MP denuncia irmãos presos por decepar mãos e tentar matar jovem em Quixeramobim
A dupla é acusada por tentativa de feminicídio qualificado.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou os irmãos Evangelista Rocha dos Santos e Ronivaldo Rocha dos Santos por tentar matar Ana Clara de Oliveira, de 21 anos, em Quixeramobim. A jovem teve as mãos decepadas em um ataque brutal, no dia 1º de maio de 2026.
A acusação enviada ao Poder Judiciário foi assinada pela promotora de Justiça Juliana Santos, que destaca que "os denunciados agiram com emprego de meio cruel, ao infringirem intenso sofrimento à vítima, bem como mediante recurso que dificultou sua defesa, uma vez que foi surpreendida em sua residência pelos agentes, os quais se encontravam armados com uma foice".
O MP pede que os denunciados paguem danos morais no valor de R$ 97,2 mil. Os irmãos seguem presos desde o dia do flagrante. A defesa deles não foi localizada pela reportagem para comentar sobre a denúncia.
'VIOLÊNCIA EXTREMA, CRUEL E DESPROPORCIONAL'
De acordo com a Delegacia Municipal de Quixeramobim, a dupla usou "violência extrema, cruel e desproporcional" contra a mulher, em um contexto de violência doméstica de Ronivaldo contra Ana, "marcado por agressões físicas, ameaças, humilhações, comportamento possessivo".
Os homens estão presos na Unidade Prisional de Caucaia, após serem transferidos de Quixeramobim.
"Verificou-se que o crime foi praticado mediante recurso que dificultou a defesa da vítima, uma vez que os investigados utilizaram dissimulação para induzi-la a abrir a janela da residência antes do ataque", pontuou o relatório de indiciamento, assinado pelo delegado William Soares Lopes.
Segundo as investigações, o então companheiro já havia ameaçado a jovem, afirmando que "ainda iria cortar as mãos dela", caso ela não aceitasse ser controlada.
Ana Clara está internada no Instituto Doutor José Frota (IJF), onde teve as mãos reimplantadas em uma cirurgia de 12 horas. Ela deixou a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no último dia 8 de maio, após uma semana internada.
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'Brutal tentativa de feminicídio'
Segundo a delegacia, Ronivaldo foi movido por "sentimento de posse, vingança, dominação e inconformismo" da vítima, que sofreu uma "brutal tentativa de feminicídio". O relatório informa que foi ele quem forneceu a foice e incentivou o irmão a praticar o crime.
Antes do ataque violento, o Ronivaldo chega de carro com Ana Clara, e eles discutem enquanto ela desce do carro. Momentos depois, o homem convoca o irmão e diz que ele "pode matá-la".
"Do lado de fora, o suspeito Rone passa a gritar ordens de execução, utilizando termos injuriosos ("ei, pode matar ela, pode matar, pode matar, pode matar"), o que serviu de comando para que Evangelista iniciasse a agressão física (golpes de arma branca/objeto perfurocortante)", aponta o indiciamento.
Leia o diálogo entre os irmãos após a morte:
Rone: "Evangelista, ei tu matou macho?"
Evangelista: "Sim, já era."
Rone: "faz isso não macho?"
Rone: "tu matou?
Evangelista: "Sim, já era."
Rone: "Tu matou"?
Evangelista: "Sim, já era."
Rone: "não era pra ter feito isso não, macho."
Rone: "ei macho tu acabou com a nossa vida."
Evangelista: "já era."
Rone: "não era pra ter feito isso não, macho."
Evangelista: "tu que mandou, já era."
Rone: "eu sei".
Rone: "ei macho tu acabou com a nossa vida."
Evangelista: "já era, bora simbora."
Evangelista: "bora bora bora"
Ainda conforme os documentos, o cunhado enganou a jovem para que ela o deixasse entrar na casa, surpreendeu-a "de forma abrupta e desferindo sucessivos golpes de foice em diversas regiões de seu corpo, causando múltiplas lesões graves e mutilações, circunstâncias que somente não culminaram no resultado morte por circunstâncias alheias à vontade dos agentes, especialmente em razão do socorro médico prestado à vítima".
AGRESSÕES CONSTANTES
Ronivaldo Rocha dos Santos é agiota e tem histórico de violência e ameaças, de acordo com investigação da Polícia Civil. Assim como deu a ordem para o irmão, Evangelista Rocha dos Santos, matar Clara, o homem usava o parente para cobrar clientes de forma agressiva.
A investigação revelou que Ana Clara era constantemente alvo de agressões físicas, humilhações, ameaças, controle psicológico, destruição patrimonial e comportamento possessivo.
Com a apreensão do celular de Ronivaldo, foi possível ainda observar um "contexto contínuo de violência doméstica", com uma "escala progressiva de agressões", além da "naturalização da violência contra a vítima".
O relacionamento de Ronivaldo com Ana Clara era marcado por "discussões recorrentes, acusações mútuas de traição e momentos alternados de conflito e reconciliação, evidenciando um vínculo instável".
No dia da tentativa de feminicídio, o então casal brigou do lado de fora da casa da mulher, e ele a chamou de "vagabunda" e a acusou de roubo.
Jovem se recupera após ter mãos reimplantadas
Ana Clara se recupera bem no IJF, após passar pelas últimas cirurgias, na última sexta (8) e nessa segunda-feira (11). Os procedimentos fazem parte do plano dos médicos que atendem à jovem desde o dia do ataque.
As novas cirurgias foram feitas por complicações no reimplante das mãos e também para reparar um tendão da panturrilha, também atingido durante o ataque.
Os médicos informaram à família de Clara que as cirurgias foram complexas, mas pontuaram que o quadro dela é mais estável que o da primeira semana após a tentativa de feminicídio. As informações foram repassadas ao Diário do Nordeste pelos parentes de Ana Clara.