As cinco músicas mais tocadas de Belchior

Nas plataformas de streaming, canções como “Apenas um rapaz latino-americano” e “Sujeito de sorte” despontam na preferência do público

O cantor Belchior
Legenda: Cancioneiro do cearense entoar as angústias e amores do ser vivente, projetando-se pela topografia sentimental de uma nação inteira
Foto: Ilustração de Lincoln Souza

Faz quatro anos que Belchior (1946-2017) partiu, mas ficou. O cortejo ao redor do homem-lenda e do farto legado ao cancioneiro nacional não enfraquece nem se esgota. Está na fala nostálgica dos mais velhos e na boca escancarada da juventude. Mora na diversidade dos LPs e na reprodução automática dos catálogos digitais.

Por sinal, tomando como referência as músicas mais tocadas nas plataformas de streaming, não restam dúvidas de que “Alucinação” é o disco favorito dos fãs. Lançado em 1976, o segundo álbum do cantor e compositor cearense marcou a estreia do artista em uma grande gravadora, a Polygram.

O disco foi produzido por Marco Mazzola – que tem, no currículo, nomes como Jorge Ben, Gal Costa, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Elis Regina, entre outros. Com ares de superprodução, contou com músicos que tocavam ao lado de Raul Seixas e Roberto Carlos.

As cinco músicas mais tocadas de Belchior

A seguir, você confere um apanhado com as cinco músicas mais tocadas do cantor.

1. Apenas um rapaz latino-americano

Mas trago de cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino tudo é maravilhoso

Um dos maiores sucessos do artista, foi composta no período da ditadura militar no Brasil. Não à toa, expressa, com voracidade, os sentimentos da nação naquele duro instante de silenciamento. Belchior se vale um pouco da própria história e do que observa do panorama vigente para tecer, em voz e melodia, o que singrava no peito.

À época, impedidos de criticar a política do país, os intérpretes de canções eram tratados como principais opositores ao regime militar. Para Belchior, eles eram apenas rapazes latino- americanos, que não tinham muito dinheiro e não estavam satisfeitos com o que viam.

2. Sujeito de sorte

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Composta em 1973, quando Belchior residia na capital paulista, “Sujeito de sorte” é uma das canções mais presentes no grito contemporâneo da juventude. O retorno dos discos de vinil como tendência de consumo e o diálogo que a canção estabelece, em vários níveis, com a situação sociopolítica nacional, são fatores que a projetam hoje como guia e hino.

Intercruzando amargura e esperança, a letra da música – conforme expressou Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior, em uma entrevista – “renova a fé de certos grupos em agir como um coletivo político ativo”.

3. Alucinação

Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto, ou oba-oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos, sonhos matinais

Do disco homônimo de 1976, a canção é um convite para viver a vida cotidiana, bem como traça uma análise perspicaz da realidade. Quando entoa, por exemplo, “A solidão das pessoas dessas capitais”, Belchior desenha, de forma ampla, o sentimento que o atravessa e é compartilhado pela maioria das pessoas naquele período, ligado à urbanidade.

Ao mesmo tempo, quando diz “E meu delírio/ É a experiência/ Com coisas reais”, percebe-se que a alucinação do artista é concreta, material, ordinária. Não um salto para uma experiência etérea, mas, no lugar, um chamado para o instante presente. Uma verdadeira radiografia de um amargo cenário.

4. Coração selvagem

Mas quando você me amar
Me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar

A canção é apontada por muitos críticos como um dos ápices de um Belchior compositor, filósofo e discreto cronista de um cotidiano cruel, que se insinuava sobre o País em 1977, ano de lançamento do álbum homônimo à música.

A interpretação do cearense também é um dos maiores momentos do blues made in Brazil, temperado por versos poderosos, como “Não quero o que a cabeça pensa/ Eu quero o que alma deseja/ Arco-íris, anjo rebelde/ Eu quero o corpo, pois tenho pressa de viver”.

5. Como nossos pais

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida

Imortalizada na interpretação de Elis Regina (1945-1982), a música, nas palavras do próprio Belchior durante entrevista para o professor Pasquale Cipro Neto, “surgiu da vontade explícita, direta, de fazer uma canção ácida, um pouco amarga, reflexiva sobre essa condição sempre mutante do jovem na era da comunicação”.

Não sem motivo, a poesia assumida por entre os versos alcança um caráter universal por dialogar com as necessidades e realidades de muitos jovens indivíduos, um misto de sentimentos que igualmente percorria o coração do poeta compositor.

Quantas músicas Belchior já gravou?

No total, entre canções autorais e perfomances como intérprete, foram 190 músicas gravadas pelo cantor e compositor cearense ao longo de uma carreira reverenciada dentro e fora do Brasil, revisitada constantemente por fãs e pesquisadores.

Uma discografia que entoa as cores, angústias e amores do ser vivente, projetando-se, em alta voz, pela topografia sentimental de uma nação inteira. No livro de Jotabê Medeiros, “Belchior - Apenas um rapaz latino-americano” (Todavia, 2017), é possível conferir o panorama completo dos trabalhos, a exemplo dos discos oficiais, participações em álbuns de outros intérpretes, entre outras seções.

Qual é a sua música favorita de Belchior?

Nesse movimento de tributo a Belchior, o Verso quer saber: qual a música do cearense que mais atravessa o seu coração? Abaixo, você pode escolher entre sete canções, selecionadas a partir da maior recorrência de reprodução nas principais plataformas de streaming.

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