjuntos de Choro, com Tomaz Retz e Leo Miranda
Dia 23 de abril, às 15h: As Orquestras de Choro, com Pedro Aragão e Paulo Aragão

> Programação de shows

Dia 19 de abril, às 21h: Homenagem a Zé Menezes e Dominguinhos com mestres da Escola Portátil de Música
Dia 20 de abril, às 21h: Mostra de Compositores, uma seleção da produção atual de novos compositores do choro
Dia 21 de abril, às 21h: Trio Julio, com Maycon Julio (bandolim), Marlon Julio (violão) e
Magno Julio (percussão)
Dia 22 de abril, às 21h: João Lyra (violão) e João Camarero (violão)
Dia 23 de abril, às 21h: Cristóvão Bastos (piano), Mauricio Carrilho (violão) e Rui Alvim (clarinete).

> Programação de rodas de choro

Dias 19, 21 e 23 de abril, com apresentação de Pedro Paulo Malta no Instagram @casadochoro

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