Imunização de bebês contra VSR pode reduzir internações na sazonalidade
Medida também previne doenças mais graves e contribui na redução na sobrecarga do sistema de saúde.
Quando Núbia Santana viu sua filha de três meses ficar internada por mais de 15 dias em uma UTI, percebeu que o vírus sincicial respiratório (VSR) era mais do que um resfriado comum. Ainda que os primeiros sintomas tenham sido similares, a doença progrediu rapidamente para um estado grave. Foi após essa experiência que a babá de 38 anos passou a alertar outras mães sobre a importância da prevenção e do acesso ao imunizante Beyfortus.
Disponível no sistema público e privado, esse novo imunizante tem sido um importante aliado na tentativa de prevenir quadros de bronquiolite e reduzir o número de internações hospitalares de bebês de até um ano, principalmente durante o período da sazonalidade, em que há registro de maior circulação viral.
O vírus sincicial respiratório (VSR) é um dos principais responsáveis por infecções respiratórias em bebês e crianças pequenas. Assim, garantir essa proteção nos primeiros meses de vida ajuda a diminuir complicações respiratórias e, até mesmo, a aliviar a pressão sobre os serviços de saúde.
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Segundo a médica infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o VSR é um dos vírus respiratórios com maior impacto para o sistema público de saúde. Isso porque, durante a sazonalidade, há crescimento no número de atendimentos e internações.
“É um vírus que não tem tratamento específico e é conhecido como um dos principais causadores de bronquiolite”, afirmou durante evento realizado em São Paulo, na última terça-feira (17).
Impacto das internações para o sistema de saúde
Nesse contexto, a imunização durante a gestação e logo após o nascimento surge como uma estratégia para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde.
Com altas taxas de hospitalização entre bebês de até um ano, os casos exigem acompanhamento cuidadoso e podem gerar custos elevados. “Uma internação sem UTI pode chegar a cerca de nove mil reais”, destacou Rosana.
A filha de Núdia, Catarina, por exemplo, chegou a precisar de duas transfusões de sangue por conta de anemia. "A situação foi muito delicada. Ela foi intubada, e cada dia era uma batalha. Os médicos faziam exames diários, radiografias frequentes, e a atelectasia era uma preocupação constante", detalhou.
Nos meses de abril e maio, a necessidade de internações por doenças respiratórias pode impactar a disponibilidade de leitos para outros pacientes, já que muitas vagas acabam ocupadas por crianças com complicações causadas pelo vírus.
Informar à população sobre o imunizante
O infectologista pediátrico Renato Kfouri também chamou atenção para a vulnerabilidade dos bebês. Ele defendeu a ampliação da proteção ainda nos primeiros dias de vida, com a aplicação do imunizante antes mesmo da alta da maternidade.
De acordo com o especialista, uma das vantagens da estratégia adotada no Brasil é a proteção combinada. O país optou por imunizar tanto as gestantes quanto os recém-nascidos, ampliando o tempo de proteção contra o vírus.
Para isso, é importante aumentar o acesso à informação sobre o imunizante para que as famílias conheçam as novas formas de prevenção. “Não tem como querer algo que nem sabemos que existe”, concordou Rosanna.
A diretora da ONG Prematuridade, Denise Suguitani, acrescentou ainda a necessidade de focar em um trabalho de conscientização, principalmente com os pais que são resistentes a dar o anticorpo. “O bebê ter nascido prematuro não é um impedimento para receber a vacina. Prematuridade não é doença”, destacou Denise.
Desafios para amplicação do imunizante
Dentre os principais desafios no Brasil, Renato citou a dificuldade de acesso. Há algumas regiões, principalmente no Norte, onde é mais difícil chegar às famílias.
No Brasil, as aplicações começaram neste ano. Para monitorar esse progresso, é preciso estar atento ao Sistema de Vigilância Sentinela e à Vigilância de Síndromes Respiratórias Graves do Ministério da Saúde.
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Nos países que iniciaram antes a aplicação do imunizante, já foi registrado:
- Queda dos casos;
- Diminuição da internação;
- Baixa mortalidade.
O Paraguai apresentou redução superior a 70% nos atendimentos médicos e hospitalizações por VSR, segundo dados do governo do país. No Chile, houve a queda de 76% nas hospitalizações e 85% nas internações em UTI Pediátrica por VSR. Eles ainda apresentaram zero mortes pelo vírus em bebês menores de um ano durante 2024.
“É um divisor de águas. Reduz pela metade as hospitalizações e internações. E a expectativa é que a gente possa ver o mesmo aqui no Brasil”, disse Renato.
O que é o Beyfortus?
O imunizante Beyfortus, com o anticorpo nirsevimabe, busca ampliar a defesa contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Administrado em dose única, ele integra uma nova medida preventiva aprovada e incorporada ao SUS. Ele é um anticorpo de ação prolongada que garante proteção direta contra o vírus.
Em Fortaleza, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), a aplicação pode ser feita no Hospital Universitário do Ceará (HUC), no Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac).
O acesso às doses em postos de saúde requer avaliação médica e prescrição, especialmente para crianças menores de 23 meses, que devem confirmar a comorbidade.
*A repórter viajou a convite da Sanofi, empresa farmacêutica, para evento em São Paulo.