O que é o 'Purple Drank' e por que a substância preocupa especialistas?
Em Fortaleza, um aluno de 15 anos foi internado na UTI, nesta quinta-feira (21), sob suspeita de ter ingerido a mistura.
O "Purple Drank", substância que mistura o álcool – geralmente a vodca ou o gim – com remédios antialérgicos (anti-histamínicos), tem causado a preocupação de especialistas. A droga associada tem se popularizado especialmente entre os adolescentes.
Em Fortaleza, um aluno de 15 anos foi internado na UTI, nesta quinta-feira (21), sob suspeita de ter ingerido a mistura.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o médico Bruno Cavalcante, especialista em clínica médica, explica que o álcool potencializa o efeito sedativo da medicação. "O álcool não apenas soma, mas ele multiplica a velocidade e força da medicação, daí surge o risco de problemas mais sérios de saúde", afirma.
A seguir, entenda os riscos e efeitos do coquetel e saiba como buscar ajuda em caso de abuso de substâncias.
Efeitos do "Purple Drank"
Entre os principais efeitos do coquetel estão sonolência intensa, delírio, confusão mental, perda de coordenação motora e problemas respiratórios.
"O paciente começa a ficar chapado, entra em delírio, não reconhece as pessoas, as vezes não consegue nem andar", descreve o médico.
Em casos mais graves, o paciente pode entrar em coma, ter parada cardíaca e até lesão hepática fulminante.
"Parece uma coisa inofensiva, remédios que utilizamos no dia a dia, que geralmente temos em casa, mas que, misturados com álcool, podem dar efeito no sistema respiratório e no sistema nervoso, a ponto de o paciente ir parar na UTI, como o caso do adolescente cearense", detalha o profissional.
Além disso, o paciente pode apresentar queda brusca de pressão, que precisa de monitoramento, e arritmia cardíaca. Segundo o médico, o caso de intoxição requer manter o paciente em observação por pelo menos 48 horas.
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A substância pode matar?
Sim, a substância pode levar à morte, conforme afirma o médico Bruno Cavalcante. "O purple drank pode matar. E não estou usando isso como recurso retórico para assustar. É farmacologia", alerta.
O especialista reforça que que o álcool deprime o sistema nervoso central, assim como os anti-histamínicos. Quando os dois entram juntos no organismo, o efeito se multiplica. É como se o cérebro recebesse um sinal duplo e simultâneo de desaceleração. Assim, a frequência respiratória cai, e o drive respiratório, que é o mecanismo automático que nos faz respirar mesmo dormindo, pode ser suprimido.
.Quando isso acontece, a pessoa não acorda pedindo socorro. Ela simplesmente para de respirar enquanto dorme. É silencioso. É rápido. E é irreversível se ninguém estiver por perto para perceber.
Consumo de substância perigosa já foi trend nos EUA
A substância já virou uma trend perigosa nos Estados Unidos em 2015 e vem se popularizando entre grupos de adolescentes desde então. Apesar de ainda pouco difundida no Ceará e no Brasil, o caso do adolescente de Fortaleza traz um alerta de saúde pública que não pode ser ignorado.
"Casos fatais associados a essa mistura estão documentados na literatura médica internacional. Dois rappers americanos, Pimp C e Big Moe, morreram por overdose envolvendo exatamente essa combinação. No Brasil, os casos existem mas são subnotificados, porque chegam às estatísticas como “intoxicação alcoólica” e ponto final. O remédio não aparece no laudo. A mistura some. E a tendência continua circulando como se fosse inofensiva", esclarece Bruno Cavalcante.
O purple drank pode causar dependência?
Sim. Segundo o especialista, a dependência pode acontecer por duas vias. A primeira é química: age em receptores dopaminérgicos no cérebro, os mesmos receptores envolvidos no circuito de recompensa.
A segunda via é comportamental: o adolescente aprende que aquela combinação "resolve" ansiedade, insegurança social e pressão. E ele pode começar a depender dela para se sentir à vontade em situações que antes enfrentava normalmente.
"É um risco muito grande que às vezes os adolescentes fazem em tom de brincadeira e nem imaginam a repercussão séria que isso pode causar", diz.
Como buscar ajuda em caso de abuso de substâncias?
O médico destaca que, o mais importante, é interromper o uso da substância e colocar o paciente em posição lateralizada para evitar a broncoaspiração, pois o vômito é bastante comum nesses casos. A indicação é encaminhar imediatamente ao hospital ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
"O que mais faz diferença é o atendimento precoce e a hidratação. Hidratar bem esse paciente para lavar a droga do organismo. Se fizer pouco tempo da ingestão, pensar em fazer carvão ativado (utilizado em casos de envenenamento) para que essa droga não seja absorvida", explica Cavalcante.
A prevenção dos casos é primordial no combate ao uso da substância. O especialista alerta que não se deve misturar álcool com nenhum tipo de medicação.
"Quero alertar a todos que não se deve misturar álcool com qualquer remédio que seja, principalmente misturar de forma intencional para potencializar efeitos. Jamais tomar substância sem saber a procedência”, finaliza.
Instituto DimiCuida
Em Fortaleza, o Instituto DimiCuida alerta para os riscos de brincadeiras perigosas como esta. A ONG foi criada após a morte uma jovem de 16 anos, que tentou um desafio de asfixia em 2016.
A orientação dada aos pais é de que evitem a divulgação de vídeos que mostre as brincadeiras perigosas sendo praticadas, para evitar o incentivo da “sensação de pânico” entre pais e responsáveis.
O Instituo também recomenda que os pais conversem com os filhos, de forma a tentar identificar se a criança ou adolescente está familiarizado com conteúdo do tipo, e poderia vir a tentar os “desafios”.