Fissura de lábio e palato: Entenda condição e quando surge na gestação
O diagnóstico pode ser realizado ainda durante a gravidez.
A fissura de lábio e palato é uma malformação congênita que surge durante a gestação e exige diversos tratamentos ao longo da vida. Além da cirurgia para unir as estruturas da face, os bebês também precisam ser acompanhados por especialistas durante o crescimento, como fonoaudiólogos e dentistas.
Esses pacientes podem apresentar alterações na fala, na respiração e na audição. Ao Diário do Nordeste, a médica cirurgiã plástica Clarice Abreu* explicou ainda que eles apresentam maior risco de infecções no ouvido.
Embora seja conhecida, essa condição segue cercada por dúvidas, principalmente entre famílias que recebem o diagnóstico durante o pré-natal. Clarice reforçou a importância da informação clara e acessível para reduzir inseguranças e orientar o tratamento adequado.
O que é fissura de lábio e palato?
A fissura labiopalatina, que costumava ser conhecida como "lábio leporino", é uma condição que pode atingir o lábio e o palato. Ela é uma malformação congênita, em que as estruturas da face do bebê não se unem completamente.
"A condição pode se manifestar apenas no lábio, apenas no céu da boca ou em ambos, variando em extensão e impacto funcional", detalhou a médica Clarice Abreu.
Qual a diferença entre fissura labial, fissura palatina e fissura labiopalatina?
Dentre as características de cada fissura, estão:
- Fissura labial: é uma abertura no lábio superior, que pode variar de um pequeno entalhe até uma separação completa que alcança o nariz;
- Fissura palatina: ocorre no céu da boca (palato), podendo atingir apenas a parte mole (mais posterior) ou também o palato duro (mais anterior);
- Fissura labiopalatina: envolve tanto o lábio quanto o palato, formando uma comunicação entre a boca e o nariz. É a forma mais extensa da condição.
Quando a fissura se forma durante a gestação?
A fissura ocorre no primeiro trimestre da gestação, sendo conhecida por se formar muito precocemente.
Isso porque, segundo a médica, o lábio se desenvolve por volta da 4ª até a 7ª semana, enquanto o palato se desenvolve entre a 8ª e a 12ª semana. "Quando há falha na fusão dessas estruturas, ocorre a fissura", disse.
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A condição pode ser identificada no ultrassom?
Sim. É possível identificar se o bebê apresenta a fissura labial por meio de um ultrassom morfológico, geralmente a partir do segundo trimestre.
No entanto, Clarice alertou que a fissura palatina isolada é mais difícil de diagnosticar antes do nascimento.
O que pode causar fissura de lábio e palato?
A fissura labiopalatina costuma ser associada exclusivamente à herança genética. No entanto, pesquisas científicas apontam que fatores externos podem influenciar.
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), centro de pesquisa nos Estados Unidos, divulgou que, além de fatores genéticos, os médicos consideram o histórico familiar, como:
- Uso de determinados medicamentos durante a gestação;
- Deficiência de ácido fólico;
- Tabagismo;
- Consumo de álcool;
- Doenças maternas não controladas, como diabetes.
Como é feito o diagnóstico durante a gravidez?
Por meio dos exames de ultrassonografia morfológica, o diagnóstico pode ser feito ainda durante a gestação.
Com essa identificação precoce, a família pode receber orientações antes do nascimento e já buscar equipes especializadas.
“Quando a família entende desde cedo o que está acontecendo e quais serão os próximos passos, o impacto emocional do diagnóstico é menor e o cuidado se torna mais organizado”.
Quais desafios o bebê pode enfrentar?
Os bebês que nascem com a fissura no lábio e no palato podem apresentar alguns desafios ao longo do desenvolvimento, como:
- Dificuldade para se alimentar, principalmente nos casos com fissura de palato;
- Maior risco de infecções de ouvido;
- Alterações na fala ao longo do desenvolvimento;
- Impactos na respiração e na audição;
- Questões emocionais e sociais ao longo da infância.
Porém, com o tratamento adequado, aliado ao acompanhamento multidisciplinar, as crianças podem ter uma boa qualidade de vida.
Quais são os tratamentos e acompanhamentos após o nascimento?
A correção cirúrgica costuma ser um dos primeiros tratamentos realizados, já que ocorre nos primeiros meses de vida do bebê. Porém, o acompanhamento segue por anos, considerando as diferentes etapas de crescimento e as necessidades individuais de cada paciente.
Esse tratamento progressivo pode envolver profissionais de diferentes áreas, uma vez que exige fonoaudiólogos, dentistas, otorrinolaringologistas e psicólogos.
Toda fissura precisa de cirurgia?
A médica explicou que a cirurgia é necessária na maioria dos casos, já que é um procedimento fundamental para "corrigir a anatomia e permitir o desenvolvimento adequado da alimentação, da fala e da respiração".
Fissura de lábio e palato tem cura?
A fissura labiopalatina não tem “cura”, no sentido tradicional, mas é tratável. Isso porque, com cirurgias e acompanhamento especializado, é possível reconstruir as estruturas.
Os médicos também são capazes de restaurar funções, como fala e alimentação, e proporcionar uma aparência natural.
O bebê consegue se alimentar normalmente?
A capacidade de alimentação depende do tipo de fissura. No caso dos bebês que possuem fissura apenas no lábio, eles costumam conseguir mamar com menos dificuldade.
Porém, os pacientes com fissura de palato apresentam dificuldade de sucção. Para contornar esse problema, é necessário aplicar técnicas específicas ou usar mamadeiras adaptadas.
Existe forma de prevenir fissura labiopalatina?
Não há como garantir a prevenção completa, uma vez que há fatores genéticos. Os riscos podem diminuir com:
- Uso de ácido fólico antes e durante a gestação;
- Evitar álcool, tabaco e certas medicações sem orientação médica;
- Acompanhamento pré-natal adequado.
*Clarice Abreu é médica cirurgiã plástica e craniomaxilofacial, tendo mais de 20 anos de atuação na medicina e 12 anos de formação acadêmica no Brasil e no exterior. Graduada em Medicina pela UERJ, possui residências em Cirurgia Geral e Cirurgia Plástica. Tem passagens por centros nos Estados Unidos, Holanda, Suíça, França e Inglaterra.