Telescópio Hubble detecta anã branca que pode ter 'engolido' corpo gelado semelhante a Plutão

O objeto celeste observado está localizado na Via Láctea, a aproximadamente 255 anos-luz da Terra

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Redação producaodiario@svm.com.br
Estrela anã branca brilhante à esquerda, cercada por um cinturão de asteroides e cometas em desintegração. Os fragmentos rochosos e gelados se estendem pelo espaço, deixando rastros azulados enquanto se movem em direção à estrela.
Legenda: A anã branca é o remanescente de uma estrela que possuía cerca de 50% mais massa que o Sol.
Foto: Snehalata Sahu/University of Warwick/via Reuters

Astrônomos observaram, com auxílio do telescópio espacial Hubble, uma anã branca que teria consumido um corpo gelado parecido com Plutão. A descoberta, publicada neste mês no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, pode fornecer pistas sobre a existência de planetas habitáveis fora do Sistema Solar.

O objeto celeste observado está localizado na Via Láctea, a aproximadamente 255 anos-luz da Terra. Essa distância equivale a cerca de 2,4 quatrilhões de quilômetros, considerando que um ano-luz corresponde a 9,5 trilhões de km.

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A anã branca é o remanescente de uma estrela que possuía cerca de 50% mais massa que o Sol. Atualmente, embora tenha o diâmetro aproximado da Terra, é cerca de 190 mil vezes mais massiva do que nosso planeta.

Anãs brancas são núcleos estelares densos, formados após estrelas como o Sol queimarem todo o seu hidrogênio e passarem por uma fase de expansão, conhecida como “gigante vermelha”. Após perderem suas camadas externas, essas estrelas deixam para trás um núcleo extremamente compacto.

De acordo com os cientistas, o próprio Sol deve encerrar sua vida dessa forma — mas apenas dentro de bilhões de anos.

Pesquisas anteriores já haviam revelado que anãs brancas podem atrair e engolir corpos rochosos, como asteroides e planetas. Esses eventos são identificados por meio da análise da composição química na superfície da anã branca.

Neste novo caso, entretanto, a assinatura química detectada indica que o objeto consumido não era rochoso, mas gelado. Os pesquisadores suspeitam que se tratava de um mundo semelhante a Plutão, cujos fragmentos foram puxados pela gravidade da estrela.

“A anã branca provavelmente engoliu fragmentos da crosta e do manto de um mundo gelado semelhante a Plutão”, afirmou Snehalata Sahu, pós-doutoranda em astrofísica na Universidade de Warwick, no Reino Unido, e autora principal do estudo.

O coautor da pesquisa, Boris Gänsicke, também da Universidade de Warwick, ressaltou que o corpo consumido poderia ser apenas um fragmento de um planeta, desprendido após uma colisão.  

Não é um cometa

Os cientistas descartaram a possibilidade de o objeto ser um cometa, com base na composição química encontrada. A análise indicou uma elevada abundância de nitrogênio, incompatível com a de cometas típicos.

A evidência principal vem da alta abundância de nitrogênio, muito maior do que a encontrada em material cometário típico e compatível com os gelos ricos em nitrogênio que dominam a superfície de Plutão, esclareceu Sahu.

A detecção foi possível graças ao espectrógrafo de origens cósmicas do Hubble, instrumento especializado em analisar luz ultravioleta para estudar galáxias, estrelas e sistemas planetários distantes.

Segundo os pesquisadores, a quantidade de material que cai continuamente sobre a anã branca equivale a uma baleia-azul adulta sendo "engolida" a cada segundo, em um processo que já dura pelo menos 13 anos.

A descoberta reforça a hipótese de que corpos gelados semelhantes aos encontrados no Sistema Solar também existem em outros sistemas planetários.

“No nosso sistema solar, acredita-se que cometas e outros corpos gelados desempenharam papel crucial ao levar água para os planetas rochosos, incluindo a Terra. Além da água, também trouxeram compostos voláteis e orgânicos, como carbono e enxofre, essenciais para a química prebiótica e, em última instância, para o surgimento da vida”, disse Sahu.

Ela acrescentou ainda que a identificação desses elementos em outros sistemas amplia a compreensão sobre as condições que podem levar à formação de ambientes habitáveis fora da Terra.

“De forma semelhante, em outros sistemas planetários, corpos ricos em água podem ser vetores desses elementos fundamentais, contribuindo para ambientes habitáveis. Detectar esses corpos em torno de outras estrelas é a confirmação observacional de que esses reservatórios existem além do nosso sistema solar”, concluiu.

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